Quinta-feira, 6 de Agosto, 2020
Fórum

Contar a verdade apesar dos poderosos é um princípio fundamental do jornalismo

Na cerimónia de entrega do Prémio Hitchens, que distingue um jornalista ou autor cuja obra demonstre uma dedicação à liberdade de expressão e a constante procura da verdade, sem receio das consequências, Marty Baron, actual director editorial do Washington Post, definiu a missão do jornalismo como sendo a de exigir contas aos mais poderosos. O seu discurso de agradecimento vem publicado na Vanity Fair, da qual Hitchens foi colaborador, e na Global Investigative Journalism Network, como uma “mensagem aos jornalistas na era de Trump”.

O Prémio, criado pela Fundação Dennis & Victoria Ross em homenagem ao falecido escritor britânico Christopher Hitchens, é tão recente que o próprio homenageado neste ano admitiu que não tinha conhecimento dele. 

Marty Baron sublinhou as diferenças entre ele mesmo e Christopher Hitchens, mas citou, a seguir, a resposta que este dera quando lhe fora perguntado o que pensava da fatwa lançada pelo Ayatollah Khomeini contra o escritor Salman Rushdie. E a resposta era que se tratava de tudo o que detestava contra tudo o que amava. De um lado a ditadura, a religião, a estupidez, a demagogia, a censura, bullying e intimidação. Do outro lado, a literatura, a ironia, humor, o indivíduo e a defesa da liberdade de expressão, mais a amizade. 

É neste terreno dos valores, exceptuando a referência à religião  - que, sublinhou Marty Baron, ele próprio não odeia -  que se considera em comunhão com Christopher Hitchens:

“Os valores são o que mais importa. E esta é uma boa altura para falar deles. Uma boa altura para reafirmar aquilo por que nós, jornalistas, nos batemos.” 

Marty Baron referiu-se então ao Presidente que vai ser proximamente empossado, e que “foi eleito depois de ter conduzido um ataque directo contra a Imprensa; a animosidade contra os media era uma peça central da sua campanha”. Recordou que ele considerou os jornalistas “a mais baixa forma de humanidade”, e depois “a mais baixa forma de vida”. Recordou também que o jornal Washington Post teve as credenciais de acesso revogadas durante a campanha. 

“Muitos jornalistas  - disse depois -  interrogam-se com preocupação considerável como é que vai ser para nós nos próximos quatro, ou talvez oito anos. Vamos ser constantemente assediados e caluniados? O novo governo vai usar todas as oportunidades para tentar intimidar-nos? Vamos enfrentar obstruções em toda a parte?” 

Em última instância, afirmou, “a defesa da liberdade de Imprensa está no nosso trabalho diário”, e citou os princípios estabelecidos em 1933 pelo então novo proprietário do Washington Post, Eugene Meyer: “A primeira missão de um jornal é contar a verdade, tão exacta como essa verdade possa ser averiguada.” 

E foi a propósito da sua própria experiência enquanto editor do Boston Globe, cuja equipa de investigação Spotlight conduziu a famosa reportagem de denúncia da pedofilia e seu encobrimento entre o clero católico da região de Boston, que Marty Baron recordou uma pergunta que lhe era feita depois de o tema ser tratado em filme: como é que tinham procedido desse modo contra a mais poderosa instituição da Nova Inglaterra, e uma das mais poderosas do mundo, a Igreja Católica. Disse Marty Baron: 

“Essa pergunta realmente deixa-me perplexo, principalmente quando vem de jornalistas ou de quem deseja entrar na profissão. Porque exigir contas aos mais poderosos é aquilo que se espera que nós façamos. Se não fizermos isso, então qual é, exactamente, o propósito do jornalismo? Deus nos livre de nos metermos com as instituições ou os indivíduos mais fracos, deixando de fora os mais fortes, só porque podem ripostar com toda a força."

 

O discurso de Marty Baron, na íntegra, na Vanity Fair e na GIJN; imagem do Departamento de Jornalismo da Lehigh University

 

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Opinião
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Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena