null, 21 de Abril, 2019
Media

Trabalho precário e mal remunerado afecta o jornalismo praticado em Portugal

As condições em que trabalham hoje os jornalistas portugueses significam salários baixos e vínculo profissional precário. Implicam também um abandono precoce da profissão, decorrente desta mesma precariedade. São estas algumas das conclusões de um inquérito feito a 806 profissionais, de todo o País, por João Miranda, investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) da Universidade de Coimbra, no âmbito de uma tese de doutoramento.

Segundo os resultados deste trabalho, realizado durante o ano passado e agora apresentado na Faculdade de Letras daquela Universidade, da qual João Miranda é docente e doutorando, um pouco mais de metade (56,3%) dos jornalistas declara receber 1000, ou menos, euros brutos por mês, o que significa “valores líquidos ainda mais baixos, que não incluem impostos nem descontos”.

Nos termos da notícia do Público online, que aqui citamos, “o grupo mais significativo é o dos que recebem entre 601 e 900 euros, com 22,1% dos inquiridos, e uma percentagem relevante (7,3%) que refere receber abaixo do que era o salário mínimo quando foi desenvolvido o inquérito”.

“Com melhores remunerações, há 19,1% que declaram receber entre 1001 e 1500 euros e 24,6% que indicam mais de 1500 euros brutos como rendimento mensal.” 

Apenas metade dos inquiridos trabalha sem ser em contratos a termo, estando 19,8% em regime de prestação de serviços (“recibos verdes”) e 5,2% também naquele regime, mas com avença mensal fixa. “O investigador sublinha que um cruzamento de dados permite concluir que, dos 19,8% que trabalham em prestação de serviços, 34,5% recebem um valor fixo apesar de não terem qualquer contrato de avença, sendo que 63,5% dependem do número de peças ou caracteres que produzem.” 

Quase um quarto dos jornalistas declara ser alvo de pressões da administração, no exercício do seu trabalho, e percentagem semelhante identifica pressões da direcção editorial. 

“Os resultados mostram ainda que é ‘aos mecanismos de auto-regulação que os jornalistas conferem maior importância’, avalia. Código deontológico, estatuto editorial, livro de estilo ou código de conduta e conselho de redacção são os mecanismos que os jornalistas consideram mais importantes. 93,1% concorda com a importância de mecanismos de autorregulação.”

 

Consultada sobre este estudo, a Presidente do Sindicato dos Jornalistas, Sofia Branco, considerando “importante que a sociedade e a tutela tenham a noção que metade dos jornalistas em Portugal ganha menos de 1000 euros, situação que é grave, afirma que, num inquérito encomendado pelo Sindicato e que vai ser lançado no Congresso dos Jornalistas Portugueses, essa percentagem ainda é superior”.

Nesse estudo, feito pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia com o Sindicato dos Jornalistas e Obercom, com uma amostra de 1491 respostas, também é maior a percentagem de recibos verdes, bem como a dos que declaram sofrer pressões internas, da administração ou da direcção. 

A precarização da profissão é um dos pontos a ser debatido no Congresso de Jornalistas em Janeiro. “Há muitas questões que são semelhantes às 1998”, quando se realizou o último congresso, afirma Sofia Branco, nomeadamente de ordem ética e deontológica. Por outro lado, há uma “transformação tecnológica e de modelo de negócio significativa a colocar desafios importantes”.

 

Mais informação no Público online, de onde colhemos a imagem, de Daniel Rocha  

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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