Quarta-feira, 5 de Agosto, 2020
Media

Jornalismo é uma profissão desejada por muitos mas marcada por incertezas e riscos

O que leva tantos jovens a desejarem o jornalismo? E o que os espera à saída do curso? Segundo o Relatório Anual da Profissão do Jornalismo em 2016, apresentado pela Asociación de la Prensa de Madrid, há 7.890 jornalistas registados em situação de desemprego, o que representa um aumento de 78% em relação a 2008, quando começou a grande crise. No entanto, as faculdades espanholas continuam a produzir 6.000 licenciados por ano  -  dez vezes mais do que o mercado consegue absorver.

Estes números, e a situação que descrevem, são reflectidos por Miguel Ormaetxea em artigo publicado na Media-tics, e o que ele conta é que o quadro real, visto de perto, é ainda pior. 

Mais de 55% dos jornalistas que trabalham têm uma jornada laboral de cerca de 45 horas semanais, e 40% dos que têm contrato ganham, ou menos de 600 euros, ou um máximo de 1.500 por mês. Entre os que trabalham de modo independente [autónomos, no relatório], 35% declaram que, ou não recebem nada, ou então alguma importância até um máximo de 1.000 euros por mês. 

“Se fizermos um cálculo sobre as 180 horas por mês da franja maioritária dos jornalistas que têm trabalho, podemos deduzir que recebem cerca de 5,5 euros por cada hora de trabalho  - mais ou menos metade do que cobram as empregadas de trabalho doméstico.” 

O texto de Miguel Ormaetxea incide sobretudo nas condições laborais, comparando a situação espanhola com a de outros países europeus, como a Alemanha e o Reino Unido, por exemplo, que também não é famosa: 

“Estes dados têm origem, em grande parte, na desastrosa situação dos meios de comunicação tradicionais. Basta um dado: segundo a Infoadex, os diários receberam, em 2007, um investimento publicitário de 2.027 milhões de euros. No ano passado esta importância reduziu-se a 658 milhões, e ainda não bateu no fundo.”  

“A difusão dos diários espanhóis, em 2007, estava em 4,3 milhões de exemplares, e agora está perto dos dois milhões de exemplares por dia, o que nos coloca no penúltimo lugar dentro da União Europeia.”

A última reflexão de autor é sobre os riscos de vida que o jornalismo implica cada vez mais, citando agora os números mais recentes de Repórteres sem Fronteiras  - que apresentamos noutro local deste site. Interroga-se Miguel Ormaetxea: “Por que será que os aspirantes a jornalistas continuam a encher as aulas?”

 

 

Mais informação no artigo citado, cuja imagem incluímos, e a reportagem da APM na apresentação do relatório, onde se explica também o modo de o obter

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Opinião
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Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena