null, 21 de Abril, 2019
Media

“Le Canard Enchaîné” - o “pato” a quem os ministros atendem o telefone

“Le Canard Enchaîné” é um pato realista. O famoso semanário satírico francês sabe que terá, um destes dias, de passar a ser digital, mas vai adiando até poder... E gaba-se disso. Assim como se gaba de ser independente de todos os poderes, incluindo o económico, porque não inclui publicidade. Não se incomoda de fazer jornalismo de investigação. Mas acautela o seu rigor e credibilidade. “Se telefonarmos a um ministro, por exemplo, ele responde.”

A passar um século de vida, com uma redacção de três dezenas de jornalistas e 400 mil exemplares em papel, vendidos todas as semanas, Le Canard Enchaîné é um exemplo de sobrevivência no meio de uma tempestade com muitas vítimas; por exemplo, embora tenha sofrido alguma queda nas vendas, continua a dar lucro  - cerca de três milhões de euros em 2015, sem aumentar o preço (1,20 euros) desde 1993. O editor-chefe, Érik Empatz, foi entrevistado pela Rádio Renascença e, sem querer dar lições aos outros, explica os segredos do sucesso:

 

“Desde o início que nunca tivemos publicidade. Não dependemos dos grandes grupos económicos, como foi acontecendo com outros jornais franceses que foram comprados. Penso que é isso que nos torna fortes.”

 E noutro ponto:

“Se tivéssemos apenas um conselho a deixar, seria este: a independência de um jornal começa na caixa registadora.Quero dizer com isto que devemos tentar ser o mais independentes possíveis em termos financeiros. A independência financeira dá uma força que agrada aos leitores.” 

Em relação às novas tecnologias, faz um reparo:

“Não cometemos um erro que muitos jornais em França  – e noutros países –  cometeram, quer sejam diários ou semanários. A maioria precipitou-se e foi a correr para a Internet. Passaram a disponibilizar os artigos de forma gratuita. E, depois, graças a esta ‘fórmula gratuita’, perderam uma boa parte dos seus leitores.” 

Mas é realista:

“Por enquanto, a Internet não está no topo das nossas prioridades porque as nossas vendas em papel ainda são muito boas. (...) Se, um dia, passarmos apenas a estar disponíveis na Internet, o que deverá acontecer no futuro  – provavelmente, num futuro muito próximo –, isso será também porque em França há uma diminuição muito acentuada dos pontos de venda. Existem cada vez menos quiosques, desapareceram muitos nos últimos anos. E isso é muito preocupante.” 

O outro “segredo” de Érik Empatz é defender o rigor do semanário, sobretudo em matéria de reportagem de investigação:

“Não publicamos informações se não tivermos provas suficientes que as sustentem. Somos muitas vezes ultrapassados pela concorrência porque consideramos que não tínhamos provas suficientes para publicar determinada história. Mas é o facto de não abdicarmos desse rigor, em detrimento da velocidade de publicação, que, no fim das contas, nos garante a reputação de sermos exactos e precisos nas investigações que levamos a cabo.” 


A entrevista à RR, na íntegra. Pesquisar no arquivo do CPI "Le Canard Enchaîné soma e segue cem anos depois"

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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