Segunda-feira, 24 de Junho, 2019
Media

Plataformas digitais transformam os conteúdos e o jornalismo em meros brindes

Quando as empresas prestadoras de serviços acabam por se tornar proprietárias dos seus clientes, e quando ocupam o seu espaço até fazerem deles seus “inquilinos”, ainda podemos dizer que o negócio foi de interesse recíproco? E se estivermos a falar da relação entre os jornais e as plataformas de distribuição? Esta reflexão é o tema de um longo estudo fazendo o ponto de situação deste conflito de interesses, que conduz a uma “servidão voluntária” da Imprensa, a troco da miragem de uma audiência ilusória.

O estudo, publicado no Acrimed, começa por chamar a atenção para o facto, “público mas pouco conhecido”, de que Jeff Bezos, fundador da Amazon, é, desde Outubro de 2013, também o proprietário do jornal norte-americano The Washington Post. E que esta “aquisição de um jornal por um oligarca do digital ilustra uma tendência actual: que, desde há uns anos, actores como Google, Apple, Facebook e Amazon (chamados os GAFA) estão a investir em força, directa ou indirectamente, na Imprensa”. 

Depois, outra diferença, muito recente: até há uns meses, a utilização das redes sociais pelos jornais franceses funcionava como uma retransmissão dos seus artigos pelo Facebook, Twitter e outras menos conhecidas; o leitor encontrava a referência ao artigo e, quando fazia clic, era reenviado para o site correspondente. 

Agora, as mesmas redes tornaram-se espaços de publicação, onde os jornais colocam directamente os seus “conteúdos”. O “isco” era a promessa de conquistarem novas audiências, mas neste processo os jornais abdicaram, no fundo, da propriedade do seu produto. O Facebook, como a Google e o Snaptchat, “são soberanos nos seus espaços” e é a Imprensa que “fica dependente das condições que lhe são impostas”. Onde está a garantia, por exemplo, de que o leitor que encontra artigos de Le Monde no Snapchat continuará a ir ao site próprio do diário? 

Bem documentado, e incidindo, naturalmente, no caso francês, o estudo de Benjamin Lagues descreve um momento em que vários editores europeus tentaram travar a Google mas acabaram por ser derrotados e forçados a recuar, na Espanha, na Alemanha e na Bélgica. 

Em França, as empresas que fornecem o acesso à Internet estão a tornar-se, também, as proprietárias de jornais  -  “como a Free, por intermédio do seu director Xavier Niel, que detém, com Bergé e Pigasse, o grupo Le Monde (incluindo L’Obs, Télérama, Courrier International) e a SFR, por intermédio de Patrick Drahi, que detém o grupo L’Express e o título Libération”. 

O autor conclui:

“A falta de reacção dos governantes perante as práticas dos actores do digital já não é surpresa. Caminho andado, o jornalismo tornou-se, para estes gigantes, o que era antes a cafeteira ou o rádio-despertador de cabeceira oferecido pela Télérama: um simples brinde.”

 

O artigo original, na íntegra, no site Acrimed

Connosco
Crónica da liberdade perdida da Imprensa na Turquia de Erdogan Ver galeria

“Pelo menos nós experimentámos o que significa ser jornalista”  - dizia Murat Yetkin, de 59 anos, uma semana depois de ter deixado as suas funções de director do Hürriyet Daily News, a edição em língua inglesa do Hürriyet, um dos mais importantes diários na Turquia. “Tenho pena por estes jovens que não puderam e já não podem.”

O Hürriyet foi um dos muitos jornais adquiridos e desmantelados pela família agora mais proeminente entre os media turcos, os Demirören  - que nos últimos sete anos se tornaram donos de um terço deles. Em Março de 2018, Aydin Dogan, que fora um dos mais poderosos donos de jornais, anunciou que ia vender o seu “navio-almirante” (o Hürriyet) e vários outros activos aos Demirören, grandes apoiantes do Presidente Recep Erdogan. A Imprensa passou a designar o patriarca da família, Erdogan Demirören [entretanto falecido], como o Rupert Murdoch da Turquia.

Mas, como explica Suzy Hansen, autora de Notes on a Foreign Country: An American Abroad in a Post-American World, os Murdoch, “especialmente na era de Donald Trump, são ‘fazedores de reis’; Erdogan nunca deixaria ninguém ter tanta influência”. Basicamente, os Demirören trabalham para Erdogan. Na Turquia, o único “fazedor de reis” é o rei.

"PortoCartoon" abrange novos espaços no Grande Porto Ver galeria

Foi inaugurada no Museu Nacional da Imprensa, no Porto, onde fica aberta ao público até ao final do ano, a exposição PortoCartoon 2019, tendo sido feita a entrega dos prémios, conhecidos desde Março. A 21ª edição do festival é este ano alargada a vários espaços na área do Grande Porto, desdobrando-se pela Festa da Caricatura, na Estação de S. Bento, por uma galeria de arte no Centro Comercial Alameda, por uma exposição especial sobre Fernão de Magalhães no Convento Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, uma escultura do Grande Prémio no Passeio dos Clérigos e outras extensões da mostra em diversos locais da cidade.

Segundo Luís Humberto Marcos, director do Museu Nacional da Imprensa, “esta é até agora a maior edição de sempre do PortoCartoon em termos não só geográficos, mas também de diversidade de obras”; o certame reuniu cerca de 1.200 trabalhos, numa altura em que  - como afirmou -  “o cartoon constitui um instrumento essencial para o oxigénio da democracia”.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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