Quarta-feira, 5 de Agosto, 2020
Media

A importância das palavras e o papel dos Media perante a realidade mal conhecida

Há expressões que deformam a realidade, ou tentam camuflar parte dela. Há outras, pelo contrário, que identificam uma realidade mal conhecida, lhe dão nome próprio e contribuem, assim, para a consciência pública dela. Os meios de comunicação têm um papel importante neste processo de difusão do facto e do conceito, até à sua consagração final no dicionário. É este o tema de um estudo publicado no Observatório dos Media francês, Acrimed, sobre uma expressão nascida há pouco mais de quatro anos: o "assédio de rua".

Os factos são mais antigos; o artigo que citamos designa-os por uma série de termos encadeados  -  "assobios, solicitações verbais, gestos obscenos", ou "o comportamento de homens (caso mais frequente) que interpelam, assobiam ou insultam mulheres (caso mais frequente) na rua". 

Mas a expressão aparece pela primeira vez, na Imprensa francesa, num artigo de Le Figaro, em 2 de Agosto de 2012, e a sua importância cresceu rapidamente; de modo paralelo, no Twitter, o hashtag #harcelementderue conheceu uma popularidade imediata. 

Pouco antes, em 26 de Julho do mesmo ano, a RTBF – Rádio-Televisão Belga Fancófona tinha difundido um documentário de Sophie Peeters intitulado Femme de la rue, sobre situações de assédio a mulheres em Bruxelas. Logo a seguir, a expressão harcèlement de rue "fez uma grande entrada na Imprensa francesa: do Figaro ao Monde, passando por La Voix du Nord e La Nouvelle République, nada menos que 21 artigos a utilizaram no espaço de poucos dias". 

Os arquivos do Twitter datam a aparição do hashtag em 31 de Julho, portanto logo após a difusão do documentário e pouco antes do primeiro artigo impresso; e quatro em cada nove utilizadores(as) identificam-se como "feministas" no seu perfil. A autora deste artigo aponta que o assédio de rua já era teorizado entre as feministas nos EUA, onde se designava por street harassment

Violaine Nicaud descreve, depois, a expansão de harcèlement de rue na Imprensa escrita: pouco expressiva depois do início e durante o ano seguinte, mas crescente a partir de 2014. Uma análise mais fina "mostra que a Imprensa regional parece interessar-se mais pelo fenómeno do ‘assédio de rua’ do que a nacional", por efeito de debates sobre o tema ou mesmo a constituição de associações com o objectivo de sensibilizar para este tipo de assédio  - como a Stop harcèlement de rue

A autora comenta também o progressivo desaparecimento das aspas na apresentação da expressão, que é indicativo "para predizer se um neologismo será solúvel na cultura de um país". O primeiro artigo de Le Figaro, acima mencionado, já fazia eco de um debate entre os utentes do Twitter, opondo pessoas que davam testemunho de situações que tinham a ver com ‘assédio de rua’ a outras "que minimizavam ou negavam o fenómeno". 

A consagração de um neologismo é a sua entrada no dicionário. Em 2015, três anos depois do início da sua difusão, a expressão integra Le Petit Robert, com a seguinte definição: "Acto de abordar alguém com insistência, ou de lhe fazer assédio verbal num espaço público."


O artigo original, na íntegra, no Acrimed, com imagem do twitter StopHarcèlementDeRue

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Opinião
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No meio de transferências milionárias, ao jeito do futebol de alta competição, em que se envolveram dois operadores privados de televisão, a paisagem mediática portuguesa, em vésperas da primeira  “silly season” da “nova normalidade”, está longe de respirar saúde e desafogo. Se a Imprensa regional e local vive em permanente ansiedade, devido ao sufoco financeiro que espartilha a maioria dos seus...
O discurso de ódio na internet
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Uma certeza que nasceu nos últimos meses é a facilidade com que as pessoas mudam de hábitos. Em consequência o comportamento face ao consumo de conteúdos está a modificar-se cada vez de forma mais rápida e os mais novos são claramente os que com maior facilidade adoptam novidades. Durante o confinamento e a explosão de uso da internet houve uma aplicação que ganhou destaque em todo o mundo – o Tik Tok. Trata-se...
Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena