Quinta-feira, 11 de Agosto, 2022
Media

Jornalismo "reinventa-se" nos EUA e aposta nos temas locais

Os meios de comunicação, nos EUA, estão a fazer um esforço de “reinvenção” na nova era aberta pelo resultado das eleições presidenciais. Editores e jornalistas de vários dos mais conhecidos jornais de referência estiveram reunidos, na Universidade de Harvard, para partilhar experiências e o propósito de retomarem o seu papel de “garantes dos valores democráticos”. A divulgação de trabalhos de esclarecimento público sobre temas controversos, um esforço de envolvimento maior dos leitores, e uma aposta mais clara no jornalismo local, contam-se entre os caminhos propostos.

O primeiro caso apresentado no texto que citamos, em Media-Tics, é o do diário The Boston Globe, que decidiu, após o tiroteio de Junho de 2016, numa discoteca de Orlando, esclarecer o que está realmente em causa na venda desregulada de armas de tipo militar, como decorrente do respeito pela Segunda Emenda. Katie Kingsbury, a responsável pela edição digital, apresentou a primeira página dessa edição, que mostra uma imagem da M-15, a versão civil da espingarda de assalto M-16, usada na guerra do Vietname. 

O editorial lembra que a arma mais vulgar na América Colonial era o mosquete Brown Bess, que podia disparar um tiro a cada 20 segundos e abater tanto um homem como um alce, sendo usado por soldados ou civis e considerado a espingarda de assalto do seu tempo. A M-15 pode disparar 45 balas por minuto. 

Como sublinha o editorial, “neste país, o governo federal limita os caçadores de patos a usarem armas que só levam três cartuchos, para proteger a população dos patos; mas qualquer pessoa pode comprar uma arma de assalto em sete minutos e um número ilimitado de munições para a abastecer”. Isto coloca em perspectiva as interpretações permissivas que se fazem hoje da Segunda Emenda, à luz da realidade actual e da que era vivida pelos Founding Fathers da América.

Representantes de jornais como The Wall Street Journal, The New York Times e The Huffington Post, falaram do esforço feito na direcção do aumento de assinaturas, ou de pagamento de conteúdos escolhidos, e um jornalista da CNN contou que se sente, depois da “declaração de guerra” de Donald Trump, “um público cheio de fome de jornalismo, nestes momentos”.

Ainda segundo o texto de Media-Tics, “o jornalismo local tem muito a dizer nesta nova era mediática”. Os jornais com menos de 50 mil exemplares de circulação, nos EUA, são 6.851 (de um total de 7.071). O NiemanJournalismLab fez sobre eles um estudo que “convida ao optimismo”.

 

 
O artigo original, em Media-Tics; a imagem é da conferência de Katie Kingsbury, do Boston Globe, em Harvard

 

Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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