Quinta-feira, 11 de Agosto, 2022
Jantares-debate

Para Daniel Proença de Carvalho a Europa não estava preparada para os "choques assimétricos"

A União Europeia começou com um projecto generoso, mas talvez “com excessiva ambição”. Não estava preparada para os “choques assimétricos” causados pelas diferenças de desenvolvimento económico e cultural entre os vários países, agravados pela crise económica de 2008, que desembocou na crise das dívidas soberanas e num processo de ressentimentos e desagregação.

Com a queda do muro de Berlim, desapareceu o inimigo comum que funcionava como “factor agregador de unidade”. É altura de a Europa fazer uma reflexão indispensável sobre o seu projecto, e “não vemos que essa reflexão esteja a ser feita”. Mas pode ser que o efeito Trump e o efeito Putin, com a “aproximação aparente entre os dois”, levem de facto a Europa a reflectir e a reencontrar “uma maior pulsão para a unidade e para a solidariedade”.

Foi nestes termos que Daniel Proença de Carvalho descreveu a história recente da convergência europeia e a nota positiva possível no actual clima de imprevisibilidade. A sua palestra foi proferida no contexto da série de jantares-debate em curso, promovidos pelo Clube de Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Sobre o início do processo, Daniel Proença de Carvalho afirmou que

“talvez as condições económicas e de desenvolvimento dos vários países que integraram o Euro não estivessem ainda preparadas para um passo tão grande, mas ele foi dado, por voluntarismo, e durante alguns anos as coisas até pareciam funcionar razoavelmente”. (...)

 

Mas isso só poderia continuar “se houvesse, de facto, uma maior integração, nomeadamente com um Orçamento comum, que permitisse, justamente, transferências entre as várias regiões, que equilibrassem esses choques assimétricos”.

 

O orador identificou-se com o diagnóstico de Vítor Bento, de quem citou um texto recente, segundo o qual “não há propriamente culpados” na situação a que se chegou:

“Se, por um lado, os países que se endividaram obtendo taxas de juro muito favoráveis e, portanto, foram aliciados a ir mais longe do que seria prudente na dívida pública (e também na privada), a verdade é que também os países com grandes superavits, como a Alemanha e outros países do Centro e do Norte, de certo modo propiciaram, se não promoveram, essa situação.”

 

Este processo, como explicou Daniel Proença de Carvalho, só foi travado “quando o risco passou também a abranger países de grande relevo, e então seria uma catástrofe enorme (como o caso da Itália e o da Espanha), e aí, de facto, as instituições europeias encontraram respostas para, pelo menos, tentar estancar essa crise, e reduzi-la aos países que tiveram, de facto, que recorrer a resgates da União”.

 

Poucos anos depois da queda do muro de Berlim, “por razões de voluntarismo e de fraca análise da situação”, os Estados Unidos tiveram uma intervenção no Iraque e, mais tarde, “a própria Europa entendeu que era altura de exportar o seu modelo democrático e económico para outros países que lhe são próximos, e assim se realizaram as chamadas Primaveras árabes, em parte também incentivadas pelos países europeus e pelos Estados Unidos, e sabemos o que aconteceu”.

 

“Todos estes factores, uns económicos, outros de natureza política, fizeram com que o processo de agregação da União Europeia acabasse por entrar numa fase de regressão, senão mesmo de riscos de destruição deste projecto.”

 

O orador referiu-se depois ao aparecimento, na Europa, de partidos xenófobos e racistas, e de “formas de governo, em países como a Hungria, agora a Polónia, e a Turquia, que põem em causa o modelo democrático clássico que nós desenvolvemos no interior da União Europeia, os princípios da separação de poderes e os direitos fundamentais”, mas que começam a ter “adeptos um pouco por todo o lado”.

 

Nesta linha de pensamento, falou, por fim, “da Rússia de Putin”, que considera “um homem inteligente e um estratega”, mas com uma visão “para tentar reconquistar os sonhos de uma Rússia imperial”, que “começa a ver que há sintomas de desagregação no interior da Europa e, evidentemente, tudo fará para promover e aumentar esses movimentos de desagregação”. E falou, também, do “fenómeno Donald Trump, a acontecer “onde todos nós pensávamos que seria impossível”.

 

A acrescentar às dificuldades em promover a necessária reflexão europeia sobre “como chegámos a esta situação” e “o que podemos fazer para a corrigir”, Daniel Proença de Carvalho mencionou ainda a presente “crise de liderança”, a ausência dos grandes líderes fundadores do projecto, e o funcionamento das nossas sociedades democráticas que, “pelo seu voyeurismo, e pela excessiva transparência, afasta, porventura, os melhores da política, e torna muito difícil que hoje, líderes possam surgir, com o apoio dos seus eleitorados”.

 

Sobre a situação de Portugal neste contexto, recordou os três períodos na sua relação com a Europa:

Uma primeira fase, entre 1986 e 1991, de grande crescimento (acima dos 5%) e de convergência com a Europa, quando os fundos da União Europeia tiveram uma influência muito positiva, na criação de infra-estruturas e na melhoria dos nossos serviços.

Depois uma segunda fase, entre 1992 e 1998, já com crescimentos menores, “mas ainda continuámos a crescer alguma coisa”.

A partir de 1999 e, “de certa maneira a partir do Euro, nós deixámos de ter crescimento económico, mas um crescimento anémico… E depois, com o excesso da dívida, com a crise internacional e com a crise das dívidas soberanas, todos nós sabemos o que é que se passou”.

 

Daniel Proença de Carvalho referiu ainda, a terminar, que há dados muito recentes que parecem positivos, com um crescimento que não é só influência do Banco Europeu:

 

“Os últimos dados parecem até ser positivos. Mas é claro que são ainda muito ténues, muito recentes, e nada nos diz que as coisas possam correr bem. Dependemos muito do que se passar no exterior. De qualquer modo, precisávamos de fazer também o nosso trabalho de casa, e continuam algumas reformas por fazer, que aumentem a nossa competitividade, um dos factores mais graves que nós temos.” (...)

 

"A sociedade civil teve uma reacção muito positiva às dificuldades, e conseguiu superar e cumprir o seu papel, mas o Estado não deu a resposta que esperámos. (...) Tivémos um Governo com uma maioria absoluta do PSD e do CDS, que teve talvez condições para fazer algumas reformas, mas que também não fez, temos que reconhecer isso, e agora é difícil de imaginar que o actual Governo tenha condições políticas, pelos apoios que tem à sua esquerda, do Partido Socialista, para poder de facto realizar essas reformas." (...)   


Fotos Paula Lourenço/Grémio Literário

Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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