Quarta-feira, 17 de Agosto, 2022
Jantares-debate

“Portugal pode e deve ser mais activo na Europa”, afirmou o Embaixador Seixas da Costa

No jantar-debate do ciclo em curso, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, Francisco Seixas da Costa fez uma avaliação dos 30 anos de pertença portuguesa à União Europeia e concluiu:

“A Europa é, de facto, o melhor espaço para afirmarmos o nosso País e a nossa capacidade de influência no mundo. Mas há mais vida para além da Europa. Nós temos 30 anos de União Europeia e 900 de História. Não nos podemos esquecer disso.”

A abrir a sua palestra, o Embaixador Seixas da Costa afirmou-se um europeísta “pela razão” e também “pela convicção, pela experiência, pela prática”, mas não tanto um “europeísta natural”:

“Sinto-me português, sinto-me europeu, mas quase sempre sou europeísta tanto quanto os interesses de Portugal o justificarem.”

 

Recordou que “somos um País que entrou para a Europa precisamente a meio dos 60 anos da União Europeia, que agora comemoramos”, e citou duas personalidades relevantes nesse processo, Mário Soares e Medeiros Ferreira.

 

“Foi uma decisão certa e no momento certo, no tempo exacto da União Europeia. Se nós não tivéssemos entrado em 86, estaríamos mais tarde a bater à porta da Europa, como aconteceu a quase todos os países da Europa Ocidental e Central, e se calhar em condições muito piores, em concorrência com outros países. Foi uma decisão tomada com grande coragem, que ao mesmo tempo serviu para consolidar a democracia, para nos desenvolver e para nos manter ligados a um projecto de bem, um projecto civilizacional.”

 

Mas, sobre a origem da UE, antes da adesão de Portugal, Seixas da Costa advertiu:

“Vale a pena lembrar que a primeira Comunidade, das várias que entretanto se criaram, era a Comunidade do Carvão e do Aço, e era com o aço e com o carvão que se faziam as armas… E não é por acaso que a partilha destes dois elementos é uma forma de exorcizar a guerra e, de certa maneira, tentar garantir um espaço novo, de sucesso, que acabou por acontecer.”

 

Esses primeiros 30 anos foram chamados, pelos franceses, “Les Trente Glorieuses”. Acrescentou o orador:

“Foram não só 30 anos gloriosos, foram 50 anos de grande sucesso, com os últimos dez anos, eu diria, de maior crise. E nós temos sempre a tentação de nos lembrarmos mais da parte final do que daquilo que foi o passado.”

 

“A certa altura, a União Europeia é vítima do seu próprio sucesso. A Guerra Fria, no fundo, é o período de grande sucesso da União Europeia. (...) Portanto, eu diria que é ‘vítima’ da queda do Muro de Berlim, mas a União Europeia não podia dar-se ao luxo de se manter como uma espécie de museu democrático e de desenvolvimento, do lado ocidental da Europa, sem dar resposta àqueles países que durante anos tinham olhado para o projecto europeu como um projecto de liberdade, democracia e desenvolvimento.”

 

Seixas da Costa reconheceu a “mudança de natureza” que quase sempre acompanhou os diversos alargamentos da UE e, sobre este mais recente, mencionou a crítica dos que dizem que “não poderia ser feito daquela maneira”. E comentou:

 

“Em primeiro lugar, houve uma acumulação de lobbies, quase diria, para o alargamento a esses países, dos seus amigos dentro da União. E depois há uma coisa de que poucos falam: é que, no fundo, o alargamento aos países do Centro e do Leste europeu foi um aproveitamento da fragilidade conjuntural da Rússia e que, sem a oportunidade de trazer aqueles países para este projecto, muito provavelmente hoje em dia, se tivéssemos que ter uma discussão com a Rússia relativamente ao alargamento da União, as coisas não seriam o que foram.”

 

“Isso aconteceu no caso da União Europeia e também aconteceu no caso da Nato, porque muitos dos países que entraram, na altura, para as duas organizações, têm um interesse específico maior na sua segurança e defesa do que no próprio projecto tutelado em Bruxelas.”

 

O orador recordou o “grande equívoco” presente nesta fase:

“Havia uma ideia de que o alargamento era uma espécie de colonização da Europa de Leste. Isto é: este modelo passava para o lado de lá e os países do lado de lá, no fundo, incorporavam exactamente o modelo do lado de cá. Não é bem assim… Os países que vieram para dentro da União Europeia trouxeram toda a sua agenda, que é de interesses, de preocupações, a agenda de fronteiras.” (...)

 

Estes factores tornaram assim a União Europeia, no fundo, muito mais diversa e também mais complexa.

 

Mencionou depois “um parceiro que, não sendo membro da União Europeia, é um poder europeu, que são os EUA. Os Estados Unidos são, no fundo, para além de Maurice Schumann, Jean Monet e José Estaline, o grande criador da União Europeia. Estaline pelo medo, os Estados Unidos pela promoção; em primeiro lugar pelo Plano Marshall, o interesse em ver a Europa como um exemplo de democracia e de sociedade liberal, e deram um impulso muito forte à relação com a Europa”.

 

Recordou que os EUA “tiveram sempre uma relação de alguma ambiguidade nesse relacionamento, nem sempre as coisas funcionaram da mesma maneira ao longo dos vários anos”, mas que continuam a ser “um elemento fundamental”.

 

O que se está a passar actualmente, após a eleição de Donald Trump, “rebentou com a previsibilidade relativamente à nossa relação com o outro lado do Atlântico e cria-nos um profundo mundo de indecisões e até alguma visível hostilidade, quer em relação ao projecto europeu em geral, quer em particular em relação ao Euro. Isto é altamente preocupante, e a Europa também não sabe como é que há-de lidar com isto. Vamos fazer uma navegação à vista”  – afirmou.

 

Sobre o caso português, Francisco Seixas da Costa sublinhou o “efeito extremamente positivo” nas infraestruturas, nas mentalidades, na mobilidade, tanto de emigrantes como dos jovens envolvidos no programa Erasmus.

Descreveu também, com evidente conhecimento de causa, a mudança ocorrida na diplomacia portuguesa, e as contribuições que Portugal trouxe à União Europeia, neste terreno:

 

“Trouxémos um trabalho importante na nossa relação com África, no período complexo de recuperação de relações com as nossas antigas colónias, mas também na criação de uma certa leitura de relações externas com a União Europeia para África  - fomos nós que fizémos as duas cimeiras Portugal-África, e isso não é despiciendo.” 

“Trouxémos ainda algo para a própria diplomacia de Direitos Humanos da União Europeia, talvez forçados pela questão de Timor, mas conseguimos com isso criar uma dinâmica nova dentro do próprio País e um trabalho muito criterioso dentro das Nações Unidas, nessa área. Também nas questões do desenvolvimento, quando elas eram mais importantes do que são hoje, infelizmente.”

 

Na parte final da sua palestra, o Embaixador Seixas da Costa não escondeu os conflitos internos que desfiguram actualmente o projecto europeu, levando a que muitos cidadãos dos países que são mais pobres, ou cujos interesses não estejam consonantes com o processo legislativo em Bruxelas, ou que não tenham população “que lhes dê para serem relevantes no processo decisório”, acabem por perceber que a sua influência e capacidade de intervenção são, no fundo, muito inferiores às de outros países. “Isso cria uma espécie de hierarquia dentro da Europa”  - disse.

 

Sublinhou que “a generosidade e a solidariedade estão hoje em crise na Europa”, e que “as opiniões públicas vivem debaixo da insegurança e do medo”:

 

“A Europa deixou-se enredar num discurso em que é o próprio bode expiatório de tudo o que funciona mal. E os Governos muitas vezes utilizam a Europa, como é sabido, para dizer que tudo o que corre bem é deles, tudo o que corre mal é culpa da Europa…”

 

Seixas da Costa recordou a crise financeira de 2007, para a qual “as instituições europeias não estavam preparadas”, e afirmou que “a crise financeira e a questão dos refugiados foram a grande pedra que caíu sobre a solidariedade europeia”:

 

“Não há discurso de solidariedade europeia, aquele senhor holandês é a cara disso e, independentemente da maneira como o disse, nós pressentimos que ele sentia aquilo e sabemos que não é só ele que pensa assim. Há muita gente que pensa aquilo. Quebrou-se claramente a noção da solidariedade.”

 

E acrescentou:

“Era importante um dia desmontar esta ideia de que a Europa é uma dos que dão e outra dos que recebem… É preciso percebermos que a Europa é um jogo de soma nula, um jogo em que toda a gente ganha e toda a gente perde. A Europa da segurança, a Europa da criação de sociedades de consumo, é aquela que interessa a países que se portam como é o caso da Alemanha. A existência de sociedades em paz, à volta dos grandes países europeus, é do interesse desses próprios países europeus. Ninguém deve nada a ninguém na Europa. (...) Esta ideia que se criou de que o Sul deve ao Norte  - vejam as taxas de juro que foram dadas, dos empréstimos, durante todo o período do resgate... Vale a pena olhar para isso.”

 

A terminar, alertou para os riscos do Brexit, que “tira da União o maior orçamento de defesa da União Europeia, tira o terceiro contribuinte líquido para o orçamento da UE, a maior indústria de defesa da UE, as forças armadas melhor equipadas e, com a França, o segundo poder nuclear da União Europeia”. (...)

Além disso, “a saída do Reino Unido leva a União um pouco para lá, em matéria de Oeste-Leste, e isso é perigoso para nós”.

 

No entanto, Seixas da Costa mantém que “não podemos cair na tentação de ter relações de natureza bilateral com o Reino Unido nesta matéria; a nossa força far-se-á dentro da União Europeia, na negociação dos grandes dossiers, o que não significa que no futuro, quando ele estiver fora da União Europeia, Portugal não possa renovar uma relação privilegiada com o Reino Unido”.  (…)

Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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