Quinta-feira, 27 de Fevereiro, 2020
Media

Quando o jornal e os leitores formam uma comunidade

Os jornais vivem para os seus leitores e, em princípio, dos seus leitores. Pelo lado melhor, estabelecem com eles uma relação de serviço público. Outras vezes tratam-nos como consumidores, ou clientes instáveis, cujas preferências é preciso satisfazer. Quando a publicidade deixou de garantir a sobrevivência das empresas, estas apelaram à constância dos leitores como assinantes. Jay Rosen, docente de Jornalismo na Universidade de Nova Iorque, está a pesquisar um caminho ainda mais ambicioso: o de se estabelecer, entre os leitores e o seu jornal, uma relação de pertença, uma fidelidade de “membrasia”.

O projecto que apresentou, no final de Março de 2017, chama-se Membership Puzzle Project e, antes do mais, não esconde que tem mecenato à partida: é apoiado pela Fundação Knight, pelo Democracy Fund e pela First Look Media. Mas o seu objectivo é o de desenvolver os jornais como comunidades associativas de envolvimento pessoal, e o modelo proposto como exemplo a seguir é o de um jornal que já existe, o De Correspondent, na Holanda.  

“Uma das coisas que descobri  - afirma Jay Rosen -  é que o De Correspondent conseguiu, no período de três anos, criar uma cultura interna muito forte. É um lugar muito divertido para se trabalhar. As pessoas estão todas na mesma página.” 

“Não têm tanto cinismo sobre a sua própria empresa como muitos jornalistas nos jornais das grandes metrópoles. E têm uma liderança que é muito respeitada. Os princípios de manterem a ligação com os membros e de se relacionarem com as pessoas como sendo leitores esclarecidos, bem como a ideia de que qualquer pessoa é competente em qualquer coisa, são princípios em que os correspondentes realmente acreditam, na sua maioria.” 

“Há alguns dissidentes e uns poucos que duvidam. Mas, na sua maioria, os que são correspondentes no De Correspondent têm aprendido que este tipo de envolvimento é muito útil e os ajuda a fazerem melhor trabalho. E mostram entusiasmo no seu aperfeiçoamento.” (...) 

Interrogado sobre a viabilidade deste modelo nos Estados Unidos, Jay Rosen lembra que a ideia de “membrasia” se limita muito à noção de doar apoio económico para sustentar qualquer instituição. No caso de um jornal, acaba por ser um departamento completamente separado da redacção. Mas “é quando as pessoas estão envolvidas com o jornalismo, e se sentem parte dele, que se cria o laço mais forte entre membros e jornalistas”. 

E, no entanto, não falta nos EUA uma “tradição forte de associações voluntárias e de filantropia”. Há modelos de “membrasia” no apoio às orquestras e outras instituições culturais, bem como em movimentos activistas [por causas concretas] e, evidentemente, na religião. As igrejas podem ser um exemplo interessante a ter em conta.

 

 

A entrevista com Jay Rosen, o lançamento do Membership Puzzle Project e o jornal De Correspondent, apresentado em inglês

Connosco
"Boston Globe" aceitou alargar licença familiar para jornalistas Ver galeria

O mundo profissional está mais competitivo e, não poucas vezes, coloca barreiras àqueles que pretendam conjugar a vida familiar com a profissional. A licenças de maternidade e paternidade são reduzidas e os profissionais vêem-se, por vezes, obrigados a abdicar da carreira para poderem acompanhar o crescimento dos filhos.

Este panorama não é estranho aos jornalistas dos “Boston Globe” que, durante dois anos, lutaram para que a licença paga se estendesse além das seis semanas. Depois, à semelhança do que acontece em muitos outros grupos de imprensa, a licença não era aplicada de forma igualitária entre pais, mães e parentes adoptivos. 

O projecto arrancou no Verão de 2017, quando um grupo de jornalistas começou a procurar aliados. No início do Outono desse ano, o “Comité da Licença”, já tinha contactado 300 funcionários do Grupo detentor do “Boston”.

Plataforma promove "relação analógica" com os leitores Ver galeria

O livro “1984”, de George Orwell, foi publicado em 1949, mas está mais actual do que nunca. A ideia de que um “big brother” nos vigia é, agora, muito real, com plataformas “online” a desenvolverem algoritmos intrusivos, que recolhem dados sobre as preferências dos leitores, sem o seu consentimento.  


Foi com o ideal da privacidade em mente que os jornalistas Julia Angwin e Jeff Larson criaram a “Markup”, uma redacção sem fins lucrativos que investiga o uso da tecnologia para promover mudanças na sociedade.


No seu estatuto editorial, a publicação comprometeu-se a lutar pela privacidade aos leitores, garantido uma recolha mínima de informações pessoais, que serão mantidas em sigilo. As investigações dependem, de igual forma, de doações de informação, que permitem construir bases de dados de forma ética. O “Markup” quer, acima de tudo, criar uma relação “analógica” com os seus visitantes, numa época em que o contacto entre repórteres e leitores se estabelece digitalmente.

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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Opinião
Neste primeiro semestre, três jornais açorianos comemoram uma longevidade assinalável. Conforme se regista noutros espaços deste site, o Diário dos Açores acabou de completar século e meio de existência;  em Abril, será a vez do Açoriano Oriental,  o mais antigo, soprar 185 velas; e, finalmente em Maio, o Correio dos Açores alcança o seu primeiro centenário. Em tempo de crise na Imprensa,...
O volume de investimento publicitário na imprensa tem estado em queda, mas vários estudos indicam que os leitores de jornais e revistas continuam a ser influenciados pela publicidade que encontram nas páginas das publicações que consomem regularmente. Por outro lado a análise dos dados do mais recente estudo Bareme Impresa, da Marktest, revela que os indivíduos da classe alta têm níveis de audiência de imprensa 40% acima dos...
Graves ameaças à BBC News
Francisco Sarsfield Cabral
A BBC é, provavelmente, a referência mundial mais importante do jornalismo. Foi uma rádio muito ouvida em Portugal no tempo da ditadura, para conhecer notícias que a censura não deixava publicar. E mesmo depois do 25 de Abril, durante o chamado PREC (processo revolucionário em curso) também o recurso à BBC News por vezes dava jeito para obter uma informação não distorcida por ideologias políticas.Ora a BBC News...