Segunda-feira, 22 de Abril, 2019
Novas iniciativas

Isabel Mota em jantar-debate: o Estado não se adaptou às mudanças da sociedade

“Em Portugal, como não tem havido, ao longo dos tempos, uma adaptação do papel do Estado às mudanças da sociedade, verifica-se uma deficiente afectação de recursos, com carências absolutas em áreas fundamentais, da inequívoca responsabilidade do Estado.” Foi nestes termos, propostos como uma espécie de “conclusão provisória”, que Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, abriu o novo ciclo de jantares-debate, promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, agora subordinado ao tema genérico “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”. A oradora descreveu esta situação como “resultado acumulado de opções que têm vindo a ser tomadas e que geraram a situação de um Estado que, a meu ver, não tem perímetro”.

Prosseguindo, Isabel Mota referiu-se à importância de “uma discussão que é absolutamente indispensável e tem sido sempre adiada, que tem a ver com a dimensão do Estado Social, e isto numa óptica da justiça inter-geracional”. E afirmou:

 

“Uma das questões que tenho sempre presente, e que muito me preocupa, é a questão das crescentes desigualdades. Nos últimos anos temos assistido, infelizmente, a um aumento dos níveis de desigualdade, tanto em Portugal como nos restantes países desenvolvidos.” 

Em particular no caso português, desdobrou esta preocupação em duas: “por um lado, o facto de a crise financeira ter gerado uma quebra nos rendimentos das famílias, em especial nas de menores rendimentos e, por outro lado, o facto de se verificar uma acumulação excessiva de rendimentos e riqueza no topo da distribuição”. E sublinhou: 

“Não é assim que se constrói um país. Não é assim que se consegue a coesão. Não é assim que se consegue nenhum consenso para podermos andar para a frente.” 

“É necessário, por isso, definir políticas estruturais, que coloquem a economia, de novo, no caminho do crescimento sustentável, que terá que reflectir maior igualdade de oportunidades e uma maior mobilidade social.” (...) 

Isabel Mota integrou, a seguir, esta reflexão no “contexto enorme de alteração dos paradigmas tradicionais, trazida pela revolução digital e pela generalização da robótica e da inteligência artificial, um desafio que não é pequeno e para o qual não haverá, ainda, respostas sólidas”.

 

Na Fundação Gulbenkian, como afirmou, “estamos muito atentos a esta mudança de paradigma”:

 

“A Fundação está empenhada em contribuir  - em conjunto, naturalmente, com a área pública, com o sector privado, e com o terceiro sector -  para uma resposta que garanta que o bem-estar chega a todos e que a dignidade da pessoa humana seja sempre respeitada.”

 

Recordou, a seguir, o tempo em que a Gulbenkian iniciou a sua actividade, em 1956, num país “completamente diferente do que hoje conhecemos”, quando “a intervenção da Fundação teve que se adaptar a essas circunstâncias, ocupando muitos dos espaços em que o Estado de então se tinha demitido de desempenhar a sua função”.

 

Hoje, como disse, “a Fundação Gulbenkian, assumindo-se como agente de mudança, continuará a desenvolver a sua intervenção de forma a contribuir para a produção do conhecimento e para o ensaio de soluções para os principais desafios com que nos confrontamos”.

 

Isabel Mota descreveu este esforço como parte de um projecto que tem de ser colectivo, propondo que tenhamos “um novo olhar para cada um dos sectores”:

 

“No sector público, como já referi, exigem-se novas políticas, que melhor incorporem preocupações de justiça inter-geracional, incluindo aqui, naturalmente, a vertente ambiental, e promovendo melhor eficiência na gestão dos seus recursos, financeiros e humanos, incentivando modelos de governança integrada e descentralizada, bem como novos modelos de contratualização de serviços, orientados para os resultados.”

 

“O sector privado terá de, necessariamente, incorporar a variável de impacto nos seus processos de criação de valor, seja através da incorporação de modelos de sustentabilidade ambiental em toda a sua cadeia de produção, seja pelo apoio ao desenvolviemento de novos modelos de negócio em que o impacto social gerado é determinante para o seu sucesso.”

 

“E o terceiro sector, onde se incluem as Fundações, terá de apostar em novos modelos de gestão e personalizar o trabalho que desenvolve, indo melhor ao encontro das populações que serve. Em síntese, num mundo que se caracteriza por uma crescente imprevisibilidade, um novo exercício de cidadania exige um sector público mais transparente, um sector privado mais responsável e um terceiro sector mais eficaz, e todos temos um papel a desempenhar.” (...)

 

“Por exemplo, no caso da Fundação Gulbenkian, e sempre preservando o seu legado, decidimos que, para os próximos anos, vamos adoptar uma agenda centrada na coesão e na integração social, na sustentabilidade e no conhecimento, alicerçada numa profunda convicção de que a cultura constitui a base de uma sociedade aberta, inclusiva e tolerante.” (...)

 

Isabel Mota fez depois uma reflexão sobre “a mudança dos protagonistas no sector da filantropia e a alteração nos mecanismos clássicos de financiamento”, a que estamos hoje a assistir:

 

“É interessante recordar que os filantropos do séc. XXI serão em certa medida, e já o são, os que construíram fortunas a partir da criação de novas soluções tecnológicas e digitais que, como sabemos, alteraram por completo a vida da sociedade, construindo as grandes empresas globais dos nossos dias.” (...)

 

Citou um deles, Sean Parker, que, ao criar a sua Fundação em Junho de 2015, publicou um manifesto no Washington Post chamado “Philanthropy for Hackers”, no qual afirmou:

“A utopia tecnológica dos hackers já transformou as nossas vidas. Mas o seu maior contributo para a sociedade ainda está para realizar, se quisermos manter o espírito criativo e intelectual que nos trouxe até aqui.”

“Esse contributo, ainda por realizar, diz respeito à interligação entre as novas formas de trabalho e potencialidades da tecnologia e os principais problemas sociais, com que o mundo a cada dia se debate e aos quais não é também alheia a revolução tecnológica.” (...)

 

Neste contexto, Isabel Mota afirmou ser sua convicção “que o movimento fundacional em Portugal tem potencial para fazer mais e melhor” e que “não existe correlação evidente entre riqueza e filantropia no caso de Portugal”.

 

A concluir, sublinhou “a enorme responsabilidade que a nosssa geração tem pela frente, em função da crescente desigualdade dentro e entre países, do impacto das tecnologias, designadamente no mercado de trabalho, e do ritmo vertiginoso em que se processam as mudanças”:

 

“Um relatório recente, do European Foundation Center, com base em inquéritos de diferentes organizações internacionais, aponta para consequências políticas muito graves no mundo ocidental. As principais consequências são: angústia, perda de confiança nas elites, perda de confiança nas instituições democráticas, e, mais preocupante do que tudo, perda de esperança no futuro.”

 

“E aí só me ocorre uma ideia perante isto: a cultura, os valores humanistas, o nosso legado civilizacional, são simultaneamente o nosso refúgio, mas também têm que ser a nossa fonte de inspiração; mas sobretudo eu penso que o inconformismo dos mais jovens é a melhor garantia de que um renovado equilíbrio e um novo contrato social serão possíveis, e que o futuro ainda não está escrito.”

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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