null, 16 de Dezembro, 2018
Estudo

"Atlas" elaborado no Brasil revela 70 milhões de habitantes em "desertos de notícias"

Mais de um terço da população do Brasil  - o que significa 70 milhões de habitantes -  vive nos chamados “desertos de notícias”, os 4.500 municípios sem registo de meios noticiosos impressos ou digitais, “onde não se cobre, entre outras coisas, nem a Prefeitura ou a Câmara Municipal”. Pelo outro lado, estão identificados 5.354 meios de comunicação, entre jornais impressos e sites, em 1.125 cidades que abrangem 130 milhões de pessoas, mais de 60% da população brasileira. Estes dados são do “Atlas da Notícia – um panorama do Jornalismo local e regional no Brasil”, publicado numa edição especial do Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria. Inclui um vídeo de apresentação.

“O Atlas da Notícia é, antes de mais nada, uma ferramenta para conseguirmos enxergar quais as localidades mais carentes de jornalismo no Brasil”, explica Sérgio Spagnuolo, editor do Volt Data Lab, agência de jornalismo de dados que conduziu o levantamento e a pesquisa.

 

Segundo o texto de apresentação deste trabalho  - a cuja preparação tínhamos já, em devido tempo, feito referência -  o Atlas é um ponto de partida necessário para possíveis pesquisas imersivas nesses vazios e também nas comunidades em que o jornalismo está presente. “Em função do carácter quantitativo de nosso primeiro levantamento, ainda não se pode avaliar a integridade  — qualitativa —  da prática profissional jornalística.” 

“Num momento de mudanças de paradigmas e de emergência da ideia de pós-verdade, é necessário se voltar a perguntas básicas, como: para que servem as notícias locais ou regionais? Como elas se relacionam com uma noção mais ampla de cidadania?” (...) 

O projecto foi inspirado no America’s Growing Deserts of News, editado pela Columbia Journalism Review, sendo os números apurados pelo Volt Data Lab recolhidos em três fontes de informação:  a Secretaria de Comunicação do Governo Federal e a Associação Nacional de Jornais (ANJ), além de uma campanha de crowdsourcing

Sobre a metodologia de trabalho, “nesta primeira etapa, foram considerados apenas os jornais e sites de notícia e buscou-se, além de números absolutos, um recorte proporcional considerando a presença de veículos [media] a cada cem mil habitantes”. (...) 

Os números recolhidos “indicam o predomínio dos meios impressos (63% contra 37 % dos digitais). Como já se poderia prever, em termos absolutos, São Paulo é o estado com maior número de veículos noticiosos (1.641), seguido do Rio Grande do Sul (600) e Santa Catarina (547)”. 

“Mas se levarmos em conta a concentração populacional, Santa Catarina, Distrito Federal e Rio Grande do Sul são as unidades da federação com maior concentração de veículos a cada cem mil habitantes, média de 8,8. Em compensação, todos os estados do nordeste possuem, em média, um veículo mapeado a cada 100 mil habitantes.” (...) 

O texto de apresentação conclui que “o diagnóstico da situação actual do deserto de notícias no Brasil poderá ser melhor compreendido a partir de parcerias e análises de profissionais e pesquisadores de todo o país. O Atlas marca o início de um processo de conhecimento, não só das boas práticas de jornalismo, como da falta que elas podem fazer para a construção de um país mais cidadão e justo.” 

 

O “Atlas da Notícia” no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Jornalismo cobre e explora a violência sem cuidar da sua explicação Ver galeria

Em situações de grandes protestos públicos, a reportagem que descreve o confronto físico entre manifestantes e forças policiais não pode, nem deve, ocultá-lo  - mas a fixação nas imagens de violência é uma tentação redutora. “Cobrindo protestos, aqui ou alhures, manifestações europeias, tupiniquins ou árabes, o jornalismo parece focar na violência. Sempre.” A reflexão é da jornalista Juliana Rosas, doutoranda na Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora do ObjEthos:

“Seja uma notícia sobre um buraco na rua ou em grandes manifestações, o jornalismo (o mainstream brasileiro e internacional, com algumas excepções) parece cobrir somente o resultado da acção, no máximo a acção em si.” (...)

“Onde foi parar o entendimento de que o jornalismo deve prover explicações? Que deve dar o contexto? Fornecer informação de qualidade? Se manifestações de rua são semelhantes, onde está a novidade em dizer que manifestantes franceses entram em confronto com a polícia? Entraram por quê? Como? Quais as consequências?”

O texto, publicado originalmente no ObjEthos  - Observatório da Ética Jornalística, é aqui reproduzido do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.
Repórter de origem sudanesa fala (e pratica) jornalismo de alto risco Ver galeria

A jornalista sudanesa Nima Elbagir, já detentora de vários grandes prémios pelas suas reportagens de guerra e em zonas de grande risco, voltou a ser famosa há um ano, quando filmou uma venda de escravos (migrantes sub-saarianos) perto de Tripoli, na Líbia. Falou deste e de outros episódios em Paris, no contexto de uma jornada de debates sobre as mulheres africanas, organizada por Le Monde Afrique.

Sobre o sangue-frio com que realizou o documentário, afirma:

“No momento, pensei como jornalista. Não queria que as minhas emoções tomassem a dianteira. Não era eu que estava a ser vendida. Eu tinha um avião nessa mesma tarde, para voltar para casa.”

A verdade é que, se fosse descoberta, teria perdido o voo e, provavelmente, a vida. Nascida em Khartoum, exilada aos três anos, educada na London School of Economics, tornou-se correspondente internacional para a CNN em Londres e desde há uma década que acumula prémios pela coragem e sentido de humanidade dos seus trabalhos.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...