Terça-feira, 7 de Julho, 2020
Estudo

"Atlas" elaborado no Brasil revela 70 milhões de habitantes em "desertos de notícias"

Mais de um terço da população do Brasil  - o que significa 70 milhões de habitantes -  vive nos chamados “desertos de notícias”, os 4.500 municípios sem registo de meios noticiosos impressos ou digitais, “onde não se cobre, entre outras coisas, nem a Prefeitura ou a Câmara Municipal”. Pelo outro lado, estão identificados 5.354 meios de comunicação, entre jornais impressos e sites, em 1.125 cidades que abrangem 130 milhões de pessoas, mais de 60% da população brasileira. Estes dados são do “Atlas da Notícia – um panorama do Jornalismo local e regional no Brasil”, publicado numa edição especial do Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria. Inclui um vídeo de apresentação.

“O Atlas da Notícia é, antes de mais nada, uma ferramenta para conseguirmos enxergar quais as localidades mais carentes de jornalismo no Brasil”, explica Sérgio Spagnuolo, editor do Volt Data Lab, agência de jornalismo de dados que conduziu o levantamento e a pesquisa.

 

Segundo o texto de apresentação deste trabalho  - a cuja preparação tínhamos já, em devido tempo, feito referência -  o Atlas é um ponto de partida necessário para possíveis pesquisas imersivas nesses vazios e também nas comunidades em que o jornalismo está presente. “Em função do carácter quantitativo de nosso primeiro levantamento, ainda não se pode avaliar a integridade  — qualitativa —  da prática profissional jornalística.” 

“Num momento de mudanças de paradigmas e de emergência da ideia de pós-verdade, é necessário se voltar a perguntas básicas, como: para que servem as notícias locais ou regionais? Como elas se relacionam com uma noção mais ampla de cidadania?” (...) 

O projecto foi inspirado no America’s Growing Deserts of News, editado pela Columbia Journalism Review, sendo os números apurados pelo Volt Data Lab recolhidos em três fontes de informação:  a Secretaria de Comunicação do Governo Federal e a Associação Nacional de Jornais (ANJ), além de uma campanha de crowdsourcing

Sobre a metodologia de trabalho, “nesta primeira etapa, foram considerados apenas os jornais e sites de notícia e buscou-se, além de números absolutos, um recorte proporcional considerando a presença de veículos [media] a cada cem mil habitantes”. (...) 

Os números recolhidos “indicam o predomínio dos meios impressos (63% contra 37 % dos digitais). Como já se poderia prever, em termos absolutos, São Paulo é o estado com maior número de veículos noticiosos (1.641), seguido do Rio Grande do Sul (600) e Santa Catarina (547)”. 

“Mas se levarmos em conta a concentração populacional, Santa Catarina, Distrito Federal e Rio Grande do Sul são as unidades da federação com maior concentração de veículos a cada cem mil habitantes, média de 8,8. Em compensação, todos os estados do nordeste possuem, em média, um veículo mapeado a cada 100 mil habitantes.” (...) 

O texto de apresentação conclui que “o diagnóstico da situação actual do deserto de notícias no Brasil poderá ser melhor compreendido a partir de parcerias e análises de profissionais e pesquisadores de todo o país. O Atlas marca o início de um processo de conhecimento, não só das boas práticas de jornalismo, como da falta que elas podem fazer para a construção de um país mais cidadão e justo.” 

 

O “Atlas da Notícia” no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Jornalismo no Brasil está numa encruzilhada com pandemia Ver galeria

A cobertura jornalística da pandemia, no Brasil, está a chegar a uma encruzilhada, já que se começa a testemunhar uma profunda alteração na relação entre os jornalistas e os cidadãos, afirmou Carlos Castilho num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

De acordo com Castilho, na actual fase do combate ao covid-19, a preocupação com a forma de noticiar dados, factos e eventos sobre a pandemia é crucial para que o público participe da luta contra o vírus. Contudo, de nada adianta divulgar números, se os cidadãos não alterarem a sua atitude perante a evolução do vírus. 

Assim, os jornalistas deparam-se com o dilema de continuar a informar, imparcialmente, ou de se juntarem a uma “corrente de activismo”, que promove causas sem renegar os elementos que definem uma notícia, como a exactidão, relevância, pertinência, confiabilidade e transparência. 

Até porque, sem estes dados, a notícia não é confiável e pode induzir os leitores a tomar decisões de risco.

Segundo o autor, a opção pelo activismo decorre de uma ampla diversificação na ecologia informativa, provocada pela digitalização e pela internet. Com a massificação de notícias, o mais importante passou a ser a contextualização.


Lei de transparência aprovada no Brasil encontra resistências Ver galeria

Os “fact-checkers” brasileiros uniram-se contra a aprovação da “Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet”.

Segundo aqueles profissionais, esta lei aumenta o poder do Senado perante os “media”, porque lhes permite distinguir, oficialmente, o que é informação do que é “fake news”

O texto estabelece, ainda, que as autoridades podem rastrear mensagens replicadas nas redes sociais.

Em entrevista ao instituto Poynter, Natália Leal, coordenadora da empresa de “fact-checking” Agência Lupa, constatou, ainda, que o documento permite ao Governo definir o que é a verificação de factos, e levantar condicionantes às suas actividades. Até porque, alguma figuras políticas, que apoiaram a aprovação da lei, consideram que o “fact-checking” não é mais do que um posicionamento ideológico.


O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Agenda
27
Jul
Jornalismo ético como garantia de democracia
09:30 @ Universidade de Madrid
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague