null, 16 de Dezembro, 2018
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A notícia que todos leram mas não foi escrita por ninguém...

Antes da Internet, quem quisesse informar-se tinha de fazer um esforço de busca  -  ir a um quiosque comprar o jornal, ligar o rádio ou a televisão. “Agora é a informação que nos procura, mesmo que não queiramos.” Por meio de avisos e notificações, “os conteúdos lutam por captar a nossa atenção” em todo o lado. Ainda podemos desligar os aparelhos mas, “no futuro, nem sequer haverá essa escapatória”. Estaremos sempre rodeados de ecrãs, que “virão ao nosso encontro a cada passo”. Todos os aparelhos estarão interligados. É nestes termos que está a ser imaginada a “Internet das coisas” e o seu efeito sobre a informação e o jornalismo. A reflexão é de Ramón Salaverría, docente na Universidade de Navarra.

O texto deste autor, publicado em Cuadernos de Periodistas nº 35, da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  começa por um exemplo significativo, o da “primeira notícia que, tendo sido escrita por um robot, conseguiu situar-se como informação principal do site de um grande jornal, o Los Angeles Times”. 

Em 14 de Março de 2014, a rede de sismógrafos da Califórnia registou um tremor que, pela sua intensidade, teve magnitude suficiente para desencadear um aviso automático, que foi recebido por muitos órgãos de informação. Mas, “às seis da manhã, com as redacções praticamente vazias, eram poucos os meios capazes de fazerem eco da notícia”. 

À excepção do Times, que já tinha um sistema de redacção automática de notícias mediante uma aplicação algorítmica  - aquilo a que chamamos um robot... “Como os robots não se importam de acordar cedo, o do Times recebeu o aviso e compôs uma nota curta, de 102 palavras”, que começava assim: 

“Um terramoto de magnitude 4,7 foi registado hoje, segunda de manhã, a cinco milhas de Westwood, Califórnia, segundo o Serviço Geológico dos EUA. O abalo ocorreu às 6h.25, a uma profundidade de cinco milhas.” (...) 

Esta informação apareceu de imediato na Net e, naturalmente, os primeiros interessados em saber mais eram os residentes do distrito de Westwood, que começaram a teclar em todas as direcções. Como a nota de Los Angeles Times era a única àquela hora, recebeu tantas visitas e partilhas que teve efeito de bola de neve: o sistema de gestão de conteúdos do jornal, programado para dar mais destaque às notícias com mais visitas, puxou-a para o primeiro lugar. Como conta Ramón Salaverría: 

“Tinha acontecido o inédito  -  uma informação que não tinha sido noticiada por ‘ninguém’, nem escrita por ‘ninguém’, nem publicada por ‘ninguém’, era a notícia que estava a ser lida por ‘toda a gente’.” (...) 

E este efeito de sermos “encontrados” pela notícia automática passa-se cada vez mais nos dispositivos móveis. Segundo o mais recente relatório Digital News Report – España 2017, coordenado pela Universidade de Navarra, “em conjunto, os telemóveis e tablets (com 47%) ultrapassaram pela primeira vez, em 2017, o computador (com 46%) como dispositivo principal no acesso às notícias.” 

E, como explica a seguir, esta “não é a estação de chegada” porque, a seguir aos dispositivos móveis, vem aí a Internet das Coisas, em que quase todos os aparelhos estarão interligados e terão, além da sua função original, a possibilidade de serem “receptores e fontes de informação”  -  além de a registarem de modo continuo. “Estaremos permanentemente monitorizados.” (...) 

“Num simpósio organizado no Rio de Janeiro pela Universidade de Harvard, em Novembro de 2017, peritos dos cinco continentes estiveram de acordo em assinalar o sector dos media e do jornalismo como um dos que, com a educação, a saúde e os negócios, será mais transformado por estas tecnologias nos próximos anos.” (...) 

O que se segue, no trabalho que citamos, é um desenvolvimento de previsão de coisas possíveis, nem todas boas, nem todas más  -  quase todas já em começo de realização.

 

O texto na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Jornalismo cobre e explora a violência sem cuidar da sua explicação Ver galeria

Em situações de grandes protestos públicos, a reportagem que descreve o confronto físico entre manifestantes e forças policiais não pode, nem deve, ocultá-lo  - mas a fixação nas imagens de violência é uma tentação redutora. “Cobrindo protestos, aqui ou alhures, manifestações europeias, tupiniquins ou árabes, o jornalismo parece focar na violência. Sempre.” A reflexão é da jornalista Juliana Rosas, doutoranda na Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora do ObjEthos:

“Seja uma notícia sobre um buraco na rua ou em grandes manifestações, o jornalismo (o mainstream brasileiro e internacional, com algumas excepções) parece cobrir somente o resultado da acção, no máximo a acção em si.” (...)

“Onde foi parar o entendimento de que o jornalismo deve prover explicações? Que deve dar o contexto? Fornecer informação de qualidade? Se manifestações de rua são semelhantes, onde está a novidade em dizer que manifestantes franceses entram em confronto com a polícia? Entraram por quê? Como? Quais as consequências?”

O texto, publicado originalmente no ObjEthos  - Observatório da Ética Jornalística, é aqui reproduzido do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.
Repórter de origem sudanesa fala (e pratica) jornalismo de alto risco Ver galeria

A jornalista sudanesa Nima Elbagir, já detentora de vários grandes prémios pelas suas reportagens de guerra e em zonas de grande risco, voltou a ser famosa há um ano, quando filmou uma venda de escravos (migrantes sub-saarianos) perto de Tripoli, na Líbia. Falou deste e de outros episódios em Paris, no contexto de uma jornada de debates sobre as mulheres africanas, organizada por Le Monde Afrique.

Sobre o sangue-frio com que realizou o documentário, afirma:

“No momento, pensei como jornalista. Não queria que as minhas emoções tomassem a dianteira. Não era eu que estava a ser vendida. Eu tinha um avião nessa mesma tarde, para voltar para casa.”

A verdade é que, se fosse descoberta, teria perdido o voo e, provavelmente, a vida. Nascida em Khartoum, exilada aos três anos, educada na London School of Economics, tornou-se correspondente internacional para a CNN em Londres e desde há uma década que acumula prémios pela coragem e sentido de humanidade dos seus trabalhos.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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