Quinta-feira, 11 de Agosto, 2022
Jantares-debate

António Lobo Xavier aconselha políticos a romperem com amarras antigas

Uma separação ideológica que ponha de um lado os partidários de “um Estado omnipotente, que toma conta de tudo”, e do outro os que estão contra essa configuração e por “um Estado mínimo, retirado da economia”, tem hoje “muito pouco sentido”  - afirmou António Lobo Xavier, orador convidado do presente ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”. Em vez disso, como afirmou, importa conseguir os acordos que tornem compatível o Estado sustentável com o Estado justo, acrescentando que para esse efeito são necessários “políticos que rompam estas amarras antigas”. Concluíu que não é possível resolver os problemas estruturais do País “sem um mínimo de entendimentos”.

António Lobo Xavier iniciou a sua palestra contestando a separação absoluta de campos entre aquelas duas visões extremadas do Estado, e sublinhando que “nem tudo o que nos parece hoje ambíguo, segundo as nossas categorias das últimas décadas, do ponto de vista ideológico, é realmente populismo”.  

 

Interrogou-se depois sobre o que esperamos hoje do Estado, e afirmou:

 

“A verdade é que cada vez esperamos mais. Esperamos a sofisticação e o alargamento da produção dos bens públicos  -  queremos, por exemplo, saúde, a justiça cada vez mais afinada e tecnicamente evoluída, queremos segurança, defesa, protecção social no desemprego, reformas. (...)  Esperamos também a satisfação de necessidades mais recentes, como, por exemplo, a discussão se faz sentido garantir um cheque às pessoas, como um mínimo de existência.” (...)

 

E mencionou outras direcções actuais de reivindicação:

 

“Hoje, a propósito dos fogos, ou do terrorismo, nós queremos que o Estado nos proteja pelo risco de existirmos. Um risco aleatório, o risco de estarmos num certo momento num certo local. (...) São circunstâncias imprevisíveis, podem acontecer a qualquer um, e nós queremos protecção contra esse risco de existência, e indignamo-nos mesmo quando não recebemos essa protecção do Estado. (...)

Por vezes até pessoas defensoras da liberdade económica nem pensam na responsabilidade da empresa em primeiro lugar, falam logo do Estado: o Estado não viu, o Estado não tomou medidas, não fiscalizou, não tomou medidas nas torres de refrigeração, não foi verificar as condutas do parque aquático, esse é o estado de espírito em geral de um cidadão hoje.” (...)

 

“O problema é que cada vez é mais complexo, caro e difícil assegurar o que os cidadãos, independentemente das cores, esperam do Estado. Alguns exemplos rápidos: a saúde, ou o terrorismo, ou o aumento da esperança de vida, são coisas que baralharam completamente a nossa forma de ver. A saúde, porque é tão cara e exige tanto investimento, a esperança de vida porque baralhou as nossas contas sobre reformas e sobre relação entre as gerações, e o terrorismo, porque levou-nos até a pensar em abdicar de alguns dos direitos, como o direito à privacidade, em nome de uma segurança básica.” (...)

 

António Lobo Xavier descreveu depois como esta atitude de esperar tudo do Estado pode ser agravada, no caso português, pelo nosso perfil demográfico:

 

“A nossa população deve ser ainda considerada como pobre; apesar de todas estas nossas alegrias e este ambiente de euforia, é pobre. Quando olhamos para os números do risco de pobreza, vemos 7% das pessoas com carência económica extrema; o limiar do risco de pobreza é cerca de 5.500 euros, corresponde a 45% da população antes de prestações sociais e de pensões… É isto que nós temos.”

 

“45% das pessoas em Portugal têm estas condições, e o número desce para 18,3% depois de reformas e prestações sociais variadas. E temos 41% de pensionistas relativamente aos trabalhadores activos…”

 

Acrescentou a seguir um aspecto que admitiu poder ser polémico:

 

“Muito poucos contribuem com muito. Para isto funcionar, um Estado que responda a tudo e que garanta tudo, é preciso ir buscar o financiamento destes serviços públicos, e ele é assegurado por muito poucos. (...) Não é porque os nossos impostos tenham umas características liberais, ou anti-socialistas, ou porque são diferentes dos outros países. São as características daquele retrato que há pouco tracei  -  quase metade dos agregados familiares portugueses estão isentos de IRS, cerca de 20% contribuem com 80% da receita do IRS.”

 

“Neste esforço especial, estão os ricos, mas o problema não é estarem os ricos, é que está também a classe média, a mais educada, mais disposta a arriscar, mais empreendedora.” (...)

 

“Isto é de tal maneira assim, para verem a tal ambiguidade ideológica, que os Governos todos, qualquer que seja a cor, já não podem mexer mais nos impostos directos e procuram os impostos de largo espectro, com mais anestesia  - que são os indirectos, são os produtos pretolíferos, o IVA, etc. A procura por estes impostos é igual, tanto faz ser socialista como ser social-democrata ou centrista, todos os Governos com um sector público grande adoram impostos indirectos; têm anestesia, anestesia-se.”

 

“Os países igualitários e progressistas, de feição Labour, têm os impostos directos muito pesados, muito avançados; os países mais liberais preferem os impostos indirectos. Acabou essa conversa que vinha nos livros… qualquer país com um sector público grande adora impostos indirectos e recorre a eles.” (...)

 

António Lobo Xavier referiu-se depois à situação durante a época do ajustamento e da intervenção da troika e à actual, em que há, segundo disse, “uma fiscalidade selectiva que eu acho que pode ter algumas consequências negativas para a reputação de Portugal como destino do investimento”. E prosseguiu:

 

“Depois entendamos: existe um discurso público atractivo sobre o fim da austeridade… Não vou discutir se houve ou não fim da austeridade, parece-me que os objectivos são os mesmos, de equilíbrio orçamental e consolidação  - felizmente para nós. Mas há uma coisa de que nunca mais ninguém falou, que é a emigração, a saída dos novos de Portugal: julgam que parou, por milagre ou por uma nova solução política? Acabou a emigração dos novos? Não, mantém-se exactamente nos mesmos níveis. Julgam que parou o desemprego dos mais novos, e agora estão a encontrar lugar? Não, baixa a taxa de desemprego, claro, e bem, felizmente, mas na parte dos jovens à procura de emprego, aí não baixa especialmente.” (...)

 

Sobre a reforma do Estado, afirmou que “o Estado que temos é neste momento já condicionador das hipóteses eleitorais”:

 

“É muito difícil falar a verdade, porque os votantes são constituídos, numa enorme massa, por aquelas pessoas que ali estão, os destinatários das prestações sociais, os reformados, os funcionários públicos. (...) O peso da nossa sociedade está muito condicionado eleitoralmente. Não passa pela cabeça de ninguém ir dizer a verdade, até agora.” (...)

 

Por estes motivos defendeu a importância de entendimentos sobre o que fazer ao Estado:

 

“Acho que é fácil conseguir acordo em torno de um Estado sustentável e justo. Em geral, as pessoas não reagem aflitas perante uma proposta destas. Mas vamos lá ver: será possível combinar as duas coisas? Porque há muitas pessoas que entendem, e em Portugal isso está sempre presente no discurso político, que não é possível ao mesmo tempo assegurar a sustentabilidade e a justiça.” (...)

 

Descreveu depois a argumentação habitual, à esquerda como à direita, e defendeu:

 

“É preciso romper uma situação em que, à direita não se tem capacidade, nem coragem para falar sobre as reformas que é preciso fazer para manter a justiça, e à esquerda não se quer enfrentar as reformas que é necessário fazer para conseguir a sustentabilidade. A justiça tem que ser compatível com a eficiência.” (...)

 

“E depois, nós precisamos de políticos que rompam estas amarras antigas. A direita não pode ignorar o perfil da população, o estado das suas necessidades, os malefícios da desigualdade, a importância do Estado na requalificação da economia, e a esquerda moderna tem de perceber que os seus próprios critérios de justiça só se conseguem com a sustentabilidade do Estado e com reformas.”

Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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