null, 16 de Dezembro, 2018
Opinião

Médico bilionário, novo dono do LA Times, talvez cure o 4º maior jornal americano…

por J.Botelho Tomé

A compra do The Los Angeles Times pelo cirurgião bilionário sino-americano Patrick Soon-Shiong – dono da maior fortuna da 2ª maior cidade americana - anunciada oficialmente em 7 de Fevereiro, marca o regresso da propriedade do jornal a um residente local, depois de 18 anos de controlo por grupos de media sediados fora da Califórnia.

É o mais recente capítulo dos 137 anos de história do LA Times, propriedade da família Chandler durante cinco gerações, até 2000, vencedor de 44 prémios Pulitzer (palmarès só excedido pelo The New York Times e The Washington Post) e, não obstante os últimos dois decénios de declínio, ainda o 4º maior jornal da América, o maior da Califórnia – o estado mais populoso da união – e o maior da região oeste dos EUA, em cujos 13 estados vive quase um quarto da população americana (ca. 77 milhões de habitantes). 

A venda do LA Times pelo grupo Tronc de Chicago, por um total de 590 milhões de dólares, inclui o The San Diego Union-Tribune - 3º maior diário da Califórnia a seguir ao San Jose Mercury News (ca. 500 mil exemplares)e ex-aequocom o The Sacramento Bee e o The Orange County Register (todos com tiragens ca. 250 mil exemplares) - o jornal de língua espanhola Hoy Los Angeles e outras publicações na Califórnia. A operação deve ficar consumada pelos fins de Março ou princípios de Abril e tem implicações significativas - menos notadas pelos comentadores, mas não menos consequentes - no processo de rápida transformação, de luta pela sobrevivência e de busca de respostas às ameaças existenciais que a imprensa americana tem vindo a enfrentar. 

 

A posição do LA Times como líder regionalentre os jornais da costa oeste excede em muito a sua tiragem de 650 mil exemplares – cerca de um terço do NYT e do USA Today, e um quarto do The Wall Street Journal – porque o LA Times não tem concorrentes sérios na sua área metropolitana e jornais como o San Jose Mercury News (o mais próximo em tiragem)não têem distribuição regional.

 

O diário de Los Angeles que mais se aproxima (o Los Angeles Daily News) tem um terço da tiragem do LA Times, enquanto em Nova Iorque, por exemplo, o NYT tem que haver-se comquatro concorrentes de peso na sua própria área metropolitana: o WSJ, o Daily News, o New York Daily Post e o Newsday, cujas tiragens combinadas de quase quatro milhões de exemplares representam mais do dobro do NYT (ca. 1,8 milhões).

 

O acordo entre Soon-Shiong e a Tronc – 3º maior grupo americano de imprensa, a seguir à Gannett e à The McClatchy Company, com um portfolio de meia centena de jornais e revistas que inclui o Chicago Tribune, The New York Daily News e o The Baltimore Sun e uma tiragem combinadade ca. 60 milhões de exemplaresfoi negociado em duas semanas. A rapidez com que foi concluído e anunciado foi inesperada, mas o resultado não foi inteiramente surpreendente, porque o empenho do novo dono em adquirir o jornal era bem conhecido desde há dois anos, quando a Gannett - com sede na Virgínia e dona do USA Today, entre dezenas de outros jornais - tentou comprar a Tronc.

 

Soon-Shiong ajudou então a Tronc a derrotar o assalto da Gannett, injectando 70,5 milhões de dólares na empresa através da aquisição de 13 por cento das acções da mesma, tornando-se assim no segundo maior investidor, com 13 por cento, a seguir ao seu presidente (não-executivo) Michael Ferro, com 18 por cento. (Entretanto, a participação de Soon-Shiong aumentou para 25 por cento, e a de Ferro, para 30 por cento). Desde então, era sabido que Soon-Shiong fizera várias tentativas para adquirir o LA Times, ao que  Ferro sempre se opusera.  

 

Para os analistas que têem acompanhado de perto as vicissitudes do LA Times , desde a sua venda à Tribune Company de Chicago, em 2000, que incluiram o processo de falência desta última entre 2008-2012 (a maior falência de sempre na imprensa americana) e transferência da propriedade, há seis anos, para a Tribune Publishing Company (antecessora da Tronc), a única estranheza sobre a mudança da posição de Michael Ferro e a sua concordância em negociar a venda do jornal com Soon-Shiong, é a demora em fazê-lo. 

 

A situação financeira do LA Times já era problemática há 12 anos, quando outro bilionário da Califórnia - David Geffen, co-fundador do Dreamsworks Studio, com Steven Spielberg e Jeffrey Katzenberg – ofereceu dois mil milhões de dólares pelo jornal, oferta rejeitada pela Tribune Company, que quatro anos mais tarde acabaria por declarar falência. Esse LA Times de 2004 era o mesmo que Ferro agora concordou em vender por apenas 30 por cento da oferta de Geffen, com um corpo redactorial reduzido a 400 jornalistas – um terço dos que o jornal chegou a ter no seu auge, em fins do século passado. 

 

Desde então os problemas têem vindo a agudizar-se. Por exemplo, durante o último ano, o jornal conheceu três chefes de redacção em rápida sucessão, e a insatisfação dos jornalistas levou-os, em Janeiro passado, a criar um sindicato, pela primeira vez na história do jornal. Pelo menos um analista, Ken Doctor, sugeriu como motivação adicional para Ferro o desejo de aproveitar a oportunidade oferecida pelo novo código de impostos aprovado pelo Congresso no fim do ano passado, que veio possibilitar à Tronc um imposto mais baixo sobre os lucros da venda do LA Times.

 

Acresce que a venda do jornal irá poupar a Ferro outra dor de cabeça: a contestação de muitos trabalhadores à anunciada saída das suas instalações actuais, resultante da venda do seu icónico edifício-sede de 10 andares, estilo Art Deco, à esquina da West 1st Street e South Spring Street, inaugurado em 1935, por onde passaram sucessivas gerações de jornalistas durante os seus 83 anos de existência. Desde a aquisição por Soon-Shiong, alguns comentadores têem especulado que uma mudança do centro de Los Angeles para as imediações do aeroporto é a mais provável, dado ser aí que se situa a base de operações do novo dono, em Culver City, a cerca de 17 kms para oeste, na direcção de Santa Mónica.

 

A aquisição do LA Times é o exemplo mais recente de compra de um jornal americano importante por um mecenas bilionário. Desde 2013, Jeff Bezos – fundador, presidente e principal accionista da Amazon – adquriu o The Washington Post por 250 milhões de dólares; John Henry, dono do clube de baseball Boston Red Sox, comprou o The Boston Globe por 70 milhões (o jornal fora adquirido pelo NYT em 1993 por 1,1 mil milhões – não é gralha!);  Sheldon Adelson, magnata de casinos de Las Vegas, comprou o The Las Vegas Review-Journal por 140 milhões; e Glen Taylor, bilionário do Minnesota, comprou o Star-Tribune de  Minneapolis por 100 milhões.  

 

[Vale notar, para perspectiva, que as quatro transacções combinadas, embora vultosas, representam apenas uma quinta parte do custo da absorção do grupo Time Inc. pela Meredith Corporation de Des Moines, Iowa, completada em 31 de Janeiro passado, por 2,8 mil milhões. A data pôs ponto final aos 98 anos da revista Time, fundada por Henry Luce, como publicação independente. O Grupo ainda emprega 7.200 trabalhadores].

 

Em todos esses casos, incluindo o do LA Times, a compra providencial por novos beneméritos investidores deu a jornais financeiramente fragilizados uma esperança de vida e recursos materiais que lhes permitem enfrentar , com maior confiança,  as incertezas que os têem afectado, ficando por saber até que ponto essas intervenções se revelarão eficazes e duradouras. Ainda assim, para os milhares de trabalhadores dessas empresas, a chegada dos seus mecenas terá sido recebida com o sentimento de alívio com que muitos dos seus colegas noutras publicações menos afortunadas só podem sonhar. 

 

Por exemplo, o The Charleston Gazette-Mail de West Virginia, fundado em 1873, propriedade da família Chilton e famoso pela sua dedicação à reportagem de investigação, que ainda o ano passado lhe valera um prémio Pulitzer, declarou falência no princípio de Fevereiro, após uma tenaz e penosa luta pela sobrevivência, que incluiu uma fusão com o Charleston Daily Mail em 2004. Outro recipiente de um Pulitzer em 2017, o The East Bay Times deWalnut Creek, Califórnia (cidade próxima de Oakland), sucessor do Contra Costa Times, extinto há dois anos, é mais um jornal em sérias dificuldades: no fim de Janeiro anunciou acordos de rescisão com 28 jornalistas, e licenciamentos adicionais por determinar. Estatísticas do Labor Department da Califórnia mostram que o número de jornalistas activos no estado sofreu uma redução de um terço nos últimos 10 anos.     

 

Quem É O Novo Dono do LA Times?

 

Patrick Soon-Shiong, de 65 anos, nasceu em Port Elizabeth, na África do Sul, de pais que haviam escapado à ocupação japonesa da China durante a 2ª Guerra Mundial. Formou-se em medicina, aos 23 anos, na Universidade de Witwatersrand (Joanesburgo), e foi o primeiro médico de origem chinesa a estagiar no General Hospital de Joanesburgo, durante os anos do apartheid. Uma das suas recordações desse tempo é a de um paciente afrikaner (branco de origem holandesa) que se recusou a ser tratado por um médico chinês.  

 

Após um estágio cirúrgico na Universidade de British Columbia (Vancouver), no Canadá, transferiu-se em 1983 - com a mulher, Chan, que conhecera no Canadá - para a Faculdade de Medicina da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), onde foi professor de cirurgia gastro-intestinal até 1991, ano em que fundou a sua própria empresa de investigação médica. Durante essa primeira estadia na UCLA, foi também pioneiro em transplantação do pâncreas, tendo voltado para a mesma universidade em 2009 como professor de microbiologia, imunologia, genética molecular e bio-engenharia, posição que mantém até hoje.   

 

Pelo final dos anos 90,  Soon-Shiong tinha fundado a APP Pharmaceuticals, que vendeu em 2008 por 4,6 mil milhões de dólares, e dois anos depois vendeu a Abraxis BioScience, outra farmacêutica que tinha fundado, por 3 mil milhões.  A compra do LA Times foi feita através do  fundo de investimento NantCapital, uma das 10 empresas do Grupo NantWorks LLC, do qual  Soon-Shiong é o principal accionista.   

 

Numa mensagem que dirigiu em 7 de Fevereiro a todos os jornalistas e trabalhadores do LA Times, do San Diego U-T e California News Group, Soon-Shiong começou por acentuar o “regresso [das três entidades] a um proprietário local, que nos dá uma melhor oportunidade de preservar as suas missões e independência”

 

E mais adiante: “Como alguém que cresceu durante o apartheid na África do Sul, compreendo o papel que o jornalismo desempenha numa sociedade livre. […] Este país, e o sul da Califórnia, deram-me uma oportunidade inimaginável. […] Estou profundamente grato a esta comunidade, e espero conseguir transmitir alguma dessa gratidão através do meu apoio ao vosso trabalho”.

 

E a terminar: “Quero assegurar a todos que trabalharei para garantir que tenham ao vosso dispôr os instrumentos e os recursos que vos permitam produzir o jornalismo de alta qualidade de que os nossos leitores precisam e com que contam”.         

     

E o Futuro da Tronc?

 

A euforia da boa sorte do LA Times tem entretido a maioria dos comentadores e ajudado a olvidar a outra metade da equação - o futuro da Tronc. A venda significa que, uma vez completada, a receita da Tronc fica reduzida a metade. Os 500 milhões de dólares que vai receber (do desembolso total de 590 milhões pela NantCapital, 90 milhões são para garantir o fundo de pensões das três entidades transaccionadas) súbitamente mirram para 140 milhões depois de pagar os 360 milhões em dívidas que precisa de satisfazer. Em consequência, de momento, ninguém arrisca uma previsão sobre o valor das acções da Tronc, depois de completada a operação de transferência da propriedade.

 

Para alguns, no entanto, depois do pó assentar, a Tronc deverá dispôr de um pé-de-meia suficiente para algumas iniciativas de média envergadura na costa leste da Flórida, que tem tido um crescimento demográfico explosivo, e onde vários grupos como a Cox, a McClatchy's e a Gannett concorrem por um público leitor “maduro”, que ainda não abandonou a imprensa impressa. Por exemplo, o Palm Beach Post está receptivo a ofertas, possívelmente a custo acessível à bolsa da Tronc.   

 

O que parece evidente é que o sonho até recentemente atribuído a Michael Ferro, de aquisição da Gannett (em desagravo, segundo alguns, pela tentativa da Gannett em 2016 de assalto à Tronc) parece agora mais distante do que nunca, dado que depois da venda do LA Times, San Diego U-T e California News Group, o valor de mercado da Tronc não deve passar de metade do valor da Gannett. 

 

Em geral, no mar como em finança, é o peixe graúdo que come o miúdo, e não vice-versa, por isso é de prever que a primeira prioridade de Michael Ferro seja agora a de valorizar ao máximo o que resta da Tronc, possívelmente com algumas aquisições de oportunidade, para 1) tornar o mais cara possível qualquer tentativa de aquisição, por parte da Gannett ou de outro caçador e 2) se não conseguir afugentar o pretendente, para que a venda da Tronc seja ao menos um bom negócio.           

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Sobre o sangue-frio com que realizou o documentário, afirma:

“No momento, pensei como jornalista. Não queria que as minhas emoções tomassem a dianteira. Não era eu que estava a ser vendida. Eu tinha um avião nessa mesma tarde, para voltar para casa.”

A verdade é que, se fosse descoberta, teria perdido o voo e, provavelmente, a vida. Nascida em Khartoum, exilada aos três anos, educada na London School of Economics, tornou-se correspondente internacional para a CNN em Londres e desde há uma década que acumula prémios pela coragem e sentido de humanidade dos seus trabalhos.

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