Segunda-feira, 22 de Abril, 2019
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Os jornalistas como "marcas" e a tentação de concorrerem com os Media

As alterações que foram impostas ao jornalismo pela chegada da Internet seguiram o caminho de uma escalada. Primeiro tratava-se apenas de um meio mais abrangente, que podia incorporar conteúdos de todos os que já existiam. Uma vez instaladas as redes sociais, o jornalismo viu-se na necessidade de lá ir à procura das audiências perdidas e passou a escrever “mais para os algoritmos do que para os leitores”. A questão de fundo passou a ser a da visibilidade.
“Não adianta fazer o melhor jornalismo do mundo se ninguém o lê, e agora isso só acontece se pagarmos para sermos vistos. É o paradoxo actual: são precisas ‘visitas’ para que a publicidade seja rentável, e é preciso pagar publicidade para poder ser visto.” É esta a reflexão inicial de um longo texto sobre os jornalistas (também vistos como "marcas") e as redes sociais, publicado em Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O autor, o jornalista Borja Ventura, docente em duas Universidades de Madrid, conta que o choque inicial, na adaptação dos media à nova tecnologia, foi o da concorrência. Primeiro, concorrentes eram os outros jornais ou estações de rádio e TV, mas logo a seguir era a própria audiência, que começava a “transformar-se em emissora, além de receptora”. 

Foram poucos os autores de blogs que conseguiram alcançar alguma rentabilidade económica à custa dos grandes meios, mas fixaram “novas dependências”: a audiência dos meios digitais já não dependia só dos leitores, mas também dos que os comentavam. 

“Houve casos em que o conteúdo jornalístico original passava para segundo plano, porque uma parte da audiência estava mais interessada pelo debate gerado na área de comentários do que pelos argumentos trocados no corpo do artigo”. 

Com o tempo, muitos media “absorveram ou adquiriram aquelas páginas independentes que traziam conteúdo interessante, como secções ou colunas”. Mas no fundo não ganharam a batalha, tiveram é que “adoptar muitas práticas que lhes eram alheias”. 

“Aquilo que os blogs tinham tentado, acabaram por consegui-lo as redes sociais: dotar a audiência de espaços próprios em que pode partilhar, comentar e contactar. (...) Os utentes deixaram de ir aos media ler, escutar ou ver conteúdo, e começaram a levar o conteúdo para os seus próprios espaços para o ver, partilhar e comentar.” 

Depois, foram os media que se aproximaram das redes sociais, em parte como “caçadores de tendências”, procurando ver de que temas falavam as pessoas, para os pôr na sua agenda “com a esperança de trazer de volta essa audiência perdida”. 

“Assim, por critérios exclusivos de audiência, os chamados [temas] ‘virais’ e os conteúdos surgidos nessas redes  - trending topics, vídeos de YouTube e comentários no Instagram -  começaram a ocupar um espaço que nunca antes tinham conseguido.” (...) 

As redes sociais tornaram-se então os intermediários entre os media e as suas audiências. Quando vieram a Google e o Facebook, “os media tinham entregado [tudo], desde os procedimentos aos conteúdos, a troco de alcançarem a audiência que tinham perdido”. (...) A realidade, agora, é que “a maioria [dos utentes] chega aos media através das redes sociais”. 

A segunda parte do trabalho de Borja Ventura trata depois, em pormenor, um problema grave que afecta as redacções e está a ser debatido, pelos efeitos perversos, mesmo que involuntários, que traz consigo: o de muitos jornalistas se assumirem, eles mesmos, como “marcas” dentro da “marca” maior que é o seu próprio jornal ou estação emissora, tornando-se concorrentes internos. 

“O problema inerente às redes sociais é que não existe dissociação possível entre os conceitos de pessoa  - com as suas opiniões e ideias -  e de profissional (ou, pelo menos, não é o mais frequente).” 

Mas alguns jornais, “especialmente no mundo anglo-saxónico, colocaram em vigor estritas directrizes e normas de cumprimento obrigatório para os seus funcionários. Assim, o perfil social dos membros de um meio de comunicação não pertence ao profissional, mas sim ao meio. Há casos em que que o nome do perfil não é sequer o do profissional, mas sim do profissional com alguma referência ao meio ou ao programa em que trabalha”. (...) 

Um dos exemplos mais recentes é o do código publicado por The New York Times a 13 de Outubro de 2017, onde se estabelece que, se os seus jornalistas “são entendidos como parciais, ou se editorializam nas redes sociais, isso pode prejudicar a credibilidade da redacção inteira”. Este tema foi na altura referido no nosso site

“Por isso ficam proibidos de mostrar expressamente o seu apoio a candidatos ou ideologias, bem como de emitir opiniões políticas.” (...) 

Borja Ventura reflecte longamente sobre os vários lados desta questão, abordando também os casos e os modos como ela se coloca na Espanha. Compara depois as diferenças entre Twitter e Facebook, como meios de comunicação instantânea, e os diferentes problemas que colocam ao jornalismo profissional. 

E conclui com uma síntese que remata numa pergunta: 

“Os jornalistas são, apesar dessa busca de singularidade em mostrarem-se como pessoas, mais uma peça da engrenagem que vincula a criação de opinião com o tratamento da actualidade. A presença e participação subjectiva de jornalistas nas redes amplifica, portanto, essa lógica, embora não a crie.” 

“Talvez por isso, antes de culpar os indivíduos por mostrarem as suas ideias, haveria que pensar em como contribuem os colectivos  - as empresas de media -  para a construção dessa subjectividade. Se aceitamos e defendemos os editoriais, as colunas de opinião e os espaços de debate, por que não as opiniões pessoais de um jornalista em particular?” 

O texto na íntegra, na edição nº 35 de Cuadernos de Periodistas

 

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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