Quarta-feira, 17 de Agosto, 2022
Prémio

Bettany Hughes, Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a comunicar história e património cultural

A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte e cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

A cerimónia, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, foi o ponto alto desta iniciativa do Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a “Europa Nostra”  - que representa em Portugal -  e em parceria com o Clube Português de Imprensa. 

Na sua alocução de agradecimento pelo Prémio, Bettany Hughes declarou-se “muito emocionada” e honrada pelo privilégio, lembrando que tinha razões “profundamente pessoais” para se sentir assim em Lisboa, porque foi aqui (em Sintra) que veio passar a sua lua-de-mel. 

Evocou Helena Vaz da Silva como “uma mulher extraordinária” e, também por esse motivo, declarou que iria sublinhar, na sua intervenção, o papel da mulher no ADN da História da Cultura e da Civilização.  

Sobre o seu próprio percurso, recordou que, nos anos 80, a História “não estava muito na moda, era considerada ultrapassada, irrelevante”. Quando pensou que a televisão seria o meio para fazer a sua divulgação, e procurou um produtor para lhe comunicar a importância desse projecto (já nos anos 90), ele disse-lhe  três coisas: 

“Primeiro, que ninguém está hoje interessado na História; em segundo lugar, que ninguém vê História pela televisão; e em terceiro, que ninguém quer receber lições de uma mulher. E eu fiquei furiosa e decidi que ia provar-lhe que estava errado.” 

 Na sua apresentação da laureada, também Guilherme d’Oliveira Martins recordou Helena Vaz da Silva como “um exemplo bem presente quando falamos do património e da memória como realidades vivas”: 

“Num tempo em que há nuvens negras no horizonte, no tocante a uma perspectiva humanista de cooperação humana e social  – numa ameaçadora articulação dos riscos das mudanças climáticas, da saúde, da segurança alimentar, de protecção do planeta e dos perigos inerentes à ciber-segurança –  torna-se necessário encontrar respostas capazes de articular a coesão social, a sustentabilidade humana e as novas dimensões do conhecimento.” 

Maria Calado, Presidente do Centro Nacional de Cultura, bem como do Júri do Prémio Helena Vaz da Silva, sublinhou que Bettany Hughes é a primeira mulher a receber este prémio: 

“Figura multifacetada, historiadora por formação, é professora universitária e autora. Mas é, sobretudo, grande comunicadora que actua no espaço público, informando com rigor, atratividade e sucesso, sobre os mais diversos aspectos da cultura, da história, da filosofia e da ciência.” 

Dinis de Abreu, Presidente do CPI, enumerou o elenco dos anteriores premiados com o galardão que traz o nome de Helena Vaz da Silva e, a concluir, afirmou que ela “nunca recuou  - e não é demais repeti-lo -, ao defender todas as causas em que acreditou. E foram muitas, estranhas ao ‘carimbo’  tão em voga do ‘politicamente correcto’. Devemos-lhe esse exemplo e a coragem. Ela foi, sem dúvida, o grito da Cultura”. 

O Prémio da União Europeia para o Património Cultural distinguiu, em Portugal, o Projecto de Reabilitação do Jardim Botânico do Palácio Nacional de Queluz  - também vencedor do Prémio “Escolha do Público” -  que foi apresentado por Nuno Oliveira, director técnico do Património Natural. 

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que não pôde estar presente por se encontrar na Cimeira Ibero-Americana, na Guatemala, enviou uma mensagem de vídeo, evocando Helena Vaz da Silva como “querida amiga, que comigo trabalhou”, e como “jornalista, política e mulher da Cultura”. Dirigiu-se em inglês à historiadora Bettany Hughes, a quem agradeceu e cumprimentou pela sua obra em defesa dos ideais europeus, sendo deste modo “um exemplo para todos nós”. 

A condução dos trabalhos foi feita por Sneska Quaedvlieg-Mihailovic, secretária-geral da Europa Nostra.

Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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Dinis de Abreu
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