Terça-feira, 26 de Março, 2019
Media

"Desordem da informação" põe em risco a democracia

Se as bases factuais em que assenta a governação democrática não são credíveis, os cidadãos ficam com poucos recursos ao seu dispor, em assuntos de decisão colectiva. “É então que se instalam o cinismo, a apatia e a adesão a dirigentes populistas ou autoritários, com respostas simples, e a democracia parece ser demasiado confusa, contestada ou complicada para ser seguida.”

Está a nascer uma nova “ordem da informação”, já não fundamentada nos factos e na verdade partilhada, mas “estrategicamente designada para confundir, ofender e manipular emocionalmente”. É esta a advertência de um novo relatório divulgado pela Comissão sobre Verdade, Confiança e Tecnologia, da London School of Economics, que retoma as preocupações já expostas no relatório do Conselho da Europa, de 2017, sobre a “desordem da informação”.

“Embora seja difícil demonstrar uma relação de causalidade, o crescimento das redes sociais coincide com a erosão alarmante de um apoio forte à democracia, entre os jovens eleitores nos EUA e na Europa Ocidental (que cresceram sem a ameaça existencial do fascismo ou de um regime autoritário).”

Segundo o artigo que aqui citamos, do Observatório Europeu do Jornalismo, a solução habitualmente procurada é a de promover a “literacia do jornalismo” entre os leitores dos media. Mas os projectos deste tipo pedem-lhes que se tornem, “não só consumidores críticos da informação, e árbitros da verdade entre afirmações concorrentes, mas ainda geradores de conteúdos criativos e atentos  - por outras palavras, que sejam eles próprios jornalistas”. (...) 

Acrescenta-se a isto a necessidade de “estarem atentos aos ataques de hackers, aos esquemas de phising, às violações de privacidade, às fake news, às campanhas de desinformação e à propaganda computorizada, desenvolvendo ainda a competência técnica e os recursos cognitivos para conseguirem obter valor da esfera da informação  - por outras palavras, para interagirem com os media digitais com uma competência ao nível da dos hackers”. 

O texto que citamos admite que tudo isto pode ser exigido a alguém com formação superior em jornalismo, estudos de media e comunicação, mas não está ao alcance do utente normal. O problema é que, à semelhança dos avisos sobre o aquecimento global, a “crise da informação” identificada por esta Truth, Trust and Technology Commission “não se perspectiva apenas num futuro longínquo, mas já está em cima de nós”. 

Além do referido relatório do Conselho da Europa sobre a Information Disorder, o artigo menciona, como coincidentes na mesma linha, as preocupações apontadas pelo grupo de peritos nomeado pela Comissão Europeia sobre Fake News and Online Disinformation, em Março deste ano, e a mais recente Trust and Technology Initiative da Universidade de Cambridge. Estes e outros documentos citados são acessíveis pelos links incluídos no texto. 

A questão central levantada pelo autor, Erik Bucy, docente no Departamento de Telecomunicações na Universidade de Indiana, Bloomington, é a seguinte: 

“Será que os cidadãos têm, na sua maioria, uma compreensão suficientemente desenvolvida dos procedimentos e práticas dos media de referência, para deterem uma base pessoal de conhecimentos sobre jornalismo, de cada vez que acedem a fontes enganosas ou conteúdos suspeitos?” 

Da sua experiência e investigação, o autor conclui que esse conhecimento do modo de funcionamento do jornalismo confere ao leitor uma maior capacidade de “detecção das tretas” [bullshit detection, no original] e melhora a sua motivação para procurar fontes de qualidade. 

“Distinguir entre facto e ficção e entre as tentativas de persuadir, em vez de informar, é uma tarefa cada vez mais complexa, quando o peso da verificação recai sobre o indivíduo, como sucede frequentemente em meios digitais. Mas as fake news só chegam até aí se os utentes estiverem equipados de conhecimento sobre os processos que tornam as notícias sólidas fundamentalmente diferentes da opinião e da asserção  - e souberem reconhecer alegações politicamente motivadas como aquilo que são.” (...) 

“Uma educação para media de qualidade deve ser acessível ao público a custo nominal, e conduzida por instrutores que sejam livres de tendenciosismo, mas empenhados em comunicar a função constitutiva do jornalismo na sociedade.” (...)


O artigo citado, no European Journalism Observatory, e o relatório da Truth, Trust and Technology Commission  da LSE
O relatório do Conselho da Europa sobre a Desordem da Informação

Connosco
José Ribeiro e Castro em Abril no jantar-debate do CPI Ver galeria

Advogado de profissão, político por vocação com um pé na Comunicação Social, José Ribeiro e Castro é o próximo orador–convidado no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, marcado para 16 de Abril, na Sala da Biblioteca do Grémio Literário.

Deputado, eurodeputado, governante , membro da equipa fundadora da TVI com Roberto Carneiro e antigo líder do CDS,  José Ribeiro e Castro começou cedo a respirar a política em casa.

Filho de Fernando Santos e Castro, que presidiu à Camara Municipal de Lisboa e foi o último governador português em Angola, Ribeiro e Castro nasceu em Lisboa  a 24 de Dezembro de 1953. É casado e tem três filhas e um filho.

Risco de nova “ordem mundial de Informação” sob modelo chinês Ver galeria

No contexto da visita do Presidente Xi Jinping a vários países europeus, para promover as “novas rotas da seda” das ambições económicas e geo-estratégicas da China, importa prestar também atenção à “nova ordem mundial da Informação” contida no projecto geral. Segundo um relatório muito recente dos Repórteres sem Fronteiras, o governo chinês, seguro do controlo que já exerce sobre os media nacionais e a Internet no seu próprio espaço, deseja impor um vocabulário “ideologicamente correcto” também fora de fronteiras.

E procura consegui-lo por uma panóplia de meios, que vão desde a sedução dos media ou jornalistas estrangeiros até várias formas de pressão ou mesmo intimidação.

“Há dez anos punha-se a questão de melhorar a situação na China. Mas, enquanto ONG de defesa da liberdade de Imprensa e dos jornalistas, encontramos cada vez mais dificuldades em ter impacto no país. A questão que se coloca hoje é: de que modo podem as democracias defender-se da influência mediática chinesa?”  - diz Cédric Alviani, presentante dos RSF para a Ásia Oriental.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
A realidade choca. Um trabalho de investigação jornalística, publicado no Expresso,  apurou que Portugal tem 95 políticos a comentar nos media. É algo absolutamente inédito em qualquer parte do mundo, da Europa aos EUA. Nalguma coisa teríamos de ser inovadores, infelizmente, da pior maneira. É um “assalto”, que condiciona a opinião pública e constitui um simulacro de pluralismo, já que  o elenco...
Augusto Cid, uma obra quase monumental
António Gomes de Almeida
Com o falecimento de Augusto Cid, desaparece um dos mais conhecidos desenhadores de Humor portugueses, com uma obra que pode considerar-se quase monumental. Desenhou milhares de cartoons, fez livros, e até teve a suprema honra de ver parte da sua obra apreendida – depois do 25 de Abril (!) – e tornou-se conhecido, entre outras, por estas duas razões: pelas piadas sibilinas lançadas contra o general Ramalho Eanes, e por fazer parte do combativo grupo das...
Uma edição fraca
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Já se sabe que a revista “Monocle” é uma grande utilizadora criativa do conceito de conteúdos patrocinados, frequentemente dissimulados de forma editorial elegante e sedutora. O grafismo da revista continua contemporâneo, apesar de não ter tido muitas evoluções desde que foi lançada em 2007. Em contrapartida, o espaço ocupado por conteúdos patrocinados tem vindo sempre a aumentar, por vezes demais, até se...
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No recente encontro em Roma, no Vaticano, sobre o dramático caso dos abusos sexuais por elementos do clero católico, a vários níveis, ouviram-se vozes agradecendo a jornalistas que investigaram e divulgaram abusos. É uma justa atitude.  Dir-se-á que alguns jornalistas terão procurado o escândalo e, também, denegrir a imagem da Igreja. Talvez. Mas o verdadeiro escândalo é que padres, bispos e cardeais, em vez de...
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