null, 26 de Maio, 2019
Media

"Desordem da informação" põe em risco a democracia

Se as bases factuais em que assenta a governação democrática não são credíveis, os cidadãos ficam com poucos recursos ao seu dispor, em assuntos de decisão colectiva. “É então que se instalam o cinismo, a apatia e a adesão a dirigentes populistas ou autoritários, com respostas simples, e a democracia parece ser demasiado confusa, contestada ou complicada para ser seguida.”

Está a nascer uma nova “ordem da informação”, já não fundamentada nos factos e na verdade partilhada, mas “estrategicamente designada para confundir, ofender e manipular emocionalmente”. É esta a advertência de um novo relatório divulgado pela Comissão sobre Verdade, Confiança e Tecnologia, da London School of Economics, que retoma as preocupações já expostas no relatório do Conselho da Europa, de 2017, sobre a “desordem da informação”.

“Embora seja difícil demonstrar uma relação de causalidade, o crescimento das redes sociais coincide com a erosão alarmante de um apoio forte à democracia, entre os jovens eleitores nos EUA e na Europa Ocidental (que cresceram sem a ameaça existencial do fascismo ou de um regime autoritário).”

Segundo o artigo que aqui citamos, do Observatório Europeu do Jornalismo, a solução habitualmente procurada é a de promover a “literacia do jornalismo” entre os leitores dos media. Mas os projectos deste tipo pedem-lhes que se tornem, “não só consumidores críticos da informação, e árbitros da verdade entre afirmações concorrentes, mas ainda geradores de conteúdos criativos e atentos  - por outras palavras, que sejam eles próprios jornalistas”. (...) 

Acrescenta-se a isto a necessidade de “estarem atentos aos ataques de hackers, aos esquemas de phising, às violações de privacidade, às fake news, às campanhas de desinformação e à propaganda computorizada, desenvolvendo ainda a competência técnica e os recursos cognitivos para conseguirem obter valor da esfera da informação  - por outras palavras, para interagirem com os media digitais com uma competência ao nível da dos hackers”. 

O texto que citamos admite que tudo isto pode ser exigido a alguém com formação superior em jornalismo, estudos de media e comunicação, mas não está ao alcance do utente normal. O problema é que, à semelhança dos avisos sobre o aquecimento global, a “crise da informação” identificada por esta Truth, Trust and Technology Commission “não se perspectiva apenas num futuro longínquo, mas já está em cima de nós”. 

Além do referido relatório do Conselho da Europa sobre a Information Disorder, o artigo menciona, como coincidentes na mesma linha, as preocupações apontadas pelo grupo de peritos nomeado pela Comissão Europeia sobre Fake News and Online Disinformation, em Março deste ano, e a mais recente Trust and Technology Initiative da Universidade de Cambridge. Estes e outros documentos citados são acessíveis pelos links incluídos no texto. 

A questão central levantada pelo autor, Erik Bucy, docente no Departamento de Telecomunicações na Universidade de Indiana, Bloomington, é a seguinte: 

“Será que os cidadãos têm, na sua maioria, uma compreensão suficientemente desenvolvida dos procedimentos e práticas dos media de referência, para deterem uma base pessoal de conhecimentos sobre jornalismo, de cada vez que acedem a fontes enganosas ou conteúdos suspeitos?” 

Da sua experiência e investigação, o autor conclui que esse conhecimento do modo de funcionamento do jornalismo confere ao leitor uma maior capacidade de “detecção das tretas” [bullshit detection, no original] e melhora a sua motivação para procurar fontes de qualidade. 

“Distinguir entre facto e ficção e entre as tentativas de persuadir, em vez de informar, é uma tarefa cada vez mais complexa, quando o peso da verificação recai sobre o indivíduo, como sucede frequentemente em meios digitais. Mas as fake news só chegam até aí se os utentes estiverem equipados de conhecimento sobre os processos que tornam as notícias sólidas fundamentalmente diferentes da opinião e da asserção  - e souberem reconhecer alegações politicamente motivadas como aquilo que são.” (...) 

“Uma educação para media de qualidade deve ser acessível ao público a custo nominal, e conduzida por instrutores que sejam livres de tendenciosismo, mas empenhados em comunicar a função constitutiva do jornalismo na sociedade.” (...)


O artigo citado, no European Journalism Observatory, e o relatório da Truth, Trust and Technology Commission  da LSE
O relatório do Conselho da Europa sobre a Desordem da Informação

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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