Terça-feira, 16 de Julho, 2019
Media

"Desordem da informação" põe em risco a democracia

Se as bases factuais em que assenta a governação democrática não são credíveis, os cidadãos ficam com poucos recursos ao seu dispor, em assuntos de decisão colectiva. “É então que se instalam o cinismo, a apatia e a adesão a dirigentes populistas ou autoritários, com respostas simples, e a democracia parece ser demasiado confusa, contestada ou complicada para ser seguida.”

Está a nascer uma nova “ordem da informação”, já não fundamentada nos factos e na verdade partilhada, mas “estrategicamente designada para confundir, ofender e manipular emocionalmente”. É esta a advertência de um novo relatório divulgado pela Comissão sobre Verdade, Confiança e Tecnologia, da London School of Economics, que retoma as preocupações já expostas no relatório do Conselho da Europa, de 2017, sobre a “desordem da informação”.

“Embora seja difícil demonstrar uma relação de causalidade, o crescimento das redes sociais coincide com a erosão alarmante de um apoio forte à democracia, entre os jovens eleitores nos EUA e na Europa Ocidental (que cresceram sem a ameaça existencial do fascismo ou de um regime autoritário).”

Segundo o artigo que aqui citamos, do Observatório Europeu do Jornalismo, a solução habitualmente procurada é a de promover a “literacia do jornalismo” entre os leitores dos media. Mas os projectos deste tipo pedem-lhes que se tornem, “não só consumidores críticos da informação, e árbitros da verdade entre afirmações concorrentes, mas ainda geradores de conteúdos criativos e atentos  - por outras palavras, que sejam eles próprios jornalistas”. (...) 

Acrescenta-se a isto a necessidade de “estarem atentos aos ataques de hackers, aos esquemas de phising, às violações de privacidade, às fake news, às campanhas de desinformação e à propaganda computorizada, desenvolvendo ainda a competência técnica e os recursos cognitivos para conseguirem obter valor da esfera da informação  - por outras palavras, para interagirem com os media digitais com uma competência ao nível da dos hackers”. 

O texto que citamos admite que tudo isto pode ser exigido a alguém com formação superior em jornalismo, estudos de media e comunicação, mas não está ao alcance do utente normal. O problema é que, à semelhança dos avisos sobre o aquecimento global, a “crise da informação” identificada por esta Truth, Trust and Technology Commission “não se perspectiva apenas num futuro longínquo, mas já está em cima de nós”. 

Além do referido relatório do Conselho da Europa sobre a Information Disorder, o artigo menciona, como coincidentes na mesma linha, as preocupações apontadas pelo grupo de peritos nomeado pela Comissão Europeia sobre Fake News and Online Disinformation, em Março deste ano, e a mais recente Trust and Technology Initiative da Universidade de Cambridge. Estes e outros documentos citados são acessíveis pelos links incluídos no texto. 

A questão central levantada pelo autor, Erik Bucy, docente no Departamento de Telecomunicações na Universidade de Indiana, Bloomington, é a seguinte: 

“Será que os cidadãos têm, na sua maioria, uma compreensão suficientemente desenvolvida dos procedimentos e práticas dos media de referência, para deterem uma base pessoal de conhecimentos sobre jornalismo, de cada vez que acedem a fontes enganosas ou conteúdos suspeitos?” 

Da sua experiência e investigação, o autor conclui que esse conhecimento do modo de funcionamento do jornalismo confere ao leitor uma maior capacidade de “detecção das tretas” [bullshit detection, no original] e melhora a sua motivação para procurar fontes de qualidade. 

“Distinguir entre facto e ficção e entre as tentativas de persuadir, em vez de informar, é uma tarefa cada vez mais complexa, quando o peso da verificação recai sobre o indivíduo, como sucede frequentemente em meios digitais. Mas as fake news só chegam até aí se os utentes estiverem equipados de conhecimento sobre os processos que tornam as notícias sólidas fundamentalmente diferentes da opinião e da asserção  - e souberem reconhecer alegações politicamente motivadas como aquilo que são.” (...) 

“Uma educação para media de qualidade deve ser acessível ao público a custo nominal, e conduzida por instrutores que sejam livres de tendenciosismo, mas empenhados em comunicar a função constitutiva do jornalismo na sociedade.” (...)


O artigo citado, no European Journalism Observatory, e o relatório da Truth, Trust and Technology Commission  da LSE
O relatório do Conselho da Europa sobre a Desordem da Informação

Connosco
Prémio Europeu Helena Vaz da Silva atribuído à Directora do CERN Ver galeria

A cientista italiana Fabiola Gianotti, especializada em física de partículas e, desde 2016, Directora-Geral do CERN (acrónimo da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), foi distinguida com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2019.

“O conhecimento é como uma arte”  - afirmou Fabiola Gianotti ao agradecer a nomeação. “Ambos são as mais altas expressões da mente humana e o CERN é o lugar perfeito para as alcançar.”

“O conhecimento científico pertence a todos”  - disse ainda. “Como cientistas, devemos fazer os maiores esforços para compartilhar com a sociedade em geral as nossas descobertas e promover uma ciência aberta, acessível a todos. Ao longo das décadas, o CERN tem defendido os valores da excelência científica, ciência aberta e colaboração entre os países europeus e do resto do mundo.”

O Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural foi instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a Europa Nostra, que representa em Portugal, e também com o Clube Português de Imprensa.

O Júri do Prémio deste ano atribuíu Menções Especiais a duas outras personalidades: o Director do Royal Danish Theatre,  Kasper Holten, pelo seu esforço em prol da compreensão do património cultural, e o italiano Angelo Castiglioni, que dedicou a sua vida a explorações arqueológicas e etnográficas.

A cerimónia de entrega do Prémio terá lugar no dia 25 de Novembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
Um relatório recente sobre os princípios de actuação mais frequentes dos maiores publishers digitais dá algumas indicações que vale a pena ter em conta. O estudo “Digital Publishers Report”, divulgado pelo site Digiday, analisa as práticas de uma centena de editores e destaca alguns factores que, na sua opinião, permitem obter os melhores resultados. O estudo estima que as receitas provenientes de conteúdo digital...
E lá se foi mais um daqueles Artistas geniais que tornam a existência humana mais suportável… Guillermo Mordillo era um daqueles raríssimos autores que não precisam de palavras para nos revelarem os aspectos mais evidentes, e também os mais escondidos, das nossas vidas – os alegres, os menos alegres, os cómicos, os ridículos, até os trágicos -- com um traço redondo, que dava aos seus bonecos uma vivacidade...
Sejam de direita ou de esquerda, há uma verdadeira inflação de políticos no activo - ou supostamente retirados - ,  “vestidos” de comentadores residentes nas televisões, com farto proveito. Alguns deles acumulam mesmo os “plateaux” com os microfones  da rádio ou as colunas de jornais, demonstrando  uma invejável capacidade de desdobramento. O objectivo comum a todos é, naturalmente,  pastorearem...
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
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01
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Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
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27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
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Set