Segunda-feira, 22 de Abril, 2019
Media

A paixão da reportagem está na descoberta da verdade

Um cartaz com a frase que vem na imagem é o ponto de partida do repórter brasileiro Carlos Wagner para uma reflexão sobre a natureza e vocação do jornalismo. Com três décadas de carreira no jornal Zero Hora, dedicou-se, ao sair, “a ajudar na formação de novos repórteres, fazendo palestras, discutindo com colegas em redacções pelo interior do Brasil e escrevendo sobre  jornalismo”:

“Por conta dessas conversas, eu precisei de me actualizar em tudo que se tem escrito, falado e pesquisado sobre a nossa profissão e o destino das empresas tradicionais de comunicação. Pelo que vi, eu acredito que nunca se tenham publicado tantos trabalhos académicos, pesquisas de marketing e livros sobre o futuro da reportagem.”

Dessa experiência, e do sentimento de que, no fim das conversas, saía sempre com a sensação de ter deixado de dizer o mais importante, recolheu o tema para esta crónica publicada no Observatório da Imprensa do Brasil, onde defende que o essencial é a paixão que o repórter precisa de ter para esclarecer o desconhecido:

“Sem ela, nós somos apenas um amontoado de técnicas de como fazer jornalismo. Mas é ela que nos torna diferentes.”

Essa paixão, como Carlos Wagner a entende, pode ser definida como a “insistência de descobrir a verdade”: 

“A história reservou ao repórter a tarefa de descobrir e explicar os factos relevantes ao quotidiano das pessoas. Isso significa que nós não somos intermediários entre a fonte e o leitor. Nós produzimos conhecimento novo com o nosso trabalho.” (...) 

“O repórter não nasce com a paixão por esclarecer o desconhecido. Ele a cultiva como se fosse uma planta rara, até ela crescer e começar a dar frutos.” 

“O cartaz ‘Toda a garrafa vazia está cheia de histórias’  me fez lembrar porque resolvi  ser repórter. Foi ali, na mesa do boteco,  escutando as conversas de grandes repórteres sobre as matérias em que vi a paixão pela busca da verdade na cara deles.” 

“Lembro, enquanto as garrafas ficavam vazias sobre a mesa, o som da conversa subia. No final da noite, todos falavam ao mesmo tempo, parecia uma briga. Foi durante uma gritaria dessas que ouvi uma frase, não lembro quem disse, mas nunca a esqueci: ‘publicamos o mais próximo da verdade que conseguimos chegar’.” 

O autor acrescenta que 2019 não vai ser um ano fácil para os jornalistas brasileiros, com despedimentos e fecho de jornais:

“Seja lá qual for o rumo que o governo do Bolsonaro tomar, o certo é que vamos ter sérios problemas de acesso a informações. Ele seguirá o modelo de Trump, de usar as redes sociais para falar.” 

Mas acrescenta que, “se os grandes noticiários não divulgarem as postagens feitas pelo Presidente da República nas redes sociais, elas não repercutem”. 

E como “nem Trump nem Bolsonaro vão postar nas redes sociais factos desfavoráveis às suas administrações”, essa parte continuará a ser função do jornalismo: 

“Portanto, o governo Bolsonaro é uma garrafa cheia na mesa de jornalistas em um boteco. Logo ela vai estar vazia e restará uma história para contar. É simples assim.”

 

O artigo citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa 
Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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