Sexta-feira, 21 de Junho, 2019
Opinião

Jornalismo a meia-haste

por Graça Franco

Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto.

Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O ex-banqueiro em tempos já se tinha visto rodeado do mesmo lamentável espetáculo de câmaras a atropelarem-se, para esmolar o “soundbite” que permitiria abrir o jornal da noite desse dia com o vómito sorridente do seu imenso poder. Talvez Vara gostasse desse ataque, agora repetido, com as câmaras atraídas pelo cheiro da putrefação da dignidade perdida e da humilhação total.

Às 16 horas e 45 minutos “é o momento em que chega Armando Vara” para se dirigir “à cela do rés-do-chão, a mais próxima do guarda da ala, onde antes estavam dois outros detidos que acabaram por ser deslocados…”. Que interesse público existe nisto? Nenhum. Mas o relato prossegue indiferente ao facto de aquele nome corresponder, agora, apenas a um homem que, no seu compreensível sofrimento, precisava de mais caridade do que de publicidade. A exemplaridade na Justiça poucas vezes é “exemplar”.

“Era o momento aguardado por muitos jornalistas” dizia a repórter em direto. Não a critico. Escalada para o serviço, enregelada, certamente tão interessada no caso e nos pormenores como outro português qualquer, falava como se estivesse programada para desempenhar aquele papel. Tão esquecida, como todos os outros, do código deontológico que proíbe que se façam perguntas a pessoas que estejam perturbadas e incapazes da serenidade necessária à resposta (artigo 8.º “(…) o jornalista deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor”).

Vara saiu do carro, enquanto apertava nervoso o casaco, murmurava que aquele era “o pior momento” da sua vida. Não bastou para que ninguém lhe virasse as costas e desligasse as luzes para o deixar em paz nesse seu luto. Numa das TVs, passados aqueles penosos dez minutos, alguém teve a decisão peregrina de voltar ao princípio. “Vamos rever”… mais dez minutos de inglória.

Não tenho por Vara nenhuma simpatia (como já não tinha por Sócrates, que foi uma vitima de igual ou pior tratamento). Na Renascença uma única vez divulgámos a fonte que nos tinha manipulado. Dissemos o seu nome. Enfrentámos o poder de Vara, que na época já era muito, embora só fosse ainda um secretário de Estado responsável pela Segurança Rodoviária. Chamou-nos mentirosos e nós devolvemos o insulto e provámos quem afinal mentia.

Isto talvez bastasse para não nos interessarmos muito pela sua sorte agora. Mas não. O Armando Vara que foi preso é um Armando como nós, que de Vara já tem pouco.

Já lá vai. Sobretudo esta não é a hora para repisar o vencido.

O Cardeal Patriarca de Lisboa pediu esta semana, na abertura do ano judicial, honestidade aos jornalistas para que se evitem julgamentos precipitados, na praça pública, através da comunicação social. Em si mesmo, o pedido podia ter sido feito por qualquer outra personalidade presente na cerimónia. Marcelo formulou algo de muito semelhante, ao pedir que não se diabolizassem nem endeusassem alguns agentes da Justiça, nem se olhasse o andamento dos processos como quem segue eleições (aqui a indireta era para Joana Marques Vidal e Carlos Alexandre como potenciais endeusados…).

Acrescentou o Patriarca: a comunicação é um “grande bem”, mas “depende do sentido de Justiça que realmente se tenha, quer da parte de quem informa, quer da parte de quem recebe a informação”, pedindo aos jornalistas honestidade para que não deturpem factos, que não julguem “a priori”, “não recolhendo fraudulentamente os dados, nem os manipulando depois”.

Um recado que ia direitinho para uma reportagem da TVI, recém emitida, sobre a forma como a Igreja lida com a questão da sexualidade na sua versão homo. Independentemente do tema, o que chocou e enlutou boa parte da classe foi o uso e abuso de métodos a todos os títulos condenáveis pelos próprios códigos da profissão. Câmaras ocultas para filmar e gravar conversas com profissionais de saúde, grupos paroquiais de anónimos em busca de ajuda pastoral e, para cúmulo, uma conversa de direção espiritual entre um jovem supostamente católico e um padre. Nada que não pudesse revelar-se à luz do dia e com o conhecimento dos visados, não fora pretender-se embrulhar “o caso” num suposto “secretismo” inexistente. Aliás, a psicóloga visada aceitou até estar presente para debater posteriormente, em estúdio, o teor de uma reportagem que a filmara secretamente, sem que esta o soubesse.

D. Manuel insiste: “Para dar a cada um o que lhe é devido, a Justiça como virtude básica e como prática judicial tem de incidir particularmente na qualidade da comunicação, de que afinal todos somos agentes, ativos ou passivos. Para que em tudo se respeite a todos e ninguém saia lesado. Mesmo quando for preciso denunciar o mal – e infelizmente não faltam ocasiões para isso – tenhamos em conta que se trata de pessoas, que nunca perdem a dignidade essencial que as qualifica.”

Para cúmulo, esta semana a mesma TV reincide e, a propósito da defesa da qualificação como vitimas de violência doméstica de duas crianças, devassa-lhes a vida, volta a agredi-las de forma inadmissível. Revela os seus nomes e recorda-lhes as agressões que sofreram e que foram praticadas entre os seus progenitores, repete inclusivamente os insultos proferidos pelo pai contra a mãe, mas, como se isto não bastasse, permite ao agressor utilizar um dos menores, manipulando-o uma vez mais, para assumir a sua defesa em direto, no debate que se seguia na TV. E ninguém diz nada. E ninguém diz "Chega".

O ano judicial começa, em matéria comunicacional, numa semana (mais uma) triste para o jornalismo – que vive nesta espécie de morte lenta a que o condena a furiosa luta pelas audiências. É caso para dizer que, atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Com muitos de nós a mover-se, de olhos fechados, em bandos, titubeantes, como sombras de redações fantasmas.


( Texto publicado originalmente no site da Rádio Renascença)

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António Carrapatoso: concorrência distorcida em comunicação social fraca Ver galeria

O País “que vai a votos” não está bem, segundo António Carrapatoso, e a sua comunicação social também não está.
Nosso mais recente convidado, o gestor e empresário António Carrapatoso afirmou que o País “não está bem” porque a forma como a sociedade está organizada e funciona “não permite aproveitar e desenvolver as capacidades dos portugueses”.

Quanto à comunicação social que temos, definiu-a como “uma instituição fraca, que não cumpre suficientemente o seu papel do ponto de vista do interesse do cidadão” , por não ser suficentemente independente, inovadora e diversificada.
“A sua qualidade, acutilância, capacidade de investigação, de escrutínio e explicativa, estão aquém do desejável”  - disse.

Sobre as causas desta situação, a seguir à reduzida dimensão do mercado, apontou a “concorrência distorcida”, as deficiências da regulação e legislação e motivos de outra ordem:

Em sua opinião, não se faz mais para mudar porque “muitos partidos e líderes políticos estão contentes com a situação actual, não querem uma comunicação social verdadeiramente independente, investigadora, escrutinadora e qualificada”;  e ainda porque os próprios cidadãos “não ligam assim tanto à importância da comunicação social”  - motivo porque também "não fazem subscrições que poderiam fazer".
ERC aprova e Rádio Observador vai começar a emitir "muito em breve" Ver galeria

A Rádio Observador, cujo lançamento esteve previsto para a data do quinto aniversário do diário digital com o mesmo título, a 22 de Maio, vai finalmente entrar em funcionamento. Segundo notícia que citamos do jornal Observador, a transmissão será em 98.7 FM, na Grande Lisboa, “a curto prazo também no Porto e noutras zonas do país, e online”.

Conforme também aqui foi referido, o projecto já estava pronto naquela data, “faltando apenas o ‘visto’ da ERC, entidade à qual compete por lei autorizar a nova estação”. Poucos dias depois, a 28 de Maio, era assinada a Deliberação ERC/2019/150 [AUT-R], que autoriza as alterações solicitadas pela sociedade Observador on Time, S.A., para criar a Rádio Observador, a partir da antiga Rádio Baía – Sociedade de Radiodifusão, Lda.

A notícia do Observador não indica ainda a data exacta do início de emissão, mas conclui que “muito em breve teremos mais novidades. Estamos quase no ar.”

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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