Quarta-feira, 5 de Agosto, 2020
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Os Media podem contribuir para a "desconstrução" do populismo

Combater o populismo começa por conhecê-lo, indentificar as suas causas e os seus equívocos. O que o torna tão aliciante é o facto de “oferecer respostas simples para problemas complexos, construindo uma parede ou negando a ciência”  - afirma o investigador Risto Kunelius, da Universidade de Helsínquia, na Finlândia. Ora, precisamente, não há respostas simples para evitar o seu crescimento. Cabe-nos a todos  - e os media têm nisso um papel importante -  “sustentar um debate normativo que nos ajude a distinguir e a resistir ao racismo, à política de identidade exclusivista, e defender a qualidade do discurso público”.

Foram estas as principais linhas de pensamento de um encontro organizado pela Universidade Católica para discutir o populismo e o papel dos media na sua descontrução. O evento académico, intitulado “Media and Populism – Winter School for the Study of Communication”, foi organizado pela Faculdade de Ciências Humanas e o respectivo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, onde se realizou entre 15 e 19 de Janeiro de 2019.

Uma das questões tratadas foi a da necessidade de definir aquilo de que falamos, tema importante para outra das participantes, a linguista austríaca Ruth Wodak, professora na Universidade de Lancaster. 

Expressões como “fake news”, “factos alternativos”, “politicamente correcto” e “populismo” são cada vez mais recorrentes.

Mas Wodak defende que só devemos usar estes conceitos “se os definirmos correctamente”. A académica acredita que poucos conhecerão a origem da expressão “politicamente correcto”, já desvirtuada do seu significado, pela forma como é aplicada de forma vaga no quotidiano.  

“Por exemplo, o politicamente correcto tem uma longa história de significados, oriundos do movimento de direitos civis dos EUA na década de 1960”, começa por contextualizar a especialista, em resposta ao Público

“Naquela época, as minorias, especificamente os afro-americanos, pediram para ser referidos de uma maneira politicamente correcta e de acordo com os nomes que eles próprios usavam. Outros rótulos pejorativos e negativos deviam tornar-se obsoletos”, conta-nos Wodak. Ora, foi a partir daí que “este conceito foi apropriado pela direita política e se tornou um polémico grito de guerra, pressupondo uma ‘polícia da língua’.” (...) 

A mesma lógica aplica-a ao populismo. “O populismo perdeu significado. Tudo agora é populismo”, critica. Wodak acredita que desconstruir estas definições através do estudo da linguagem pode ser uma das formas de combate contra os movimentos populistas. 

Segundo Risto Kunelius  - que aqui citamos do Público -  “devemos expor as falsidades e exigir justificações, evidenciar as mentiras e discrepâncias”. E, por fim, “pensar em práticas mais cooperativas e orientadas em termos de soluções conjuntas entre o jornalismo e redes de conhecimento e acção social, alertando para a consciencialização dos problemas que surgiram com a digitalização do contexto de media.” (...) 

E Barbie Zelizer, da Annenberg School for Communication, da Universidade Pensilvânia, nos EUA, tem uma avaliação ainda mais radical sobre os meios de resposta dos media:  

“Os jornalistas baseiam-se na objectividade e equilíbrio, deferência e moderação, pensamento dicotómico e mais uma série de práticas que trazem dos tempos da Guerra Fria, que hoje em dia já não funcionam para cobrir a actualidade”  - acredita, defendendo um corte com as práticas mais tradicionais do jornalismo. 

Também a linguista Ruth Wodak entende que umas das técnicas mais eficazes para estabelecer uma contra-narrativa populista é “entender o que a atrai nas pessoas” e recorrer à mesma fórmula, adaptando o seu conteúdo. A estratégia passa por olhar para os slogans, bandeiras, metáforas e representações utilizadas quer pela esquerda quer pela direita populista e transformar essa retórica num discurso positivo, com o recurso às mesmas bengalas de linguagem. (...) 

“No rescaldo da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais do Brasil e em véspera de eleições europeias e legislativas, o timing para a realização deste encontro é curioso”, reconhece o director da Faculdade de Ciências Humanas da UCP, Nelson Ribeiro. Mas esclarece que o programa é “uma ideia já antiga” que começou a ser definida há três anos.


“O populismo  - ou os populismos -  enquanto fenómeno político é cada vez mais visível, preponderante e fundamental para percebermos o que está a acontecer na Europa”, justifica. “Sendo um ano muito desafiante, em que assistimos a um crescimento de movimentos populistas tanto à direita como à esquerda, é muito necessário termos estes debates”, defende Nelson Ribeiro. (...) 

“Tivemos uma enorme adesão de investigadores norte-americanos que quiseram estar nesta winter school. Acho que não preciso de explicar o porquê. Obviamente que Donald Trump é todo um caso de estudo. Mas não nos basta olhar para o que ele diz e rir das banalidades das coisas que vai dizendo. Ao representar o papel de uma pessoa que fala para o cidadão comum, Trump está a ser a ser eficaz no cumprimento dos seus objectivos”, aponta. (...)

 

Mais informação  no Público

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena