null, 21 de Abril, 2019
Media

A Imprensa em confronto com a "segunda parte da crise"

Janeiro começou mal para a indústria dos meios de comunicação. Desde os grandes actores globais às pequenas empresas, multiplicam-se os sinais de alarme. O gigante digital BuzzFeed, que em 2015 ultrapassava os 200 milhões de visitantes únicos por mês, e que ainda em 2018 facturou 300 milhões de dólares, anuncia o despedimento de 15% dos seus efectivos, o que equivale a 218 trabalhadores. Fechou o seu site em Espanha, três anos depois de o abrir.

Os grupos Verizon e Gannett anunciam despedimentos ou rescisões. Nos Estados Unidos, há menos jornais e menos proprietários de jornais  - portanto mais concentração em grandes corporações. Tudo junto, não parecem ser factos pontuais, “mas sim o sintoma do começo de uma nova etapa de alta incerteza”.

A reflexão é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics  - para quem mesmo os meios digitais, “se dependerem exclusivamente das receitas da publicidade, vão ter dificuldades nesta segunda parte da crise”.

O autor do artigo que citamos refere que, mesmo grandes jornais de referência nos EUA, como The New York Times e The Washington Post, encontram-se no patamar que têm porque são redigidos em inglês e se tornaram publicações globais. Só o primeiro tem três milhões de assinantes, com uma receita líquida de cerca de 25 milhões de dólares. 

Cita a seguir a reflexão que Jeremy Littau, docente de jornalismo, sintetiza na sua página de Twitter, sobre a “descida aos infernos” dos media nos EUA, desde os “anos dourados” da segunda metade do séc. XX até ao panorama actual. Na opinião deste autor, essa “idade de ouro” terminou nos finais dos anos 80, mas os editores não estiveram à altura da nova concorrência, acumulando uma dívida maciça. 

Mais grave de tudo, perderam o controlo da distribuição para as grandes plataformas. Com o desenvolvimento da publicação digital, “os editores que não estavam habituados à concorrência e não tinham  investido na inovação estavam agora a concorrer com mais do que o seu rival do outro lado da cidade (se ainda havia algum, porque as concentrações e fusões de meios também tinham acabado com eles)”. 

“Os números de circulação continuaram a cair e esta tendência acelerou no princípio da última década. Com menos leitores e um enorme serviço de dívida, tornou-se uma espiral viciosa que exigia mais cortes para atingir as exigências da dívida e satisfazer os accionistas habituados a grandes lucros.” (...) 

O mapa de receitas da Imprensa americana, de 1950 até hoje, que vem junto destes posts de Jeremy Littau, é aquilo que ele mesmo chama o gráfico Oh My God das suas aulas de introdução ao curso. 

Um outro relatório que é citado no artigo de Miguel Ormaetxea (divulgado há poucos dias no NiemanLab), aponta que o preço dos jornais diários, nos EUA, subiu para mais do dobro numa década, com The New York Times a pedir mais de mil dólares pela assinatura anual impressa, e The Boston Globe e The Washington Post entre os 750 e os 650 dólares. O custo por exemplar, nos quiosques, varia entre os dois e os três dólares. 

“O crescimento do modelo de assinatura tem sido um dos maiores avanços nestes últimos anos, mas alguns especialistas prevêem que este sistema tem condicionantes e limites claros. As pessoas podem assinar um jornal nacional e outro local, mais a Netflix, a Hulu, a HBO Go, The Athletic e ainda o seu podcast favorito?” (...) 

A concluir, o autor adverte que, em Espanha, os meios digitais já estão a chegar ao tecto possível das suas audiências:

“Nos dois últimos anos, não passámos dos 33 milhões de utentes únicos. Em Novembro, El País tinha 15,12 milhões e El Mundo 15,05.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra em Media-tics;  e os posts de Jeremy Littau

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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