Terça-feira, 20 de Agosto, 2019
Media

A Imprensa em confronto com a "segunda parte da crise"

Janeiro começou mal para a indústria dos meios de comunicação. Desde os grandes actores globais às pequenas empresas, multiplicam-se os sinais de alarme. O gigante digital BuzzFeed, que em 2015 ultrapassava os 200 milhões de visitantes únicos por mês, e que ainda em 2018 facturou 300 milhões de dólares, anuncia o despedimento de 15% dos seus efectivos, o que equivale a 218 trabalhadores. Fechou o seu site em Espanha, três anos depois de o abrir.

Os grupos Verizon e Gannett anunciam despedimentos ou rescisões. Nos Estados Unidos, há menos jornais e menos proprietários de jornais  - portanto mais concentração em grandes corporações. Tudo junto, não parecem ser factos pontuais, “mas sim o sintoma do começo de uma nova etapa de alta incerteza”.

A reflexão é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics  - para quem mesmo os meios digitais, “se dependerem exclusivamente das receitas da publicidade, vão ter dificuldades nesta segunda parte da crise”.

O autor do artigo que citamos refere que, mesmo grandes jornais de referência nos EUA, como The New York Times e The Washington Post, encontram-se no patamar que têm porque são redigidos em inglês e se tornaram publicações globais. Só o primeiro tem três milhões de assinantes, com uma receita líquida de cerca de 25 milhões de dólares. 

Cita a seguir a reflexão que Jeremy Littau, docente de jornalismo, sintetiza na sua página de Twitter, sobre a “descida aos infernos” dos media nos EUA, desde os “anos dourados” da segunda metade do séc. XX até ao panorama actual. Na opinião deste autor, essa “idade de ouro” terminou nos finais dos anos 80, mas os editores não estiveram à altura da nova concorrência, acumulando uma dívida maciça. 

Mais grave de tudo, perderam o controlo da distribuição para as grandes plataformas. Com o desenvolvimento da publicação digital, “os editores que não estavam habituados à concorrência e não tinham  investido na inovação estavam agora a concorrer com mais do que o seu rival do outro lado da cidade (se ainda havia algum, porque as concentrações e fusões de meios também tinham acabado com eles)”. 

“Os números de circulação continuaram a cair e esta tendência acelerou no princípio da última década. Com menos leitores e um enorme serviço de dívida, tornou-se uma espiral viciosa que exigia mais cortes para atingir as exigências da dívida e satisfazer os accionistas habituados a grandes lucros.” (...) 

O mapa de receitas da Imprensa americana, de 1950 até hoje, que vem junto destes posts de Jeremy Littau, é aquilo que ele mesmo chama o gráfico Oh My God das suas aulas de introdução ao curso. 

Um outro relatório que é citado no artigo de Miguel Ormaetxea (divulgado há poucos dias no NiemanLab), aponta que o preço dos jornais diários, nos EUA, subiu para mais do dobro numa década, com The New York Times a pedir mais de mil dólares pela assinatura anual impressa, e The Boston Globe e The Washington Post entre os 750 e os 650 dólares. O custo por exemplar, nos quiosques, varia entre os dois e os três dólares. 

“O crescimento do modelo de assinatura tem sido um dos maiores avanços nestes últimos anos, mas alguns especialistas prevêem que este sistema tem condicionantes e limites claros. As pessoas podem assinar um jornal nacional e outro local, mais a Netflix, a Hulu, a HBO Go, The Athletic e ainda o seu podcast favorito?” (...) 

A concluir, o autor adverte que, em Espanha, os meios digitais já estão a chegar ao tecto possível das suas audiências:

“Nos dois últimos anos, não passámos dos 33 milhões de utentes únicos. Em Novembro, El País tinha 15,12 milhões e El Mundo 15,05.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra em Media-tics;  e os posts de Jeremy Littau

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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