Quinta-feira, 11 de Agosto, 2022
Media

Políticos "assentam arraiais" nos Media e são pagos por isso...

Há quase uma centena de personalidades políticas com presença regular nos meios de comunicação portugueses, a maioria todas as semanas, “alguns mais do que uma vez e em vários media em simultâneo”.  O Expresso, que dedica a este tema uma extensa reportagem, “contactou todos os directores de jornais, revistas, televisões, rádios e sites de informação para chegar à conclusão de que há 95 políticos com tempo de emissão ou espaço de escrita garantidos nos media nacionais”.

“O leque é muito vasto e inclui dirigentes partidários, deputados, ex-governantes ou os chamados senadores do regime.”  São, naturalmente, remunerados. A autora do trabalho, Rosa Pedroso Lima, informa que foi feita a pergunta sobre esses valores mas, “curiosamente, todos os responsáveis dos media portugueses se reservaram o direito de não revelar quanto pagam pela colaboração dos políticos”  - incluindo o Expresso, que procede do mesmo modo em relação aos seus “onze colaboradores políticos permanentes”.

A excepção é a Antena 1, “o único meio de comunicação social que não tem colaboradores políticos fixos”. O seu director de Informação, João Paulo Baltazar, tem isso como regra editorial: “Acabámos com políticos a comentar a solo. Achamos que não é correcto para uma estação pública de rádio dar a políticos uma tribuna fixa e uma voz a solo.”

O leque dos convidados é composto por “dirigentes partidários, deputados, ex-governantes ou os chamados senadores do regime”, que passam assim a ficar com lugar cativo em “alguns dos espaços mais nobres de cada órgão de comunicação social”. 

Da imprensa à televisão, passando pelas novas plataformas online ou pela rádio, o modelo repete-se. Todos acham “relevante” ceder espaço ou tempo de antena para dar voz aos políticos, aos quais não colocam “quaisquer limites” quanto ao tema a abordar e ainda menos sobre o ângulo de análise. A liberdade é total. (...) 

A autora da reportagem descreve este comportamento “uma verdadeira originalidade lusa” e contrapõe o exemplo de outros países: 

Em França “não há políticos comentadores pagos”, garante Daniel Ribeiro, correspondente do Expresso em Paris. Não existem sequer “programas desse tipo”, onde políticos de carreira têm encontro marcado para debater entre si. “Isso não existe” nos media franceses  - afirma. 

Na Alemanha “não há uma lei específica, mas existe uma prática”, explica Cristina Peres, jornalista do Expresso que cobre a realidade alemã: 

“Há formatos televisivos, dos quais é de destacar o programa de Anne Will no canal Das Erste, que aos domingos à noite faz um debate com convidados para cada tema específico. Mas o único ‘residente’ do programa é a jornalista-entrevistadora.” 

Nos Estados Unidos “há uma porta giratória entre a política e os media, por onde passam políticos democratas e republicanos, sejam eles ex-candidatos presidenciais, congressistas, antigos membros das secretas, e até mesmo elementos dos staffs  — assessores, conselheiros —  se aproveitam disso”, explica Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA. 

Seguem-se vários exemplos conhecidos, incluindo precisamente congressistas e ex-candidatos presidenciais recentes. “Mas a presença de políticos nos media dos EUA é “uma porta giratória e não um corredor com acesso a ambos os mundos”: 

“Um político no activo não colabora, muito menos com retribuição garantida, nos programas informativos da televisão ou da rádio, e não tem direito a uma coluna própria nos jornais norte-americanos.” (...) 

Em Espanha, “os dirigentes políticos aprenderam a gostar da influência que podem passar a ter se marcarem presença nos meios de comunicação social”. Um caso paradigmático é o de Pablo Iglesias, líder do Podemos, “que é raro o dia em que não tem uma aparição num dos múltiplos debates que existem no amplo panorama mediático espanhol. Aliás, o próprio Iglesias dirige a sua tertúlia política — ‘La Tuerka’—, que, segundo algumas fontes jornalísticas, é financiada pela televisão estatal iraniana”  - explica o corresponde do Expresso em Madrid, Angel Luis de la Calle. (...) 

Segue-se uma descrição da referida “originalidade” portuguesa, com referência especial ao top dos mais requisitados:

Francisco Louçã, que “faz o pleno dos órgãos de comunicação social”, começando pelas manhãs na TSF, passando pelas sextas-feiras na SIC Notícias e tendo ainda uma página semanal no segundo caderno do Expresso

De modo semelhante Pacheco Pereira, na agora denominada “Circulatura do quadrado”, na TVI24 e na TSF, com mais duas páginas semanais de opinião na revista Sábado

A presença regular num canal de TV generalista “não é para todos”: “é um campeonato difícil que, no caso português, agora está reservado a dois políticos: Paulo Portas e Luís Marques Mendes”. 

Seguem-se, na ordem descrita no Expresso, Paulo Rangel, depois os socialistas Pedro Silva Pereira e Fernando Medina.

Manuela Ferreira Leite, ex-dirigente do PSD e ex-ministra do governo de Durão Barroso, “além do comentário semanal das quartas-feiras na TVI 24, que dura cerca de 20 minutos, garante presença numa coluna quinzenal no caderno de Economia do Expresso e assegura uma colaboração semanal na antena da TSF”. 

Outros comentadores políticos, como Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, José Eduardo Martins, do PSD, ou ainda Adolfo Mesquita Nunes, do CDS, têm semanalmente intervenções garantidas em, pelo menos, dois órgãos de comunicação social nacionais. 

Há depois muitas situações em que dirigentes políticos são convidados a mostrar o seu “lado B”, em programas de entretenimento ou debates sobre futebol, por exemplo. 

Mário Ramires, do Sol e do Jornal i, declara que “tanto os dez políticos com colunas regulares no diário que dirige, como os cinco que colaboram com o semanário, prestam serviço gratuitamente: “Não temos colaborações pagas. Pagamos zero, portanto.” 

Há em tudo isto um “efeito Marcelo”, como lhe chama a investigadora Rita Figueiras, que banalizou a presença dos políticos no espaço mediático: 

“Actualmente, nenhuma carreira política se constrói à margem dos media, em particular da televisão”  - afirma. E ninguém duvida da capacidade dos media em acomodar políticos ou na força de uma carreira construída a partir deles. 

 

O texto aqui citado, na íntegra no Expresso.

Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


ver mais >
Opinião
A vertigem digital
Dinis de Abreu
O mercado dos media portugueses anda agitado. Nos últimos meses, mudaram de mãos as rádios da Media Capital, adquiridas por um grupo alemão; o Jornal Económico (e, provavelmente, o semanário “Novo”), que passou a ser titulado por um investidor angolano; e o semanário “Sol” e o diário “i”, detidos pelo jornalista Mário Ramires, que transitaram para o universo de um fundo português de capital...
Se tudo correr bem, no início da próxima semana, Macau “liberta-se”, embora gradualmente, do primeiro grande surto de covid-19 desde Fevereiro de 2020. No total, desde 18 de Julho, foram detectados 1.117 casos de infecção, dos quais apenas cerca de 700 apresentaram sintomas, e houve um total de apenas seis mortos, todas senhoras idosas com doenças crónicas. Se tudo correr bem, o grande surto de covid em Macau durou três semanas. O...
Trump só aceita resultados eleitorais quando é declarado vencedor. Caso contrário, trata-se de uma fraude. Esta versão peculiar da democracia começa a fazer escola. É o caso de Bolsonaro. Os jornalistas são alvo da fúria de Trump e Bolsonaro. Donald Trump prepara a sua candidatura à presidência dos EUA em 2024. As sessões da comissão de inquérito do Congresso federal, que investiga o assalto ao...
Apesar de todo o meu passado de jornalista, tento cada vez mais colocar-me no presente de cidadão leitor, escutante ou visionador da atual torrente de notícias. Não ouso elevar-me ao papel de futurólogo desta relação entre receptor e emissor. Na verdade, isso interessa-me pouco. Quero fixar-me no hoje, já não tenho alma de vidente. E o hoje é a sociedade dos sentidos e das emoções. Li recentemente um pequeno ensaio do...
Esta semana dei comigo a pensar qual a razão para termos um serviço público de rádio e televisão, pago pelos portugueses na factura da electricidade, se verdadeiramente ele é apenas uma variante daquilo que os canais privados fazem? A RTP1 é uma fraca alternativa - a grelha de programas assenta na mesma tipologia dos canais comerciais privados: informação, desporto, entretenimento de consumo rápido. Os melhores resultados da...
Agenda
05
Out
The Publisher Podcast Summit
09:00 @ Proud Cabaret City, Londres
06
Out
News Impact Summit
10:00 @ Praga, República Checa