Segunda-feira, 22 de Abril, 2019
Opinião

Quando os Media servem “gato por lebre”…

por Dinis de Abreu

A realidade choca. Um trabalho de investigação jornalística, publicado no Expresso,  apurou que Portugal tem 95 políticos a comentar nos media.

É algo absolutamente inédito em qualquer parte do mundo, da Europa aos EUA. Nalguma coisa teríamos de ser inovadores, infelizmente, da pior maneira.

É um “assalto”, que condiciona a opinião pública e constitui um simulacro de pluralismo, já que  o elenco de contratados vai da direita à esquerda, embora esta tenha a primazia.

Em democracias maduras, os media, designadamente, as televisões, podem convidar especialistas, entre os quais políticos, para se pronunciarem sobre acontecimentos que careçam de enquadramento e de uma melhor contextualização. 

Mas não são residentes nem pagos por isso, ao contrário do  que acontece na maior parte dos  casos portugueses, cujos “cachets” são, contudo, sonegados ao conhecimento público.

Enquanto estas dezenas de comentadores, fieis às suas capelas, debitam os recados   que lhes convém,  para influenciar a agenda mediática e o eleitorado, assiste-se ultimamente a uma espécie de “baile mandado”  em programas de entretenimento em televisão, com a participação de dirigentes partidários e, até,  do primeiro ministro em exercício.

O objectivo ( não confessado…) dos  políticos  é, obviamente aproveitar a popularidade alcançada por alguns desses programas para se mostrarem à vontade, de avental na cozinha, ou a recontar histórias de vida, num jeito informal e a piscar o  olho ao eleitorado mais  sensível a estas rábulas estudadas.

Entre a doutrinação ideológica , servida  em doses maciças por evangelistas encartados,  e os petiscos cozinhados à vista ,  da direita  à esquerda, temos um novo formato de “reality show”, que procura explorar a adesão fácil do espectador,  entretido e grato pelo divertimento que lhe oferecem.

Pior: há políticos no activo, que se exercitam no comentário  com manifesto apetite, talvez por terem interiorizado a ideia de que os media e,  em particular a televisão, podem “vender”  melhor as suas ideias e alavancá- los para outros voos. Uma perversão do nosso sistema.

O que prova, ainda, o trabalho do Expresso é que os jornalistas, salvo raras excepções, foram completamente ultrapassados pelos políticos no ofício de comentadores, e a maioria dos que sobraram  activos, em particular, nos audiovisuais, “politizaram-se” também e circulam, entre estúdios e redacções, a repetirem o que está na “onda” do momento. 

Num altura em que tanto se fala de “fake news” - matéria que motivou inclusive um debate parlamentar - ,  é pena que se desperdice a oportunidade de discutir, seriamente, esta originalidade portuguesa, quando os media se curvam à “informação espectáculo”  e se prestam  a  vender “gato por lebre”…

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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