Sábado, 15 de Agosto, 2020
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Saber se a violência em directo cabe na liberdade de expressão

O comissário para as questões de Privacidade na Nova Zelândia, John Edwards, criticou asperamente o Facebook por se recusar a mudar as regras que tornam possível o sucedido durante o ataque terrorista a duas mesquitas  -  uma transmissão em directo de 17 minutos, feita pelo próprio assassino.

John Edwards  - que propusera o estabelecimento de uma “décalage entre a emissão e a difusão de vídeos, para permitir moderação (o bloqueio da emissão), se necessário” -  respondia a uma entrevista em que Mark Zuckerberg recusou a possibilidade, dizendo que isso iria pôr causa um serviço que comunica acontecimentos e aniversários, e que o problema não é a tecnologia ser má, mas as pessoas.

Em twits que publicou e depois apagou, por terem suscitado “reacções tóxicas”, Edwards disse do Facebook:

"Permitem a difusão em directo de suicídios, de violações e de homicídios, continuam a alojar e a publicar o vídeo do ataque à mesquita, permitem aos publicitários dirigir anúncios para ‘anti-judeus’ e outros segmentos do mercado do ódio, e recusam aceitar qualquer responsabilidade por conteúdos que difundam ou mal que causem. (...) Não se pode confiar no Facebook. São mentirosos patológicos e sem moralidade."

Este confronto de argumentos volta a colocar ao vivo a questão da violência assassina exibida em meios de comunicação de massas  - se deve ser protegida pela liberdade de expressão, ou combatida como acto de cumplicidade com o terrorismo, que se alimenta precisamente do seu próprio espectáculo. 

Segundo o DN, que aqui citamos, o que disse Mark Zuckerberg é uma justificação “que faz lembrar a do lobby das armas, que usa o mesmo tipo de argumento: não são as armas que matam mas as pessoas”. 

“Ora, na sequência do massacre de Março, a Nova Zelândia decidiu de imediato legislar sobre as armas, proibindo a venda de armas de assalto e semi-automáticas.” 

“Porém, impedir que volte a suceder alguém usar o Facebook Live para transmitir, durante 17 minutos, em tempo real, a morte de dezenas de pessoas (50 foram assassinadas em Christchurch), e que tal seja visto e descarregado (foram retirados posteriormente mais de 1,5 milhões de cópias e impedidos outros tantos downloads) por milhares de internautas, antes de ser retirado, é algo que aparentemente não será tão simples de conseguir.” 

John Edwards acusou também o Facebook de “permitir genocídios” (referindo a Birmânia e a perseguição dos Rohingyas, que foi incitada em posts no Facebook), e de “facilitar a ingerência estrangeira nas instituições democráticas” (aqui referindo a ingerência russa nas eleições americanas). 

No dia 5 de Abril, o jornal New Zeland Herald  noticiou que ainda há vídeos do massacre no FB. Apesar de Zuckerberg, na entrevista, ter dito que o FB está a trabalhar com a polícia neozelandesa, a reacção de um porta-voz à revelação do Herald foi de que a plataforma está a trabalhar “24 horas por dia para retirar novos carregamentos do vídeo usando uma combinação de tecnologia e de funcionários”. 

A responsável pelas operações da empresa, Sheryl Sandberg, deu razão ao principal argumento apontado pela opinião pública, de que “é preciso fazer mais” a este nível  -  garantindo que o Facebook já está a avaliar medidas para limitar a transmissão de vídeos em directo na rede social, fazendo-as depender de regras sobre as violações dos estatutos da comunidade.

 

 

Mais informação no DN  e no Expresso

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

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O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
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Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena