null, 26 de Maio, 2019
Opinião

Os desafios à liberdade de Imprensa

por Dinis de Abreu

A celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa  constitui o pretexto e o convite para uma reflexão que não nos exclui. Com os jornais em contínua degradação de vendas em banca, obrigando  já a soluções extremas  - como se verificou com o centenário  “Diário de Noticias”, que passou a ser semanário, embora sem inverter o plano inclinado -,  a apatia continua a ser a regra, sem soluções à vista.

Apesar da situação ser sombria, e ameaçar no curto prazo a maioria das empresas de media, o silêncio das associações do sector, patronais e profissionais, não deixa de ser intrigante, como se fosse preferível  “meter a cabeça na areia” do que promover alternativas sustentáveis, suficientemente  inovadoras  e capazes de virar a página do declínio continuado.

Ao contrário da passividade reinante em Portugal , a efeméride foi aproveitada em Espanha pelas principais associações,  representativas dos jornais e jornalistas,  para manifestarem a sua apreensão  relativamente ao presente e ao futuro .

Foi o caso da FAPE - Federación de Asociaciones de Periodistas de España, que viu na recente campanha eleitoral uma demonstração de que liberdade de Imprensa “continua ameaçada” e  lamentou  a “lei da mordaça”  que se “uniu ao discurso do ódio contra os jornalistas e os media”.

Pior: “a extrema polarização da política catalã impediu  o livre exercício do jornalismo  naquela região autonómica” a ponto de “converter os jornalistas nas principais vitimas, com insultos e agressões nalguns casos”.

De facto, a repressão sobre os jornalistas agravou-se significativamente na última década , desde a Turquia à Venezuela , contagiando várias países em diferentes latitudes. 

A organização Repórteres sem Fronteiras concluiu mesmo que apenas 9% da população mundial vive em países onde   a situação da liberdade de imprensa é considerada  boa ou muito boa.

De facto, no ranking mundial publicado há dias, verifica-se que a liberdade de imprensa é considerada difícil ou muito grave, ou seja, “amplamente reprimida”,  tanto  na China,  Rússia, ou Arábia Saudita, como em democracias como o México ou a Índia, incluindo  países onde a situação é classificada como problemática, casos da  Mauritânia ou da Hungria.

Instaurou-se a “mecânica do medo”, como a definem os RSF, ao contabilizarem a lista negra de jornalista assassinados ou detidos de forma arbitrária. Um balanço sinistro.

O panorama é assustador e não dá sinais de recuar. Por cá, a fragilidade do mercado de Imprensa  associada à “tabloidização” das televisões,  generalistas ou  temáticas, não augura também um futuro promissor, embora estejamos bem longe das condições dramáticas de  exercício da profissão  que perseguem e neutralizam muitos jornalistas pelo mundo.

A precariedade laboral acaba por condicionar o trabalho dos jornalistas,  privados de meios de investigação e submetidos a agendas politicas,  que os querem reduzir ao pepel de   “pé de microfone”. 

Depois, a evolução tecnológica e a desinformação trouxeram novos desafios. E novos pessimismos.

Bem pode o Papa Francisco pregar na sua nota alusiva ao Dia Mundial da Liberdade de Imprensa que “precisamos de um jornalismo que seja livre, ao serviço da verdade, da justiça e da bondade; um jornalismo que ajude a construir uma cultura de encontro”.

É um ideal antigo. Mas, infelizmente, há mais desencontros do que encontros. E  não se pode pedir ao jornalista que some a vocação de  martírio à profissão de fé.

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Agenda
27
Mai
DW Global Media Forum
09:00 @ Bona, Alemanha
02
Jun
"The Children’s Media Conference"
11:00 @ Sheffield, Reino Unido
14
Jun
14
Jun
21
Jun
Social Media Day: Halifax
09:00 @ Halifax, Nova Escócia, Canadá