Terça-feira, 20 de Agosto, 2019
Opinião

Os desafios à liberdade de Imprensa

por Dinis de Abreu

A celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa  constitui o pretexto e o convite para uma reflexão que não nos exclui. Com os jornais em contínua degradação de vendas em banca, obrigando  já a soluções extremas  - como se verificou com o centenário  “Diário de Noticias”, que passou a ser semanário, embora sem inverter o plano inclinado -,  a apatia continua a ser a regra, sem soluções à vista.

Apesar da situação ser sombria, e ameaçar no curto prazo a maioria das empresas de media, o silêncio das associações do sector, patronais e profissionais, não deixa de ser intrigante, como se fosse preferível  “meter a cabeça na areia” do que promover alternativas sustentáveis, suficientemente  inovadoras  e capazes de virar a página do declínio continuado.

Ao contrário da passividade reinante em Portugal , a efeméride foi aproveitada em Espanha pelas principais associações,  representativas dos jornais e jornalistas,  para manifestarem a sua apreensão  relativamente ao presente e ao futuro .

Foi o caso da FAPE - Federación de Asociaciones de Periodistas de España, que viu na recente campanha eleitoral uma demonstração de que liberdade de Imprensa “continua ameaçada” e  lamentou  a “lei da mordaça”  que se “uniu ao discurso do ódio contra os jornalistas e os media”.

Pior: “a extrema polarização da política catalã impediu  o livre exercício do jornalismo  naquela região autonómica” a ponto de “converter os jornalistas nas principais vitimas, com insultos e agressões nalguns casos”.

De facto, a repressão sobre os jornalistas agravou-se significativamente na última década , desde a Turquia à Venezuela , contagiando várias países em diferentes latitudes. 

A organização Repórteres sem Fronteiras concluiu mesmo que apenas 9% da população mundial vive em países onde   a situação da liberdade de imprensa é considerada  boa ou muito boa.

De facto, no ranking mundial publicado há dias, verifica-se que a liberdade de imprensa é considerada difícil ou muito grave, ou seja, “amplamente reprimida”,  tanto  na China,  Rússia, ou Arábia Saudita, como em democracias como o México ou a Índia, incluindo  países onde a situação é classificada como problemática, casos da  Mauritânia ou da Hungria.

Instaurou-se a “mecânica do medo”, como a definem os RSF, ao contabilizarem a lista negra de jornalista assassinados ou detidos de forma arbitrária. Um balanço sinistro.

O panorama é assustador e não dá sinais de recuar. Por cá, a fragilidade do mercado de Imprensa  associada à “tabloidização” das televisões,  generalistas ou  temáticas, não augura também um futuro promissor, embora estejamos bem longe das condições dramáticas de  exercício da profissão  que perseguem e neutralizam muitos jornalistas pelo mundo.

A precariedade laboral acaba por condicionar o trabalho dos jornalistas,  privados de meios de investigação e submetidos a agendas politicas,  que os querem reduzir ao pepel de   “pé de microfone”. 

Depois, a evolução tecnológica e a desinformação trouxeram novos desafios. E novos pessimismos.

Bem pode o Papa Francisco pregar na sua nota alusiva ao Dia Mundial da Liberdade de Imprensa que “precisamos de um jornalismo que seja livre, ao serviço da verdade, da justiça e da bondade; um jornalismo que ajude a construir uma cultura de encontro”.

É um ideal antigo. Mas, infelizmente, há mais desencontros do que encontros. E  não se pode pedir ao jornalista que some a vocação de  martírio à profissão de fé.

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História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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