Terça-feira, 20 de Agosto, 2019
Media

Morte e renascimento da objectividade em jornalismo

Também a objectividade já não é o que era dantes. Significava outra coisa, e foi mudando ao longo do tempo. Referimo-nos à objectividade no jornalismo, entendida como uma atitude ética de neutralidade e imparcialidade, mantendo uma distância sem preconceito em relação às fontes, aos objectivos e aos resultados do nosso trabalho. Mas não foi assim que começou.

Segundo Dan Schiller, historiador e docente de Comunicação, a “objectividade” começou por ser a justificação para um jornalismo sensacionalista de crimes, na década de 1840, apoiando depois uma estratégia comercial, “porque um jornal partidário tinha necesssariamente menor audiência do que um que fosse neutro”.

“Mesmo assim, a objectividade só passou a ser um padrão no jornalismo americano quando um tipo de reportagem tendenciosa e corrupta se tornou um escândalo nacional nos anos de 1920.”

É esta a reflexão inicial de um texto sobre “a morte e renascimento da objectividade”, na Global Investigative Journalism Network.

Segundo os autores, Mark Lee Hunter e Luk Van Wassenhove, o próprio termo desapareceu do Código de Ética da SPJ – Society of Professional Journalists, a mais antiga associação da classe, fundada em Abril de 1909, “embora se tenha mantido o ideal de imparcialidade” [fairness, no original]. 

Saltando mais de um século para o nosso tempo, “o conceito tem sido profundamente subvertido, tanto pelas redes da alt-right media que levaram Donald Trump até à Casa Branca, como pelos media cativos, como a Russia Today, como ainda pelos media dirigidos por parte interessada, exemplificados por importantes ONG’s”. 

Estes novos competidores, da esquerda ou da direita, têm traços comuns: 

“Todos floresceram no espaço crescente deixado pelo esvaziamento do jornalismo tradicional [mainstream news media, no original]. Nenhum deles está grandemente preocupado em ser ‘imparcial e equilibrado’ [fair and balanced, no original]  - que era o slogan bizarro da Fox News até 2017 -  muito menos neutral. O que mais lhes interessa é ganharem as guerras que consideram importantes.” 

“Mudança semelhante é agora visível em The New York Times e The Washington Post, que evoluíram no sentido de se tornarem escudos e faróis para a ‘resistência’ americana.” 

“Ao mesmo tempo, o Times apregoa o seu próprio trabalho por meio do slogan  - “Verdade  - é agora mais importante do que nunca.” 

“De facto é, mas, antes de Trump, a proposta de valor era que os jornalistas, em primeiro lugar, procuram acesso a várias fontes, que contam as suas próprias verdades, e depois justapõem estas versões da realidade. Em teoria, isso permite aos leitores chegarem à sua própria verdade.” 

“Nós somos dos que pensam que o Times e o Post estão a fazer o que é necessário e correcto, e ficamos felizes por serem premiados por isso, com aumentos de audiência e de receita. Mas nunca tínhamos imaginado que, no tempo das nossas vidas (que inclui o Watergate), os dirigentes desta indústria iriam tornar-se jornais de oposição. Mesmo o que era chamado o adversarial journalism dos anos de 1970 nunca se tornou uma marca oficial.” 

O artigo que citamos menciona depois vários estudos recentes que apontam a tendência de uma valorização crescente, por parte de muitos leitores, de jornais com “posições fortes”. Mas permanece um traço de objectividade na “insistência em que os factos devem ser verificados; tendo sido uma posição ética, a objectividade tornou-se um procedimento técnico focado no rigor. Isto reflecte a nossa capacidade, em crescimento rápido, de procurar e verificar a informação ”. (...) 

“Infelizmente, a objectividade para com os factos  - aceitando factos de que mesmo os nossos amigos não gostam, ou expondo factos que era suposto ficarem na sombra -  já não nos dá um aspecto neutral. Vejam a Hungria, onde o apoio de George Soros aos media independentes foi considerado por Viktor Orban como uma arma. Dizer a verdade ao poder faz de nós inimigos públicos, segundo Trump e, na Arábia Saudita, parece ser um crime capital.” (...)


 

“Seja qual for a sua verdade objectiva, os factos não falam por si mesmos. É preciso alguém que lhes dê significado e impacto, e é isso que o nosso público precisa e espera de nós. É também isso que estão a fazer os nossos adversários, com cinismo e com sucesso, dizendo os únicos factos que apoiam as suas ambições.” 

“Não temos de nos tornar como eles para reconhecer que nunca mais voltamos a ser ‘objectivos’, excepto no sentido crucial de procurarmos verdades verificadas. Temos de tornar claro o que defendemos [what we stand for, no original] e de que modo.”

 

O artigo aqui citado, na íntegra na  Global Investigative Journalism Network

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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