null, 20 de Outubro, 2019
Estudo

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve"

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor começa pelas questões incontornáveis trazidas pela revolução digital: 

“Como lidar com essas novas bases de mediação social? Como manter os provedores de informação jornalística quando muitas pessoas se acostumaram a consumir bens simbólicos aparentemente de graça? Como manter o jornalismo num tempo em que outros canais oferecem informações que aparentemente podem substituir o noticiário convencional?”  (...) 

Como explica mais adiante, estamos a falar “não só de uma indústria de bilhões, mas também de um mercado de trabalho de milhões de pessoas, de uma actividade social que cumpria uma função única e de um importante escudo da democracia, da cidadania e da civilização”.  (...) 

E reconhece que o título do seu livro gera uma expectativa enorme, e que “um volume de cento e poucas páginas não soluciona a crise”: 

“Eu arrisco algumas saídas, claro, e discuto-as dentro dos contextos em que elas se apresentam. Mas o meu livro é, acima de tudo, um convite para discutirmos a crise do jornalismo,  (...) com uma preocupação especial pela crise no mercado e na indústria brasileiros.”  (...) 

Sobre a situação no seu país, Rogério Christofoletti afirma que “a indústria brasileira tem particularidades, sim, e a estrutura de oligopólios no sector, um comportamento temerário do empresariado em inovar e a falta de unidade dos profissionais contribuem para uma configuração distinta”: 

“Mas é preciso ver o Brasil como o continente plural que é. Temos um jornalismo maior que muitos países europeus, um mercado consumidor de notícias invejável e capacidades técnicas e profissionais incríveis. Ao mesmo tempo, nosso jornalismo não é influente como o europeu, há imensos desertos de notícia  (...)  – e muitas vezes nosso jornalismo é provinciano, servil aos interesses comerciais mais imediatos, descompromissado com um projecto de país e extremamente paroquial.”  (...) 

“Enfrentar a crise do jornalismo no Brasil não é apenas inventar formas de sustentá-lo economicamente. É também enfrentar esses contradições internas, é também refazer pactos com os públicos e assumir uma função de mediação social e de defesa de valores humanos, muitas vezes ignorados.”  (...) 

“Isto é, o jornalismo precisa de mostrar à sociedade que ainda é muito útil e imprescindível, e que ninguém faz o que ele costuma fazer. As redes sociais não informam as pessoas. Os grupos de WhatsApp aprofundam a desinformação. O jornalismo precisa voltar a perseguir as suas vocações e demarcar claramente o que pode oferecer aos cidadãos, às sociedades.”  (...) 

O autor cita alguns casos de “produtos jornalísticos criativos, distintos e desafiadores” no Brasil, muitos deles ao nível de iniciativas locais, mas também o modo como se relacionam com as grandes plataformas: 

“O YouTube, que poderia ser uma evolução da TV, ainda é um mistério para os jornalistas, mas há casos de figurões que apostam nessa vitrine, como é o caso do William Waack, do Fernando Morais e do Bob Fernandes, para ficar em poucos exemplos. O YouTube ainda é um terreno altamente dominado por criadores de conteúdo de entretenimento no Brasil, e nenhum jornalista nacional se aproxima do rebanho que tem um Whindersson Nunes, que não oferece notícias mas tem mais de 35 milhões de telespectadores.” 

“Não imagino que algum jornalista se aproxime desse alcance, mas observar as potencialidades desse canal para chegar ao público é importante. Bem como é vital rediscutirmos o papel que têm as redes sociais e as grandes plataformas que estão drenando, não só recursos de publicidade do jornalismo, mas pior: estão devorando a atenção das pessoas, que passam mais tempo vendo banalidades do que se informando para tomar suas pequenas e grandes decisões diárias…”  (...) 

“Eu me preocupo muito com o jornalismo local por uma razão muito simples: a crise do jornalismo acontece em meio a uma crise de confiança nas instituições. Isto é, a democracia está sendo questionada, o sistema de representação política está sendo questionado, a escola e a ciência estão sendo colocados contra a parede. É uma época muitíssimo complicada porque nossos sistemas de crenças parecem estar se dissolvendo diante dos nossos olhos. Isso acontece no nível macro e no micro.”  (...) 

“Imagine uma cidade de 20 mil habitantes que tem um jornal impresso diário, duas emissoras de rádio e um site local de informação. Ora, com uma configuração dessas, com profissionais cobrindo os problemas da cidade, acompanhando a rotina da prefeitura e do comércio local, e monitorando a Câmara de Vereadores e a segurança pública, teremos uma sociedade com mais potencial de enfrentar os seus problemas próximos.”  (...) 

“De qualquer forma, penso que parte das soluções para a crise do jornalismo passa pelo fortalecimento dos meios locais. E não basta que a gente apenas ‘curta’ ou ‘compartilhe’ o conteúdo desses meios. Precisamos assiná-los, fazer parte deles, ajudá-los a pagar suas contas. Se a pessoa gasta 30 reais com a Netflix, por que não pode ajudar a manter dois ou três meios locais que pedem 10 reais mensais? Precisamos de pensar sobre isso.”  (...)

 

A entrevista aqui citada, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
Mudança de algoritmo no “Facebook” afecta imprensa “millennial” Ver galeria

Entre 2006 e 2016, os meios de comunicação, como a imprensa, a rádio e a televisão, perderam público com menos de 35 anos.

A imprensa perdeu 59% dos seus leitores nessa faixa etária.

Segundo o relatório DigitalNewsReport.es, publicado pela Universidade de Navarra, em 2018, os millennials espanhóis consumiam notícias online a partir de três fontes principais: televisão, sites ou aplicações de jornais e redes sociais ou blogs.

O facto de um terço da informação recebida por estes jovens ter origem em redes sociais afecta o circuito de informação.

Ao analisar os seus hábitos de consumo identificaram-se dois fenómenos específicos: que os millennials consomem notícias de forma “acidental”ou indirecta e que partilham mais conteúdos do que publicam.

Devido a essas novas tendências no consumo, surgiram vários medias direccionados para os millennials.

Inicialmente, esses meiosalcançaram milhões de visualizações, mas, em 2016, o Facebook alterou o seu algoritmo e muitas dessas organizações perderam a visibilidade e acabaram por fechar.

O jornalista Francisco Rouco analisou essas alterações, e o seu impacto, num artigo publicado no siteCuadernos de Periodistas”, editado pela APM – Associacion de la Prensa de Madrid, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Comunidade jornalística favorece a rede social “Twitter” Ver galeria

O Twitter é uma plataforma bastante utilizada na comunidade jornalística.

Segundo um estudo do Pew Research Center, 71% dos utilizadores dessa rede usam-na para se manterem a par das notícias, o que faz com que seja a plataforma que atrai as pessoas mais interessadas nesse tipo de conteúdos.

Apesar de parecer uma plataforma com números positivos para a imprensa, os media utilizam-na, maioritariamente, para gerar tráfico nos seus sites, em vez de recorrerem a uma estratégia para comunicar conteúdos próprios e personalizados para essa rede.

O impacto do Twitter no tráfego dos sites é bastante reduzido, representando apenas cerca de 3% do tráfego total.

Mas isso significa que os media devem circunscrever os esforços e os recursos dedicados à plataforma ou devem adaptar a sua comunicação?

Com base no Relatório de Impacto e Conteúdos de imprensa no Twitter durante 2018, Francesc Pujol realizou uma análise centrada na presença dos media espanhóis nessa rede, que procurará esclarecer o impacto da mesma.

O artigo foi publicado no siteCuadernos de Periodistas”, editado pela APM – Associacion de la Prensa de Madrid, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
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28
Out
Fotojornalismo e Direitos de Autor
09:00 @ Cenjor, Lisboa
01
Nov
1º Congresso Internacional de Rádios Lusófonas
14:30 @ Angra do Heroísmo, Açores
19
Nov
Connections Europe
09:00 @ Marriott Hotel, Amsterdão
21
Nov