Terça-feira, 24 de Novembro, 2020
Memória

Agustina Bessa-Luís: a palavra insubstituível e a imensa obra

Morreu aos 96 anos Agustina Bessa-Luís, vulto maior das letras portuguesas, uma escritora que preferia ganhar o Prémio Nobel da Paz ao da Literatura. Foi distinguida por muitos outros, em vez destes, e deixa uma obra vastíssima, embora  - segundo a própria autora -  pouco lida:

“Poucos são os que me lêem, mas muitíssimo mais os que me conhecem”  - disse um dia.

Como recorda, no Público, Miguel Esteves Cardoso, “a sua vida passou também pelos jornais (uma intensa actividade que a Fundação Calouste Gulbenkian compilou em 2017, nos três volumes de Ensaios e Artigos (1951-2007), num total de nada menos do que 2.791 páginas organizadas pela neta da escritora, Lourença Baldaque).”

Foi directora, entre 1986 e 1987, do diário portuense O Primeiro de Janeiro, tendo ainda protagonizado em 2005, com a jornalista Maria João Seixas, o programa Ela por Ela.

Curiosamente, o seu despertar para a descrição do mundo começou pela imagem, neste caso pelo cinema, antes da escrita.

Começou a ler muito cedo, aos quatro anos. A sua própria memória de vida, recolhida em entrevistas que aqui citamos do Observador, parte deste ponto: “Quando aprendi a ler, no mundo fez-se luz e passei a compreender tudo.” A escrita chegou mais tarde. 

Quando era pequena, o pai tinha um cinema no Porto. A família vivia em Águas Santas, na Maia, e Agustina costumava ir todas as quintas-feiras ao cinema do Porto. Era o pai que a levava. “E deixava-me em liberdade”  - contou em 2003 a Anabela Mota Ribeiro. 

“Havia um café-concerto, uma sala de exposições, um jardim, onde se projectava cinema no Verão. Foi esse enamoramento da imagem, antes da escrita, que tive como campo de descoberta.” 

Estes caminhos cruzados levam a que várias obras suas tenham sido adaptadas ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira, “e assim foram vistas, além de lidas:  Fanny Owen (1981, adaptado para Francisca),  Vale Abraão (1993),  As Terras do Risco (1995, adaptado para O Convento)  e O Princípio da Incerteza (2002).” 

“Ela escrevia, ele filmava: foi uma parceria criativa que durou mais de duas décadas e resultou em quase uma dezena de filmes  - com alguns ‘confortáveis conflitos’ pelo meio.”  

“A autora escreveu ainda, para Oliveira, os diálogos de Party (1996), a partir da sua peça de teatro Party: Garden-Party dos Açores. Do seu conto  A Mãe de um Rio Oliveira havia de fazer Inquietude (1998). E também o realizador João Botelho adaptou um romance seu, em 2009:  A Corte do Norte.”


O velório da escritora decorre na Sé Catedral do Porto, a partir das 10h.30 de terça, 3 de Junho, com as exéquias solenes celebradas pelo Bispo do Porto, D. Manuel Linda, às 16 horas.  Foi decretado para este dia luto nacional.

 

 

Mais informação no Público  e no Observador

Connosco
Jornalistas franceses contra restrições à liberdade de imprensa Ver galeria

Um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.

A nota surge em resposta ao novo "esquema nacional de aplicação da lei", que considera que os jornalistas devem ter “um lugar especial nas manifestações” e que devem recolher-se após ordem policial.

“O desejo expresso de assegurar a protecção dos jornalistas é equivalente a supervisionar e controlar o seu trabalho”, pode ler-se na missiva, publicada no jornal “Monde”. “Isto é particularmente preocupante no contexto da proposta de lei sobre ‘segurança global’, que prevê restrições à divulgação de imagens das autoridades”.

“Os jornalistas não deveriam ter que deslocar-se à sede da Polícia para cobrir uma manifestação. Não é necessária acreditação para trabalhar livremente na via pública”.

“Por este motivo, recusar-nos-emos a conceder acreditação aos nossos jornalistas para cobrir manifestações”.

Jornalismo de serviços para ajudar a preencher o tempo livre Ver galeria

Perante a pandemia, algumas empresas de "media" norte-americanas lançaram iniciativas de “jornalismo de serviços”, de forma a ajudarem os leitores a melhorar o seu estilo de vida, e a manterem as rotinas, mesmo que em confinamento, notou o “site” da CNN.

Estes projectos incluem, por exemplo, guias diários, “podcasts” semanais e artigos de “lifestyle”.

Uma das iniciativas mais populares é a do “Washington Post”, que lançou a "Voraciously: Baking Basics”, uma “newsletter” que ensina os leitores a confeccionarem doçaria, em casa.

Além disso, a "What Day Is It? -- uma outra “newsletter” do WP, que começou a ser enviada em Setembro do ano passado -- registou um crescimento substancial na sua base de subscritores, já que ajuda os cidadãos a manterem-se activos.

“Algum do fluxo de audiência, que registámos durante a pandemia, corresponde a cidadãos que querem manter-se informados sobre algo que lhes tem vindo a condicionar o dia-a-dia. Estamos a tentar enviar-lhes conteúdos que ajudem à resolução de problemas”, afirmou Tessa Muggeridge, responsável pela subscrições do WP, em declarações à CNN.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



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