Quarta-feira, 17 de Agosto, 2022
Jantares-debate

António Carrapatoso: concorrência distorcida em comunicação social fraca

O País “que vai a votos” não está bem, segundo António Carrapatoso, e a sua comunicação social também não está.
Nosso mais recente convidado, o gestor e empresário António Carrapatoso afirmou que o País “não está bem” porque a forma como a sociedade está organizada e funciona “não permite aproveitar e desenvolver as capacidades dos portugueses”.

Quanto à comunicação social que temos, definiu-a como “uma instituição fraca, que não cumpre suficientemente o seu papel do ponto de vista do interesse do cidadão”, por não ser suficentemente independente, inovadora e diversificada.
“A sua qualidade, acutilância, capacidade de investigação, de escrutínio e explicativa, estão aquém do desejável”  - disse.

Sobre as causas desta situação, a seguir à reduzida dimensão do mercado, apontou a “concorrência distorcida”, as deficiências da regulação e legislação e motivos de outra ordem:

Em sua opinião, não se faz mais para mudar porque “muitos partidos e líderes políticos estão contentes com a situação actual, não querem uma comunicação social verdadeiramente independente, investigadora, escrutinadora e qualificada”;  e ainda porque os próprios cidadãos “não ligam assim tanto à importância da comunicação social”  - motivo porque também "não fazem subscrições que poderiam fazer".

Na sua palestra, António Carrapatoso definiu a insuficiente independência da comunicação social em três aspectos: o facto de ser dependente de “financiadores”, do contributo publicitário de algumas empresas “maiores” do regime, e “de ligações a partidos, dos recados que tem de dar”. 

Isto não quer dizer  - afirmou  - “que não haja pessoas independentes, e se calhar a maior parte dos jornalistas até procura ser independente, só que, depois, as condições concretas não lhes permitem terem os recursos e as possibilidades de exercerem essa independência na forma mais plena”. (...) 

Invocando uma razão factual, sublinhou a dimensão muito reduzida do nosso mercado, uma parte do qual foi “capturada por empresas internacionais, como Google e Facebook”: 

“Chegámos outra vez aos números de receitas de publicidade de antes da crise; em 2008, 2009, as receitas anuais do mercado de publicidade eram de cerca de 800 milhões de euros, e agora ainda estamos nos 600 milhões, e uma parte destes 600 milhões é capturada por plataformas internacionais que não existiam antes.” 

Quanto à “fonte essencial de receitas” que deviam ser as assinaturas, recordou que “os assinantes, em Portugal, são apenas 2%, e não é da população, é daqueles que são letrados na Internet”:
“Em Portugal só são 2% dos três milhões que têm um mínimo de literacia no digital. Mas em Espanha são 4%, de um número maior, nos EUA são 8%, e na Finlândia e nos países escandinavos são 12%, de uma população elegível muito maior.” 

“Portanto, 2% de assinantes dos três milhões de letrados são 60 mil assinantes. Se cada um paga uma assinatura de 50 euros sem IVA, por ano, estamos a falar em três milhões de euros. Sabem mais ou menos quanto custa um jornal? Fazer um jornal digital como o Observador, com a abrangêcia e, julgo eu, com a qualidade que o Observador  terá, não custa menos de cinco milhões de euros por ano. Mas a receita toda das subscrições, no País, actualmente, é apenas de 60 mil x 50 euros, ou 60, são três milhões ou 3.600… E a publicidade para o digital também são só cerca de 35 milhões de euros, para todos.”  (...)

Sobre o fenómeno da “concorrência distorcida”, defendeu que “as actividades de regulação e a legislação deviam eliminar distorções de concorrência, os poderes dominantes, ‘proteger’ os novos, permitir que os novos surgissem naturalmente, e permitir também transacções entre activos”: 

“Se um meio de comunicação não está bem, pode ser comprado por alguém, desde que saiba quem é, desde que não tenha uma posição dominante.”  (...) 

“É esta flexibilidade que não existe em Portugal. Não há retorno para investidores e colaboradores. É difícil compensar, pela qualidade e pelas suas competências, e manter jornalistas. Jornalistas mais séniores, a certa altura, vão para uma empresa de comunicação, ou vão para assessores de alguém, e muitos deles não vão permanecer, muitos deles não permanecem, mesmo tendo vontade.” (...) 

O que há a fazer, em sua opinião, “é reduzir a distorção à concorrência, é contribuir para uma discussão, na União Europeia, sobre os comportamentos predatórios das tais redes internacionais, é promover um debate interno sobre a situação da comunicação social e mostrar que é essencial para o desenvolvimento do nosso País”.  (...)

 

Sobre a situação geral do País, António Carrapatoso afirmou que o problema é “estrutural”, abrangendo “o sistema político, judicial, económico, social, e a interligação entre todos eles”, não dando aos portugueses oportunidades para se realizarem e não desenvolvendo as capacidades que já têm. 

A carga fiscal, segundo afirmou, “é muito elevada, nomeadamente para o baixo nível de rendimentos, e mesmo assim o Estado não consegue fornecer serviços públicos com a suficiente qualidade”: 

“A classe média, de certa forma quase que desapareceu no seu conceito original, pois a maioria das famílias tem dificuldade em alcançar uma razoável qualidade de vida. E os jovens começam a desesperar por falta de oportunidades e possibilidades e a acreditar que, permanecendo no País, dificilmente irão alcançar um nível de vida sequer igual ao dos seus pais.” 

“Ultimamente tem-se falado mesmo, mais do que o habitual, em desígnio do País, objectivos claros e caminho a prosseguir, e que os políticos têm de nos dar algo para acreditarmos, a todos. Será isto mesmo fundamental que nos falta? Precisamos deste desígnio, e que os políticos nos digam qual é o caminho a prosseguir?” – perguntou. 

António Carrapatoso afirmou que, salvo circunstâncias pontuais, como foi a altura do 25 de Abril, “não há desígnios nem objectivos nacionais claros, no concreto e em termos práticos, que sejam partilhados por todos, ou pelo menos por mais de 80% da população”: 

“E não se pode estar à espera que sejam os políticos a determiná-los. Podem contribuir, fazem parte do processo, obviamente, mas estamos à espera que os políticos é que definam o desígnio nacional e o caminho a percorrer?” 

“Sabemos quais são as motivações dos políticos, da maior parte deles. Sabemos qual é o sentido de bem comum, o sentido de interesse público que eles têm  - uns terão mais, outros terão menos. Mas provavelmente não é o máximo possível em todos eles.”  (...) 

O “rastilho” para isso  - segundo o orador -  “terá de vir mais dos filósofos, dos poetas e escritores, dos historiadores, dos líderes de opinião informais dos vários níveis da sociedade, e não é só os mais letrados; o rastilho tem que vir, às vezes, de pessoas mais simples, as tais pessoas mais comuns, que estão numa pequena fábrica, ou numa associação recreativa”. (...) 

“É daí, de pessoas mais e menos qualificadas, mas com a mesma vontade de trazer algo de novo para o País, que temos de esperar que esse ‘rastilho’ surja. Espera-se depois que alguns políticos saibam ler esses sinais e a dinâmica da sociedade e, com espírito de missão e de serviço público, façam as suas propostas e se proponham a governar.”  (...) 

Mais adiante, afirmou que a descrição do País feita pelos políticos, sobretudo no Governo, é uma “visão positiva” baseada em feitos “que muitas vezes são apenas económicos, em termos de números, que transmitem pouco do que é a estrurura do País”, apresentando a sua própria visão como “menos positiva, mas mais realista”: 

“Nós temos uma sociedade que é rígida, resistente à mudança, e isto é uma coisa que se nota, desde a revolução industrial  - resistimos à revolução industrial, resistimos a uma lei de rendas, por exemplo, resistimos a muita coisa.” 

“Temos uma sociedade envelhecida, em termos demográficos, uma sociedade de poderes dominantes, de lugares marcados, a todos os níveis, e poderes dominantes não só a nível empresarial, como a nível do Estado  - um dos principais poderes dominantes é o Estado…” 

“É natural, agora temos de definir o que é que o Estado deve ser, que dimensão é que deve ter, e quem gere o Estado, e que pesos e contrapesos é que há, que responsabilização é que há, e que reporte é que há da actividade desenvolvida no Estado.”  (...)

  

“Temos um Estado pesado, mal gerido, perdulário, com muitos impostos elevados ao serviço de interesses corporativos e privados. O Estado não está muitas vezes ao serviço da sociedade, está ao serviço das corporações que estão a gerir o Estado  - políticas, ou sindicais, ou outras, e de interesses ao fim e ao cabo privados.” (...) 

Afirmou ainda que há grandes desigualdades na sociedade, “e algumas estão a ser criadas e até reforçadas”.  (...) 

“É preciso assumir que a base de tudo é o cidadão, o privado, sendo que o colectivo, o público, devia estar ao serviço do cidadão e do privado, e que o Estado, principal poder dominante, não pode ser instrumentalizado só por alguns.” 

“Tem que se relembrar que o Estado pode ser garante, mas não tem que ser necessariamente prestador de todos os serviços. O Estado pode ser garante, a um dado nível na educação, ou na saúde, mas pode subcontratar esses serviços, em concorrência com o próprio, mas em concorrência transparente e séria.”  (...) 

E a concluir o seu diagnóstico sobre a situação política geral, António Carrapatoso disse ainda: 

“Como desatar o nó e limitar a resistência à mudança? Essencialmente temos que esperar que haja os tais novos protagonistas, aos vários níveis, da sociedade política e civil, como falámos, com visão e coragem para prometer novas visões, valores e projectos. E temos que mobilizar os cidadãos dando-lhes resposta. (...)  O tal projecto político, de visão para a sociedade, o tal caminho a prosseguir, que já vimos que nunca vai ser do agrado de todos, mas deve ter certos valores informadores, esse caminho tem que ser adaptado a cada tipo de cidadão.”  (...) 

Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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