Quarta-feira, 5 de Agosto, 2020
Media

Jornalismo "proactivo" para captar de novo leitores desencantados

Vale a pena publicar notícias que ninguém vai ler? E se muitos já não lêem porque não querem? Que podemos nós diante do número crescente dos que intencionalmente evitam os noticiários?
O último relatório do Instituto Reuters, sobre jornalismo digital, diz que o seu número já vai nos 32%.

“Tanto o Reino Unido como os EUA estão sob o efeito de um longo período de noticiário político muitíssimo anormal, devido ao Brexit e à eleição de Donald Trump. O que daqui resulta, se dermos crédito às conclusões do relatório, é um abaixamento do interesse em envolverem-se com quaisquer fontes de notícias.”

Segundo Emily Bell, que aqui citamos do diário britânico The Guardian, “há muitas vezes uma grande diferença entre o que as pessoas dizem que fazem e aquilo que realmente estão a fazer”. Os números das audiências podem não ser todos explicáveis por um declínio de interesse  - também reflectem as mudanças de ranking do motor de busca da Google, ou do algoritmo que alimenta o portal do Facebook.

Mas é verdade que há cada vez mais jornalistas e editores preocupados pela questão de saber como captar de novo a atenção dos que já estão no ponto de rejeitar as notícias.

“Se eu pudesse dispensar toda a minha equipa [que trata] das redes sociais, e substitui-la por uma equipa de envolvimento de audiências, era isso que fazia amanhã”  - disse a Emily Bell um editor com este tipo de preocupação. 

“Editar as notícias, e motivar as audiências no sentido de se interessarem por elas, são [duas coisas] muitas vezes consideradas como, intrinsecamente, a mesma função  - embora as competências necessárias para ambas possam estar em tensão uma com a outra”  - esclarece a autora. 

O site de “jornalismo lento” Tortoise, de que já aqui falámos, anunciou um esforço de alargamento da sua rede de membros por meio de palestras sobre temas definidos, em escolas, centros comunitários e outros espaços como estes. 

Já o Huffington Post tinha feito tournées pelos EUA (e partes do Reino Unido), com um autocarro, logo a seguir às eleições de 2016. The Guardian organizou os seus primeiros eventos de “notícias abertas” aos leitores há mais de uma década, e The New York Times tem o seu espaço próprio para este efeito, ligado ao seu grande edifício no centro de Nova Iorque. 

As revistas The Atlantic e New Yorker, bem como o diário nativo-digital Texas Tribune, têm estado a fazer os seus próprios “festivais de ideias, que constituem não só uma base à qual convidam os seus leitores, para tomarem parte num debate, mas ainda para proporem assinaturas e contribuições voluntárias”. 

Também a rede Solutions Journalism Network tem feito experiências ao nível local, envolvendo directamente as comunidades para falarem de coisas que as afectam, e ajudando assim as redacções “a cobrirem os assuntos de um modo que possa sugerir resultados, mais do que simplesmente esclarecer os problemas”. 

Está assim a desenvolver-se um crescente interesse por um jornalismo “proactivo”, que procura chegar ao contacto com aquelas audiências desinteressadas, evitando “os efeitos diluentes das redes sociais”. 

Mesmo que tenhamos dúvidas sobre o seu resultado  - como conclui Emily Bell -  “estas iniciativas de envolvimento proporcionam, pelo menos, um contacto vivo real com outros seres humanos, abordando não só os problemas do modelo de negócio das empresas de media, mas também alguns dos efeitos de isolamento digital que estão na sua causa”.


O artigo aqui citado, na íntegra em The Guardian

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena