Quinta-feira, 11 de Agosto, 2022
Media

Jornalismo "proactivo" para captar de novo leitores desencantados

Vale a pena publicar notícias que ninguém vai ler? E se muitos já não lêem porque não querem? Que podemos nós diante do número crescente dos que intencionalmente evitam os noticiários?
O último relatório do Instituto Reuters, sobre jornalismo digital, diz que o seu número já vai nos 32%.

“Tanto o Reino Unido como os EUA estão sob o efeito de um longo período de noticiário político muitíssimo anormal, devido ao Brexit e à eleição de Donald Trump. O que daqui resulta, se dermos crédito às conclusões do relatório, é um abaixamento do interesse em envolverem-se com quaisquer fontes de notícias.”

Segundo Emily Bell, que aqui citamos do diário britânico The Guardian, “há muitas vezes uma grande diferença entre o que as pessoas dizem que fazem e aquilo que realmente estão a fazer”. Os números das audiências podem não ser todos explicáveis por um declínio de interesse  - também reflectem as mudanças de ranking do motor de busca da Google, ou do algoritmo que alimenta o portal do Facebook.

Mas é verdade que há cada vez mais jornalistas e editores preocupados pela questão de saber como captar de novo a atenção dos que já estão no ponto de rejeitar as notícias.

“Se eu pudesse dispensar toda a minha equipa [que trata] das redes sociais, e substitui-la por uma equipa de envolvimento de audiências, era isso que fazia amanhã”  - disse a Emily Bell um editor com este tipo de preocupação. 

“Editar as notícias, e motivar as audiências no sentido de se interessarem por elas, são [duas coisas] muitas vezes consideradas como, intrinsecamente, a mesma função  - embora as competências necessárias para ambas possam estar em tensão uma com a outra”  - esclarece a autora. 

O site de “jornalismo lento” Tortoise, de que já aqui falámos, anunciou um esforço de alargamento da sua rede de membros por meio de palestras sobre temas definidos, em escolas, centros comunitários e outros espaços como estes. 

Já o Huffington Post tinha feito tournées pelos EUA (e partes do Reino Unido), com um autocarro, logo a seguir às eleições de 2016. The Guardian organizou os seus primeiros eventos de “notícias abertas” aos leitores há mais de uma década, e The New York Times tem o seu espaço próprio para este efeito, ligado ao seu grande edifício no centro de Nova Iorque. 

As revistas The Atlantic e New Yorker, bem como o diário nativo-digital Texas Tribune, têm estado a fazer os seus próprios “festivais de ideias, que constituem não só uma base à qual convidam os seus leitores, para tomarem parte num debate, mas ainda para proporem assinaturas e contribuições voluntárias”. 

Também a rede Solutions Journalism Network tem feito experiências ao nível local, envolvendo directamente as comunidades para falarem de coisas que as afectam, e ajudando assim as redacções “a cobrirem os assuntos de um modo que possa sugerir resultados, mais do que simplesmente esclarecer os problemas”. 

Está assim a desenvolver-se um crescente interesse por um jornalismo “proactivo”, que procura chegar ao contacto com aquelas audiências desinteressadas, evitando “os efeitos diluentes das redes sociais”. 

Mesmo que tenhamos dúvidas sobre o seu resultado  - como conclui Emily Bell -  “estas iniciativas de envolvimento proporcionam, pelo menos, um contacto vivo real com outros seres humanos, abordando não só os problemas do modelo de negócio das empresas de media, mas também alguns dos efeitos de isolamento digital que estão na sua causa”.


O artigo aqui citado, na íntegra em The Guardian

Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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