Quinta-feira, 27 de Fevereiro, 2020
Opinião

O descalabro da Global Media

por Dinis de Abreu

O descalabro do Grupo Global Media era uma questão de tempo. Alienada a sede patrimonial do Diário de Notícias  - o histórico edifício projectado por Pardal Monteiro, no topo da avenida da Liberdade, entregue sem preconceitos à gula imobiliária, perante a indiferença do Municipio e do Governo  - o plano inclinado ficou à vista.
Se ao centenário DN foi destinado um comodato  nas Torres Lisboa,  ao Jornal de Notícias cabe uma garagem como destino, enquanto a sua  sede emblemática, numa zona nobre do Porto, mudou de mãos,  na mesma lógica de “vender os anéis para salvar os dedos”...

O colapso já admitido por responsáveis da administração do Grupo, com um despedimento colectivo no horizonte -  por não haver sequer dinheiro para montar um programa de rescisões  amigáveis -, faz prever o pior.

Os dois títulos, que já foram de referência, são as mais recentes vítimas de um acumular de erros sucessivos, envolvendo – há que escrevê-lo com frontalidade  – tanto  administrações  como  direcções editoriais. 

O DN, reconvertido em semanário, é um fantasma do jornal de prestígio que marcou gerações e influenciou a agenda de governos ao longo de século e meio de publicação. 

Tem uma circulação irrisória em papel, e não conseguiu fixar assinantes no digital. Tornou-se numa triste  irrelevância que não vai longe, com a agravante de correrem rumores sobre o desbaratamento do seu arquivo histórico, o que,  a confirmar-se seria  um crime de lesa- Cultura.

Já o JN , embora com perdas significativas de leitores na sua edição em papel,  tem resistido no digital. Porém,  tal como o DN,  perdeu influência , e a mesma gula imobiliária também não o poupou.


Em ambos os casos , o actual chairman do Grupo, Daniel Proença de Carvalho,  não tem motivos para se orgulhar. Advogado com uma carreira invejável  - alavancada pelo  processo de António Champalimaud - , há muito que se interessa pela Comunicação Social , desde a televisão à imprensa.

Fica com o nome manchado e ligado ao naufrágio de um Grupo que não fundou,  mas que não soube evitar que se afundasse . Uma tristeza.


A crise declarada da Global Média, que engloba ainda a TSF , em rota descendente -  agora  com a Radio Observador, mais ágil e aberta,  a disputar-lhe a vocação  matricial de “rádio de informação” -,funciona como uma espécie de antecâmara do desmantelamento a prazo.

 
Os media portugueses não estão a viver os melhores dias. O DN  primeiro, e o JN a seguir, são o pré-aviso de um  futuro comprometido. Haja quem perceba que,  sem jornalismo qualificado  e independente, é a própria democracia que fica em causa.  

Connosco
"Boston Globe" aceitou alargar licença familiar para jornalistas Ver galeria

O mundo profissional está mais competitivo e, não poucas vezes, coloca barreiras àqueles que pretendam conjugar a vida familiar com a profissional. A licenças de maternidade e paternidade são reduzidas e os profissionais vêem-se, por vezes, obrigados a abdicar da carreira para poderem acompanhar o crescimento dos filhos.

Este panorama não é estranho aos jornalistas dos “Boston Globe” que, durante dois anos, lutaram para que a licença paga se estendesse além das seis semanas. Depois, à semelhança do que acontece em muitos outros grupos de imprensa, a licença não era aplicada de forma igualitária entre pais, mães e parentes adoptivos. 

O projecto arrancou no Verão de 2017, quando um grupo de jornalistas começou a procurar aliados. No início do Outono desse ano, o “Comité da Licença”, já tinha contactado 300 funcionários do Grupo detentor do “Boston”.

Plataforma promove "relação analógica" com os leitores Ver galeria

O livro “1984”, de George Orwell, foi publicado em 1949, mas está mais actual do que nunca. A ideia de que um “big brother” nos vigia é, agora, muito real, com plataformas “online” a desenvolverem algoritmos intrusivos, que recolhem dados sobre as preferências dos leitores, sem o seu consentimento.  


Foi com o ideal da privacidade em mente que os jornalistas Julia Angwin e Jeff Larson criaram a “Markup”, uma redacção sem fins lucrativos que investiga o uso da tecnologia para promover mudanças na sociedade.


No seu estatuto editorial, a publicação comprometeu-se a lutar pela privacidade aos leitores, garantido uma recolha mínima de informações pessoais, que serão mantidas em sigilo. As investigações dependem, de igual forma, de doações de informação, que permitem construir bases de dados de forma ética. O “Markup” quer, acima de tudo, criar uma relação “analógica” com os seus visitantes, numa época em que o contacto entre repórteres e leitores se estabelece digitalmente.

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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