Terça-feira, 14 de Julho, 2020
Opinião

Os jornalistas e os incêndios

por Francisco Sarsfield Cabral

Nos terríveis incêndios florestais de 2017 ouviram-se críticas à maneira sensacionalista como a comunicação social, ou parte dela, havia tratado essa tragédia. Julgo que, de facto, demasiadas vezes houve, então, uma exploração algo abusiva do que se estava a passar.

As imagens televisivas de grandes fogos, sobretudo de noite, são muito atractivas. Mas podem induzir potenciais pirómanos a passarem à acção. Claro que os “media” têm obrigação de não ocultar o que se passa, ainda que trágico. Apenas se recomenda alguma contenção e alguma sobriedade.

O mesmo se diga de uma certa insistência, há dois anos, no espectáculo da aflição das pessoas atingidas pelos fogos, muitas delas idosas e em estado psicológico descontrolado – como bem se compreende. Importa saber respeitar as vítimas.

Não realizei qualquer estudo nem vi, ouvi e li tudo o que foi noticiado sobre os grandes incêndios do corrente ano, que, felizmente, não mataram gente. Mas é minha impressão que os jornalistas que cobriram esses fogos foram mais responsáveis e contidos do que em 2017.

 

Claro que, nestas ocasiões, os meios de comunicação social recorrem a comentadores – ou melhor, aos comentadores que conseguem convidar, num período que já é de férias. Naturalmente, nem todos os que comentaram teriam as qualificações necessárias para nos elucidarem sobre um assunto tão controverso e tão dramático.

 

Quem parece não ter apreciado o trabalho dos jornalistas sobre os incêndios florestais de Julho deste ano foi o ministro da Administração Interna. Como escreveu no “site” da Renascença a sua Directora de Informação, Graça Franco, o ministro Eduardo Cabrita, depois de recusar responder às perguntas colocadas pelos “media”, “esperou que as luzes de apagassem e, já com os microfones desligados, mimoseou os repórteres com o epíteto de cobras”.

Como se sabe, o ministro estava irritado com perguntas sobre o extraordinário caso de uns “kits” distribuídos às pessoas, que vivem em aldeias de risco de incêndio, para  conterem uma máscara anti-fumo que... não poderia ser usada em caso de incêndio, por ser inflamável. É, de facto, surrealista.

Citando, ainda Graça Franco: “Eduardo Cabrita tentou dificultar o trabalho dos jornalistas no terreno e, além de os insultar em trabalho, insinuou, como quem dá lições de civismo, desta vez em on, que não estavam a ser nem sérios nem responsáveis. Ironia máxima: o Governo estava a ser confrontado com o facto do Estado ter desbaratado cerca de 300 mil euros dos nossos impostos em dois contratos com uma empresa do marido de uma autarca apoiada pelo PS".  

Acrescento, apenas, que os jornalistas que foram alvo desta atitude inqualificável do ministro souberam ser “sérios e responsáveis”, reportando a agressão ministerial com calma, dignidade e verdade.

Connosco
Quando há códigos éticos associados ao jornalismo Ver galeria

O jornalismo está em constante mudança e, como tal, os códigos éticos associados à profissão deve ser actualizados, em permanência.


Há, contudo, alguns elementos que se vão mantendo, mais ou menos, constantes, como as ideologias associadas aos jornais.

Confrontado com este cenário, Pedro Pablo Bermúdez, um estudante colombiano de jornalismo, decidiu questionar os colaboradores da Fundación Gabo quanto à sua opinião sobre os posicionamentos políticos da imprensa e dos jornalistas.

Feita a consulta, alguns jornalistas da Fundação exprimiram os seus pontos de vista.

Assim, para a jornalista Mónica González, a isenção da imprensa é uma utopia. Assim, os jornais devem tentar ser o mais transparentes possível sobre a sua posição ideológica, para que os leitores consigam distinguir uma notícia de uma falácia construída em detrimento da oposição.

Da mesma forma, as empresas mediáticas deverão revelar quais as suas fontes de financiamento e o nome dos seus investidores.


Jornalismo de risco para bem informar sobre saúde Ver galeria

O jornalismo de saúde é, por enquanto, uma tendência editorial em desenvolvimento, na qual figuram títulos alarmistas e onde a informação é desenvolvida de forma deficiente, defendeu o professor Josu Mezu num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

De acordo com o autor, deparamo-nos, quase diariamente,  com notícias relativas a comportamentos, dispositivos, substâncias e alimentos que nos podem ajudar a evitar doenças, ou que podem favorecê-las. 

Por norma, é-nos indicado que "dormir mais de oito horas aumenta o risco de doença cardiovascular", que "comer cogumelos reduz o risco de cancro da próstata", que "usar um cinto de segurança reduz para metade o risco de morte em acidentes", ou que "o ácido fólico reduz o risco de AVCs e de ataque cardíacos".

É natural, reiterou o autor, que um leitor “superficial” fique com a impressão de que tudo o que faz, ou come, causa ou previne qualquer doença.

Mas, mais preocupante, é o facto de nem os consumidores mais atentos conseguirem encontrar informações, suficientemente, claras para identificarem possíveis comportamentos de risco.


O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Agenda
27
Jul
Jornalismo ético como garantia de democracia
09:30 @ Universidade de Madrid
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo