Quinta-feira, 27 de Fevereiro, 2020
Opinião

Os jornalistas e os incêndios

por Francisco Sarsfield Cabral

Nos terríveis incêndios florestais de 2017 ouviram-se críticas à maneira sensacionalista como a comunicação social, ou parte dela, havia tratado essa tragédia. Julgo que, de facto, demasiadas vezes houve, então, uma exploração algo abusiva do que se estava a passar.

As imagens televisivas de grandes fogos, sobretudo de noite, são muito atractivas. Mas podem induzir potenciais pirómanos a passarem à acção. Claro que os “media” têm obrigação de não ocultar o que se passa, ainda que trágico. Apenas se recomenda alguma contenção e alguma sobriedade.

O mesmo se diga de uma certa insistência, há dois anos, no espectáculo da aflição das pessoas atingidas pelos fogos, muitas delas idosas e em estado psicológico descontrolado – como bem se compreende. Importa saber respeitar as vítimas.

Não realizei qualquer estudo nem vi, ouvi e li tudo o que foi noticiado sobre os grandes incêndios do corrente ano, que, felizmente, não mataram gente. Mas é minha impressão que os jornalistas que cobriram esses fogos foram mais responsáveis e contidos do que em 2017.

 

Claro que, nestas ocasiões, os meios de comunicação social recorrem a comentadores – ou melhor, aos comentadores que conseguem convidar, num período que já é de férias. Naturalmente, nem todos os que comentaram teriam as qualificações necessárias para nos elucidarem sobre um assunto tão controverso e tão dramático.

 

Quem parece não ter apreciado o trabalho dos jornalistas sobre os incêndios florestais de Julho deste ano foi o ministro da Administração Interna. Como escreveu no “site” da Renascença a sua Directora de Informação, Graça Franco, o ministro Eduardo Cabrita, depois de recusar responder às perguntas colocadas pelos “media”, “esperou que as luzes de apagassem e, já com os microfones desligados, mimoseou os repórteres com o epíteto de cobras”.

Como se sabe, o ministro estava irritado com perguntas sobre o extraordinário caso de uns “kits” distribuídos às pessoas, que vivem em aldeias de risco de incêndio, para  conterem uma máscara anti-fumo que... não poderia ser usada em caso de incêndio, por ser inflamável. É, de facto, surrealista.

Citando, ainda Graça Franco: “Eduardo Cabrita tentou dificultar o trabalho dos jornalistas no terreno e, além de os insultar em trabalho, insinuou, como quem dá lições de civismo, desta vez em on, que não estavam a ser nem sérios nem responsáveis. Ironia máxima: o Governo estava a ser confrontado com o facto do Estado ter desbaratado cerca de 300 mil euros dos nossos impostos em dois contratos com uma empresa do marido de uma autarca apoiada pelo PS".  

Acrescento, apenas, que os jornalistas que foram alvo desta atitude inqualificável do ministro souberam ser “sérios e responsáveis”, reportando a agressão ministerial com calma, dignidade e verdade.

Connosco
"Boston Globe" aceitou alargar licença familiar para jornalistas Ver galeria

O mundo profissional está mais competitivo e, não poucas vezes, coloca barreiras àqueles que pretendam conjugar a vida familiar com a profissional. A licenças de maternidade e paternidade são reduzidas e os profissionais vêem-se, por vezes, obrigados a abdicar da carreira para poderem acompanhar o crescimento dos filhos.

Este panorama não é estranho aos jornalistas dos “Boston Globe” que, durante dois anos, lutaram para que a licença paga se estendesse além das seis semanas. Depois, à semelhança do que acontece em muitos outros grupos de imprensa, a licença não era aplicada de forma igualitária entre pais, mães e parentes adoptivos. 

O projecto arrancou no Verão de 2017, quando um grupo de jornalistas começou a procurar aliados. No início do Outono desse ano, o “Comité da Licença”, já tinha contactado 300 funcionários do Grupo detentor do “Boston”.

Plataforma promove "relação analógica" com os leitores Ver galeria

O livro “1984”, de George Orwell, foi publicado em 1949, mas está mais actual do que nunca. A ideia de que um “big brother” nos vigia é, agora, muito real, com plataformas “online” a desenvolverem algoritmos intrusivos, que recolhem dados sobre as preferências dos leitores, sem o seu consentimento.  


Foi com o ideal da privacidade em mente que os jornalistas Julia Angwin e Jeff Larson criaram a “Markup”, uma redacção sem fins lucrativos que investiga o uso da tecnologia para promover mudanças na sociedade.


No seu estatuto editorial, a publicação comprometeu-se a lutar pela privacidade aos leitores, garantido uma recolha mínima de informações pessoais, que serão mantidas em sigilo. As investigações dependem, de igual forma, de doações de informação, que permitem construir bases de dados de forma ética. O “Markup” quer, acima de tudo, criar uma relação “analógica” com os seus visitantes, numa época em que o contacto entre repórteres e leitores se estabelece digitalmente.

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

ver mais >
Opinião