Quinta-feira, 27 de Fevereiro, 2020
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"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

Numa dessas acções de formação, realizada em Maio de 2019 em Cartagena, Colômbia, Liza Gross contou que o “jornalismo de soluções” nasce de uma profunda reflexão sobre  “o lugar que ocupava o jornalismo na sociedade  - especialmente em democracia -  e qual deveria ser, tendo em conta as mudanças tecnológicas e económicas do ecossistema mediático”. 

Nos últimos cinco anos, e depois de visitar mais de 200 empresas de media, nos EUA, “chegou à conclusão de que muitos jornalistas partilham esta mesma inquietação: tem de haver alguma coisa além de simplesmente fazer uma denúncia”. 

“Conforme explica, o jornlismo de soluções não é mais do que a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais.” 

“Não é jornalismo-cidadão nem jornalismo positivo. Também não se trata de relações públicas, activismo ou publi-reportagens [conteúdos patrocinados]. É uma ferramenta para apresentar aos leitores informação de uma nova forma, e a qualidade dos trabalhos realizados segundo este foco depende da competência dos jornalistas para a utilizarem.” 

“A diferença entre o foco tradicional e o de soluções é procurar a excepção positiva. Se há dez hospitais que não cumprem os requisitos mínimos para atenderem às mães do seu primeiro filho [primíparas], haverá algum que o consegue. Então devemos perguntar: como é que o consegue?”  -  resume Liza Gross.  (...) 

Como afirma noutro texto, sobre os “três mitos comuns” a respeito desta disciplina,  “o jornalismo de soluções não exagera, não promete, baseia-se em evidência, não especula;  por este motivo, por exemplo, eu não faria cobertura com foco em soluções de um programa que se anuncia, mas não tem qualquer evidência de ser bem sucedido”. 

“Pode ser, em teoria, um programa muito prometedor, mas se não sabemos se já deu ou não resultado, não é um tema que se possa cobrir neste momento sob essa modalidade.” 

“Pelo contrário, o verdadeiro foco do jornalismo de soluções está na cobertura de programas ou políticas que já estejam em marcha, o que permite recolher dados e medições que demonstrem a eficácia, ou não, da estratégia implementada como resposta a uma situação adversa.” 

Também sabe denunciar aquilo que está mal ou não funciona, mas não se conforma com isso: 

“É importante sublinhar que o jornalismo de soluções não é relações públicas, não é só a história agradável ou cor-de-rosa, mas, pelo contrário, o foco nas soluções pode ser incómodo, mas sempre útil, orienta-se na busca de mudanças sistémicas, para estudar como uma reposta está a mudar a situação e a conduzir a uma resposta mais positiva.” 

Por último, não se trata apenas de respostas que resultam a cem por cento, mas também de programas que funcionam de modo parcial, só em determinadas circunstâncias, “incluindo respostas que tiveram êxito em algum momento e deixaram de ter por algum motivo.”  (...) 

 

Mais informação  nestes textos  da FNPI,  e os antecedentes deste debate no nosso site.

Connosco
"Boston Globe" aceitou alargar licença familiar para jornalistas Ver galeria

O mundo profissional está mais competitivo e, não poucas vezes, coloca barreiras àqueles que pretendam conjugar a vida familiar com a profissional. A licenças de maternidade e paternidade são reduzidas e os profissionais vêem-se, por vezes, obrigados a abdicar da carreira para poderem acompanhar o crescimento dos filhos.

Este panorama não é estranho aos jornalistas dos “Boston Globe” que, durante dois anos, lutaram para que a licença paga se estendesse além das seis semanas. Depois, à semelhança do que acontece em muitos outros grupos de imprensa, a licença não era aplicada de forma igualitária entre pais, mães e parentes adoptivos. 

O projecto arrancou no Verão de 2017, quando um grupo de jornalistas começou a procurar aliados. No início do Outono desse ano, o “Comité da Licença”, já tinha contactado 300 funcionários do Grupo detentor do “Boston”.

Plataforma promove "relação analógica" com os leitores Ver galeria

O livro “1984”, de George Orwell, foi publicado em 1949, mas está mais actual do que nunca. A ideia de que um “big brother” nos vigia é, agora, muito real, com plataformas “online” a desenvolverem algoritmos intrusivos, que recolhem dados sobre as preferências dos leitores, sem o seu consentimento.  


Foi com o ideal da privacidade em mente que os jornalistas Julia Angwin e Jeff Larson criaram a “Markup”, uma redacção sem fins lucrativos que investiga o uso da tecnologia para promover mudanças na sociedade.


No seu estatuto editorial, a publicação comprometeu-se a lutar pela privacidade aos leitores, garantido uma recolha mínima de informações pessoais, que serão mantidas em sigilo. As investigações dependem, de igual forma, de doações de informação, que permitem construir bases de dados de forma ética. O “Markup” quer, acima de tudo, criar uma relação “analógica” com os seus visitantes, numa época em que o contacto entre repórteres e leitores se estabelece digitalmente.

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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Opinião
Neste primeiro semestre, três jornais açorianos comemoram uma longevidade assinalável. Conforme se regista noutros espaços deste site, o Diário dos Açores acabou de completar século e meio de existência;  em Abril, será a vez do Açoriano Oriental,  o mais antigo, soprar 185 velas; e, finalmente em Maio, o Correio dos Açores alcança o seu primeiro centenário. Em tempo de crise na Imprensa,...
O volume de investimento publicitário na imprensa tem estado em queda, mas vários estudos indicam que os leitores de jornais e revistas continuam a ser influenciados pela publicidade que encontram nas páginas das publicações que consomem regularmente. Por outro lado a análise dos dados do mais recente estudo Bareme Impresa, da Marktest, revela que os indivíduos da classe alta têm níveis de audiência de imprensa 40% acima dos...
Graves ameaças à BBC News
Francisco Sarsfield Cabral
A BBC é, provavelmente, a referência mundial mais importante do jornalismo. Foi uma rádio muito ouvida em Portugal no tempo da ditadura, para conhecer notícias que a censura não deixava publicar. E mesmo depois do 25 de Abril, durante o chamado PREC (processo revolucionário em curso) também o recurso à BBC News por vezes dava jeito para obter uma informação não distorcida por ideologias políticas.Ora a BBC News...