Terça-feira, 14 de Julho, 2020
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"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

Numa dessas acções de formação, realizada em Maio de 2019 em Cartagena, Colômbia, Liza Gross contou que o “jornalismo de soluções” nasce de uma profunda reflexão sobre  “o lugar que ocupava o jornalismo na sociedade  - especialmente em democracia -  e qual deveria ser, tendo em conta as mudanças tecnológicas e económicas do ecossistema mediático”. 

Nos últimos cinco anos, e depois de visitar mais de 200 empresas de media, nos EUA, “chegou à conclusão de que muitos jornalistas partilham esta mesma inquietação: tem de haver alguma coisa além de simplesmente fazer uma denúncia”. 

“Conforme explica, o jornlismo de soluções não é mais do que a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais.” 

“Não é jornalismo-cidadão nem jornalismo positivo. Também não se trata de relações públicas, activismo ou publi-reportagens [conteúdos patrocinados]. É uma ferramenta para apresentar aos leitores informação de uma nova forma, e a qualidade dos trabalhos realizados segundo este foco depende da competência dos jornalistas para a utilizarem.” 

“A diferença entre o foco tradicional e o de soluções é procurar a excepção positiva. Se há dez hospitais que não cumprem os requisitos mínimos para atenderem às mães do seu primeiro filho [primíparas], haverá algum que o consegue. Então devemos perguntar: como é que o consegue?”  -  resume Liza Gross.  (...) 

Como afirma noutro texto, sobre os “três mitos comuns” a respeito desta disciplina,  “o jornalismo de soluções não exagera, não promete, baseia-se em evidência, não especula;  por este motivo, por exemplo, eu não faria cobertura com foco em soluções de um programa que se anuncia, mas não tem qualquer evidência de ser bem sucedido”. 

“Pode ser, em teoria, um programa muito prometedor, mas se não sabemos se já deu ou não resultado, não é um tema que se possa cobrir neste momento sob essa modalidade.” 

“Pelo contrário, o verdadeiro foco do jornalismo de soluções está na cobertura de programas ou políticas que já estejam em marcha, o que permite recolher dados e medições que demonstrem a eficácia, ou não, da estratégia implementada como resposta a uma situação adversa.” 

Também sabe denunciar aquilo que está mal ou não funciona, mas não se conforma com isso: 

“É importante sublinhar que o jornalismo de soluções não é relações públicas, não é só a história agradável ou cor-de-rosa, mas, pelo contrário, o foco nas soluções pode ser incómodo, mas sempre útil, orienta-se na busca de mudanças sistémicas, para estudar como uma reposta está a mudar a situação e a conduzir a uma resposta mais positiva.” 

Por último, não se trata apenas de respostas que resultam a cem por cento, mas também de programas que funcionam de modo parcial, só em determinadas circunstâncias, “incluindo respostas que tiveram êxito em algum momento e deixaram de ter por algum motivo.”  (...) 

 

Mais informação  nestes textos  da FNPI,  e os antecedentes deste debate no nosso site.

Connosco
Quando há códigos éticos associados ao jornalismo Ver galeria

O jornalismo está em constante mudança e, como tal, os códigos éticos associados à profissão deve ser actualizados, em permanência.


Há, contudo, alguns elementos que se vão mantendo, mais ou menos, constantes, como as ideologias associadas aos jornais.

Confrontado com este cenário, Pedro Pablo Bermúdez, um estudante colombiano de jornalismo, decidiu questionar os colaboradores da Fundación Gabo quanto à sua opinião sobre os posicionamentos políticos da imprensa e dos jornalistas.

Feita a consulta, alguns jornalistas da Fundação exprimiram os seus pontos de vista.

Assim, para a jornalista Mónica González, a isenção da imprensa é uma utopia. Assim, os jornais devem tentar ser o mais transparentes possível sobre a sua posição ideológica, para que os leitores consigam distinguir uma notícia de uma falácia construída em detrimento da oposição.

Da mesma forma, as empresas mediáticas deverão revelar quais as suas fontes de financiamento e o nome dos seus investidores.


Jornalismo de risco para bem informar sobre saúde Ver galeria

O jornalismo de saúde é, por enquanto, uma tendência editorial em desenvolvimento, na qual figuram títulos alarmistas e onde a informação é desenvolvida de forma deficiente, defendeu o professor Josu Mezu num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

De acordo com o autor, deparamo-nos, quase diariamente,  com notícias relativas a comportamentos, dispositivos, substâncias e alimentos que nos podem ajudar a evitar doenças, ou que podem favorecê-las. 

Por norma, é-nos indicado que "dormir mais de oito horas aumenta o risco de doença cardiovascular", que "comer cogumelos reduz o risco de cancro da próstata", que "usar um cinto de segurança reduz para metade o risco de morte em acidentes", ou que "o ácido fólico reduz o risco de AVCs e de ataque cardíacos".

É natural, reiterou o autor, que um leitor “superficial” fique com a impressão de que tudo o que faz, ou come, causa ou previne qualquer doença.

Mas, mais preocupante, é o facto de nem os consumidores mais atentos conseguirem encontrar informações, suficientemente, claras para identificarem possíveis comportamentos de risco.


O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Agenda
27
Jul
Jornalismo ético como garantia de democracia
09:30 @ Universidade de Madrid
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo