null, 31 de Maio, 2020
Opinião

As limitações do nosso jornalismo

por Francisco Sarsfield Cabral

J.-MNobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de notícias fátuas que não exigem qualquer esforço e pouco ou nada contribuem para um conhecimento informado das situações. Mesmo a informação internacional é escassa e, muitas vezes, mal tratada”.

Como jornalista, não tenho uma reacção corporativa às críticas que se fazem ao jornalismo português. Concordo com muitos dos males apontados e lamento-os. Mas é de justiça salientar dois pontos.

Primeiro, a comunicação social portuguesa tem dado contributos importantes para a descoberta de casos de corrupção e outros, bem como trouxe para a praça pública a situação lamentável de muita gente que, de outra forma, continuaria a ser ignorada.

 Isto acontece apesar das limitações que prejudicam o trabalho dos jornalistas. Praticamente todos os media no nosso país – e no estrangeiro também – lutam com problemas financeiros sérios. A publicidade é escassa e os “sites” eletrónicos desses meios não conseguem anúncios financeiramente compensadores. Por isso as redações têm vindo a ser reduzidas ao mínimo: há menos jornalistas e menos recursos para financiar investigações complexas. Ora as solicitações são hoje muito maiores do que eram há poucas décadas atrás: a informação não pára, é permanente.

 O aparecimento da internet e das redes sociais levou a uma baixa brutal de leitores, ouvintes e telespectadores – e de publicidade. E o facto de os “media” tradicionais e os outros concorrerem, todos, em dar notícias 24 horas por dia nos respectivos “sites”, o mais rapidamente possível, não contribui propriamente para analisar e investigar, com tempo e ponderação, inúmeras informações, verdadeiras ou falsas.

Tenho dito várias vezes que o “Washington Post” não teria hoje possibilidades financeiras de fazer uma investigação como a realizada em 1974 ao caso Watergate: dois repórteres do jornal instalaram-se confidencialmente num hotel durante meses, com vários ajudantes. A crise é geral, mas Portugal tem uma população pouco dada à leitura e a ver e ouvir discutir temas sérios. O mercado é pequeno…

 Claro que, mesmo com as limitações existentes, o jornalismo nacional poderia ser melhor. Mas convém não esquecer aquilo de que os consumidores da comunicação social mais apreciam. Na televisão, por exemplo, é o futebol – não propriamente ver jogos, mas assistir a discussões intermináveis sobre “casos” envolvendo árbitros, dirigentes e jogadores. Ou, então, “reality shows” degradantes – começou com o “Big brother”.

Mas o fenómeno não é novidade nem apenas português. Há muito que os jornais “tabloides” britânicos vendem dez vezes mais do que os chamados jornais de referência. Esses tabloides levam o sensacionalismo e a desvergonha a níveis impressionantes. E a Grã-Bretanha é um país culto, mas onde surgem políticos populistas como Boris Johnson...  

Connosco
Na era digital a máquina é o “braço direito” do jornalista ... Ver galeria

A era digital fez-se acompanhar de uma profunda alteração nos modelos de actividade e de negócio, entre os quais se destaca o sector mediático, segundo aponta o mais recente relatório do Obercom.

De acordo com o estudo, essas mudanças caracterizam-se, sobretudo, pela implementação de algoritmos e pela automatização dos sistemas.

Se, por um lado, a digitalização trouxe alguns problemas ao sector mediático, que, durante décadas estudou a adaptação a um mundo globalizado, onde a informação nunca pára, por outro, veio facilitar o trabalho aos jornalistas.

Este fenómeno é, aparentemente, paradoxal, mas a verdade é que os processos automáticos ajudam os profissionais a responderem, eficazmente, à necessidade da produção “sôfrega” de conteúdos noticiosos.

Trocando por miúdos: se as máquinas existem, porque não “pedir-lhes ajuda”?

Assim, os “media” actuais dependem, cada vez mais, de algoritmos que permitem analisar a preferências dos leitores, bem como de sistemas que facilitam a actualização de “websites” ao minuto.

A urgência de proteger jornalistas em países onde falha a liberdade de imprensa Ver galeria

A violência contra os jornalistas é uma realidade cada vez mais presente no mundo contemporâneo, já que várias entidades, insatisfeitas com a sua independência, estão a desenvolver novos mecanismos para impedir a publicação de artigos incómodos para o poder instituído.

Os atentados mais graves contra a liberdade de imprensa ocorrem em países onde esta está condicionada, mas, igualmente, noutros onde era suposto haver protecção para o trabalho jornalístico.

De acordo com um artigo do “Guardian”, esta realidade distópica ficou  mais evidente com o aparecimento do coronavírus.

A título de exemplo, alguns governos criaram medidas extraordinárias, visando a restrição do trabalho jornalístico. Foi o caso da Hungria, onde Viktor Órban instituiu a lei “coronavírus”, que criminaliza a difusão de “notícias falsas” sobre a pandemia. 

Da mesma forma, tanto a China como o Irão censuraram a informação respeitante aos surtos nestes países.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
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15
Out
II Conferência Internacional - História do Jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas