null, 31 de Maio, 2020
Opinião

O regresso do “jornalismo de causas”

por Dinis de Abreu

O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar numa conferência do clima;  a   desmatação da Amazónia, que, embora praticada, sistematicamente,  há muitos anos,  só agora  atraiu as atenções do G7 e  da  imprensa internacional grada; a “ideologia do género”, que assentou arraiais impulsionada pelos movimentos “gay”, com acesso privilegiado  a muitos media, incluindo os portugueses; ou o  “populismo”, perigo  invariavelmente  associado  ao radicalismo da direita, mas que a extrema esquerda não despreza e cultiva a bel-prazer.

Outro tema que costuma invadir   a Imprensa e os audiovisuais é o das “migrações”. Mas tal, como os anteriores, obedecem a um  tratamento editorial distinto consoante  as  circunstâncias.

Se se trata de barcos encontrados no Mediterrâneo à deriva (ou quase), carregados de gente transportada em condições deploráveis -  vítimas do engodo de traficantes e da miséria sem esperança nos países de origem -,  os media contribuem – e bem – para um movimento de solidariedade e de acolhimento .

Mas se estão em causa quase quatro  milhões de venezuelanos, que deixaram o país em desespero -   desde 2015 até meados  deste ano -, empurrados por um regime que arruinou um país dono de importantes reservas de  petróleo, a reacção da mesma grande Imprensa internacional  perde  fulgor e fica  surpreendentemente  parcimoniosa .

Donde se conclui que o “jornalismo de causas”  faz as suas opções e que a avaliação  da importância da mesma realidade pode depender da latitude, do credo e da oportunidade política para obter   eco mediático.

Empolar ou silenciar um acontecimento, segundo uma determinada conjuntura, óptica ou conveniência de grupo ou de capela, passou  a ser o filtro usado por numerosos  media, que abandonaram  a  factualidade e gerem  dependências.  Um triste sinal dos tempos.

Connosco
Na era digital a máquina é o “braço direito” do jornalista ... Ver galeria

A era digital fez-se acompanhar de uma profunda alteração nos modelos de actividade e de negócio, entre os quais se destaca o sector mediático, segundo aponta o mais recente relatório do Obercom.

De acordo com o estudo, essas mudanças caracterizam-se, sobretudo, pela implementação de algoritmos e pela automatização dos sistemas.

Se, por um lado, a digitalização trouxe alguns problemas ao sector mediático, que, durante décadas estudou a adaptação a um mundo globalizado, onde a informação nunca pára, por outro, veio facilitar o trabalho aos jornalistas.

Este fenómeno é, aparentemente, paradoxal, mas a verdade é que os processos automáticos ajudam os profissionais a responderem, eficazmente, à necessidade da produção “sôfrega” de conteúdos noticiosos.

Trocando por miúdos: se as máquinas existem, porque não “pedir-lhes ajuda”?

Assim, os “media” actuais dependem, cada vez mais, de algoritmos que permitem analisar a preferências dos leitores, bem como de sistemas que facilitam a actualização de “websites” ao minuto.

A urgência de proteger jornalistas em países onde falha a liberdade de imprensa Ver galeria

A violência contra os jornalistas é uma realidade cada vez mais presente no mundo contemporâneo, já que várias entidades, insatisfeitas com a sua independência, estão a desenvolver novos mecanismos para impedir a publicação de artigos incómodos para o poder instituído.

Os atentados mais graves contra a liberdade de imprensa ocorrem em países onde esta está condicionada, mas, igualmente, noutros onde era suposto haver protecção para o trabalho jornalístico.

De acordo com um artigo do “Guardian”, esta realidade distópica ficou  mais evidente com o aparecimento do coronavírus.

A título de exemplo, alguns governos criaram medidas extraordinárias, visando a restrição do trabalho jornalístico. Foi o caso da Hungria, onde Viktor Órban instituiu a lei “coronavírus”, que criminaliza a difusão de “notícias falsas” sobre a pandemia. 

Da mesma forma, tanto a China como o Irão censuraram a informação respeitante aos surtos nestes países.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Jun
Jornalismo Empreendedor
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10:00 @ Saragoça
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Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
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II Conferência Internacional - História do Jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas