Quarta-feira, 17 de Agosto, 2022
Media

Os "media" tradicionais também têm casos de sucesso...

Apesar da crise vivenciada no jornalismo, alguns dos media tradicionais conseguiram ter sucesso. O processo de transição foi longo, houve necessidade de correr riscos, investir e alterar a forma como a informação era abordada. Apesar de tudo, a transição funcionou para publicações como o Guardian, o Economist, o Washington Post e o Telegraaf.

Guardian mantém a imposição que a própria notícia deve permanecer livre, por isso não implementaram paywalls na sua edição geral digital.

O semanário Economist duplicou a margem bruta nos últimos cinco anos, através de uma sofisticada estratégia focada no leitor. 

Washington Post desenvolveu um software de publicação, que se tornou o seu activo mais valioso. 

O Telegraaf é o jornal mais popular da Holanda e, mesmo tendo perdido metade da circulação impressa em 10 anos, conseguiu reverter a queda de receita de assinaturas, num período inferior a seis meses.

Miguel Ormaetxea, editor do Media-Tics, analisa os modelos e os casos de sucesso na imprensa tradicional, num artigo publicado no site.

O Guardian pertence ao Guardian Media Group, propriedade do Scott Trust, criado em 1936 com o objectivo de “assegurar a independência financeira e editorial do The Guardian em perpetuidade e para salvaguardar a liberdade jornalística e os valores liberais da publicação,sem interferência comercial ou política.”

 

Assim, os lucros são reinvestidos no jornalismo. A circulação impressa do jornal é de cerca de 280 mil exemplares, mas a sua edição online é a quinta mais lida do mundo. O Guardiantem uma edição digital no Reino Unido e, ainda, dois sites internacionais, o Guardian Australia e o Guardian US.

 

Apesar de ter enfrentado uma crise durante alguns anos, em Maio o jornal voltou a anunciar que se tinha tornado rentável, sendo que maior parte do seu rendimento tem origem no formato digital. Actualmente, o Guardian gera mais receitas através dos leitores do que da publicidade.

 

Apesar da queda nas receitas do jornal impresso, o crescimento proveniente digital tem permitido gerar lucro.

Depois de no ano passado ter lançado uma versão de assinatura digital “premium” – livre de anúncios, com palavras cruzadas e leitura offline –, o Guardian lançou, recentemente, uma nova aplicação: o Guardian Daily, que oferece uma colecção única e finita de histórias por dia, quase como um “jornal diário”.

 

O Economist é considerada a revista mais influente do mundo e a sua edição em papel tem uma circulação de 1,2 milhões de exemplares. A publicação tem uma paywall rígida e apresenta lucros crescentes, principalmente desde que adoptou a estratégia de colocar o “leitor primeiro”, que tem por base a análise sistemática dos leitores, de forma a identificar as suas preferências.

 

Actualmente, existem várias opções disponíveis para aceder ao conteúdo da publicação, desde o formato impresso, digital, newsletters, podcasts, etc. Com a alteração da sua estratégia, The Economist duplicou a margem bruta e aumentou as receitas dos leitores em mais de 50%.

 

O Economist tem 45 milhões de seguidores nas redes sociais, tem a quinta maior comunidade do mundo no Linkedin e as newsletters diárias são recebidas por mais de um milhão de assinantes. Nos podcasts continua a crescer, mas a sua mais recente oferta nesta área, chamada The Intelligence, já teve 17 milhões de downloads, desde que foi lançada em janeiro passado.

 

Washington Post, de Jeff Bezos, foi comprado, em 2013, por 250 milhões de dólares e desenvolveu um software de publicação, cujas licenças se tornaram os seus activos mais valiosos. 

 

Depois de vender a sua plataforma de gestão de conteúdos, Arc, à empresa petrolífera BP, o jornal espera que esta gere uma receita anual de 100 milhões de dólares nos próximos três anos. Este será o terceiro maior fluxo de receita do jornal, depois da publicidade e das assinaturas.

 

De Telegraaf é o jornal mais popular da Holanda, em 2000 a sua circulação ultrapassou os 800 mil exemplares. Contudo, no ano passado, a circulação rondou apenas cerca de 300 mil. 

 

John De Mol, um magnata holandês, adquiriu uma participação minoritária da empresa e realizou várias mudanças, e, em menos de seis meses, inverteu o declínio das receitas. Os membros da organização fizeram várias visitas aos leitores, de forma a ouvir as suas opiniões.

 

O crescimento anual das assinaturas da publicação é de cerca de 66%, mesmo com um orçamento de marketing consideravelmente inferior. 

 

A conclusão a que se pode chegar é que, talvez, o caminho para o sucesso seja o mais básico e se resuma a um maior foco nos interesses dos leitores.

 

Mais informação em Media-tics.

Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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