Terça-feira, 11 de Agosto, 2020
Media

O jornalismo satírico como contraponto em regimes autoritários

A sátira ou a caricatura  estão frequentemente entre os primeiros alvos dos regimes autoritários , apostados em silenciar a liberdade de expressão.
A jornalista Amina Boubia, considera, num artigo para o Global Investigative Journalism Network que não se trata de um mero acaso: uma sátira bem contada pode comunicar verdades, desafiar tabus e entreter o público de uma forma mais acessível e envolvente do que o jornalismo convencional, de cara séria.

Os programas satíricos apelam ao público mais jovem, que tem mais probabilidade de acompanhar as notícias, procurar mais informação, recordar factos e participar em actividades políticas, como resultado do consumo de comédia política. 

A autora conversou com dois veteranos da sátira política: Isam Uraiqat e Juan Ravell. Isam é o fundador da Al Hudood, uma organização de media especializada em sátira, responsável pelo que  “site” "A Cebola do Médio Oriente" e Juan é o director de um jornal satírico online venezuelano, “El Chigüire Bipolar”.


Isam considera que a sátira é particularmente importante no Médio Oriente, devido às “enormes restrições à liberdade de expressão”. O veterano considera que a sátira é “um dos poucos formatos que pode sobrepor-se à censura, pois as autoridades nem sempre sabem como lidar com ela”. 

Isam Uraiqat realiza, todos os dias, em conjunto com a sua equipa, um levantamento das notícias e escolhe quais são as mais importantes. O jornalista diz que as “piadas em si não são a parte mais difícil, sendo que vamos treinando a mente para pensar de uma certa maneira”.  Para ele, o aspecto mais importante do trabalho é desenvolver o factor editorial que permita distinguir uma boa sátira de uma má sátira.

O fundador do Al Hudood reitera que é necessário ter “muito cuidado, pois a sátira pode, por vezes,  piorar as coisas e tornar-se viral pelas razões erradas” e ter em atenção a cobertura de todos os lados da mesma história. 

“Por exemplo, em relação à divisão saudita, se tivermos uma história sobre os sauditas, garantimos que também lançamos algo sobre o Irão. Sempre que possível, fazemos isso na mesma história, porque as histórias têm uma vida própria”.

Já Ravell, do “Chigüire Bipolar”, considera que o jornal fala da realidade, mas de uma forma divertida. A principal dificuldade do jornal é relatar os factos, de forma satírica, mas sempre coerente, para não levar as pessoas a pensar em algo que não é verdade.

O jornalista considera, no entanto, que “alguns assuntos são impossíveis de se abordar com humor, ou , pelo menos, devem ser abordados de uma forma muito delicada”, apesar de defender que, juntamente com a equipa, conseguiu tratar o caso “Lava Jato” – que investigou várias personalidades brasileiras pelo crime de lavagem de dinheiro - de forma particularmente eficaz.


Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Opinião
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Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena