Quarta-feira, 5 de Agosto, 2020
Colectânea

Relatório coloca Portugal a meio da tabela da desinformação

Foi publicado o relatório “Fake News em ano eleitoral – Portugal em linha com a UE” que assinala a entrada definitiva das notícias falsas nas preocupações dos governantes em Portugal.

A posição do país no combate à desinformação parece ser reactiva, limitando-se a apoiar as posições assumidas pela União Europeia, sem acrescentar mais nada. 

O relatório, iniciativa do Obercom, explica o trabalho realizado pela União Europeia e em Portugal para lidar com este desafio, tentando, também, caracterizar o fenómeno.  

Os dados do Google e do Twitter situam Portugal numa posição intermédia no quadro da desinformação a nível europeu. 

Segundo os dados apresentados, o país revela, também, um crescimento do consumo de notícias, através das redes sociais, e uma maior falta de confiança nos conteúdos informativos.

O relatório problematiza, ainda, os riscos da desinformação durante as campanhas eleitorais, bem como possíveis soluções para o problema, como é o caso do fact-checking, da literacia mediática ou do jornalismo colaborativo. 

São, também, apresentados os dados do Digital News Report de 2019, que analisam as práticas de consumo de notícias dos portugueses e o seu impacto na desinformação.

A posição de Portugal sobre a desinformação limita-se ao apoio das posições assumidas pela União Europeia. 

 

Note-se, entretanto, que num estudo da ERC, realizado a pedido do presidente da Assembleia da República, foi reconhecida “a dificuldade de intervenção devido à indefinição dos limites do ambiente online e à ausência de competências específicas, reclamando uma maior visibilidade para o número de registo da ERC para que os utilizadores online tenham maior facilidade em identificar as fontes de notícias credíveis”. Assim, a ERC recomendou que o problema fosse abordado e assegurasse maiores poderes ao regulador.

 

Por seu lado, o relatório do Obercom analisou a percepção das fake news em Portugal, concluindo que existem duas ideias erradas: que a desinformação não tem expressão no país e que, a existir, não tem objectivos políticos.

 

A estratégia de desinformação em Portugal é mais centrada na difamação e ataque pessoal, aproximando-se mais do Brasil do que dos países europeus.

 

Os conteúdos de desinformação analisados apresentam “uma menor saliência da questão migratória – ao contrário daquilo que sucede na maioria dos países ocidentais – que contrasta com o maior relevo da corrupção política, nepotismo e promiscuidade dos detentores de cargos públicos”. 

 

Esta conclusão sobre o fenómeno em Portugal tem por base o trabalho realizado pelo MediaLab do ISCTE-IUL, que monitorizou a desinformação no Facebook e no WhatsApp

 

Os dados do Google e do Twitter situam Portugal numa posição intermédia no quadro da desinformação a nível europeu, reforçando que a desinformação em Portugal “é uma realidade e tem dimensão suficiente para enviesar percepção da opinião pública acerca da veracidade da informação e assim diminuir a qualidade da nossa democracia”. 

 

Desta forma, os riscos de desinformação, em contexto eleitoral, são reais, mas o estudo defende que “a urgência em intervir não deve conduzir a medidas arbitrárias no plano governamental, típicas de regimes não democráticos. A Freedom House afirma mesmo que tal como «terrorismo» também o termo «fake news» tem sido cooptado por líderes autoritários para justificar repressão a dissidentes”.

 

As campanhas de desinformação em Portugal existem e seguem um modelo de difusão online. A desinformação é difundida através de páginas “enganadoras” de órgãos de comunicação, de grupos nas redes sociais e de perfis falsos. No caso português está, ainda, por confirmar a utilização de processos automatizados por robôs digitais (bots).

 

O relatório revelou, igualmente, que, em Portugal, a confiança em notícias é alta, mas tem diminuído, principalmente na Internet, verificando-se uma menor utilização deste meio como fonte principal de notícias. 

 

Em 2019, a veracidade dos conteúdos online inquieta três em cada quatro portugueses (74.7%), sendo que a mediatização do fenómeno das fake news e a desinformação, surgem como um problema público, minando a confiança nas notícias.

 

A crescente digitalização das práticas de consumo dos portugueses é reflectida no facto de cerca de 4/5 das pessoas utilizarem tanto a Televisão como a Internet como fonte de notícias. A Imprensa e a Rádio apresentam valores que rondam os 35%. 

 

Todavia, apesar do crescimento dos meios digitais face aos tradicionais, a Televisão continua a ser a principal forma de acesso à informação (58%), seguindo-se a Internet (30.9%), a Rádio (5.8%) e, por último, a Imprensa (3.8%).

 

O relatório revela, ainda, uma situação preocupante: existem cada vez mais pessoas a evitar o consumo de notícias, sendo que 65,9% o fazem pelo menos ocasionalmente. 

 

Aproximadamente 40% dos inquiridos demonstrou cansaço face à quantidade de notícias com que se deparam, criticando o tom escolhido no seu tratamento. 

 

O consumo de notícias através das redes sociais verificou, também, um aumento, principalmente através de apps de mensagens, como é o caso do Whatsapp.

 

Facebook é a rede social mais utilizada pelos portugueses (76.9%), sendo a mais usada para consumo de notícias (52.9%). O acesso a notícias através do site ou de aplicações noticiosas registou uma quebra.

 

Assim, as redes sociais são hoje, para mais de ¼ da população (26.3%), a forma de acesso preferida a notícias online, pois apenas 1/5 da população acede como primeira opção a aplicações ou sites de notícias.

 

“Metade dos portugueses inquiridos afirma que consulta fontes alternativas para verificar se um dado acontecimento está a ser noticiado da mesma forma (51.1%), sendo também comum decidir não partilhar uma notícia por desconhecimento acerca da fiabilidade da cobertura noticiosa (43.1%). Ainda assim, um em cada dez portugueses admite não ter qualquer atitude em relação a conteúdos suspeitos.”

 

A organização alerta para o facto de os “conteúdos simplificados numa imagem ou trecho de vídeo, quando não acompanhados da notícia que fornece o contexto, serem em si uma fonte de desinformação que é necessário evitar”.

 

Uma forma de combate contra a desinformação é o fact checking, que existe em dois modelos, o newsroom model e o independent NGO model. A distinção deve-se às diferenças dos sistemas político-mediáticos. 

 

newsroom model representa organizações de fact-checking associadas aos meios de comunicação social previamente existentes (legacy media). O modelo independente NGO model, mais concentrado no sul e leste da Europa, resulta da formação de organizações não governamentais para projectos, tendo uma maior independência editorial.

 

Apesar de constituírem uma excelente forma de fazer face à desinformação, os fact checkers podem ter algumas limitações, devidas a tentativas de instrumentalização por grupos coordenados para credibilizar determinadas notícias, eventualmente de interesse político.

 

Outro meio de combate à desinformação é o aumento da literacia mediática, pois permite desenvolver a capacidade de os cidadãos reconhecerem e identificarem notícias falsas.

 

“Um índice construído para medir a literacia mediática na Europa, usando indicadores de liberdade dos media, educação e confiança, revela que os países nórdicos (Finlândia e Dinamarca) são os mais resilientes ao impacto da desinformação, estando os países dos Balcãs (como a Macedónia ou a Albânia) no extremo oposto. Portugal aparece um pouco acima do meio da tabela, em 15º lugar entre os 35 avaliados, sendo que o pior indicador é a percentagem de população com ensino superior.” 

 

O jornalismo colaborativo é outro caso que também surgiu como resposta ao combate da desinformação. Este tipo de jornalismo promove as relações entre profissionais do sector, através da procura conjunta de soluções para o financiamento e estabilidade económica e de iniciativas comuns.

 

Mais informação em Obercom.

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



ver mais >
Opinião
Uma crise sem precedentes
Dinis de Abreu
No meio de transferências milionárias, ao jeito do futebol de alta competição, em que se envolveram dois operadores privados de televisão, a paisagem mediática portuguesa, em vésperas da primeira  “silly season” da “nova normalidade”, está longe de respirar saúde e desafogo. Se a Imprensa regional e local vive em permanente ansiedade, devido ao sufoco financeiro que espartilha a maioria dos seus...
O discurso de ódio na internet
Francisco Sarsfield Cabral
A democracia pode e deve defender-se dos seus adversários. Mas nunca violando o seu próprio princípio de liberdade de expressão. Essa é uma fragilidade da democracia, mas também a sua grandeza. Segundo a comunicação social, o discurso de ódio e de incitamento à violência na internet vai ser alvo de um concurso a lançar pelo Governo. O concurso visa contratar universidades e centros de investigação...
De acordo com Carlos Camponez , o «jornalismo de proximidade», porque realmente está mais próximo dos leitores da comunidade onde se integra, pode desempenhar um papel fundamental, «assumindo uma perspetiva de compromisso no incentivo à vida pública». Neste contexto, aquele investigador aponta para a ideia da criação de uma agenda do cidadão, o que, por sua vez, «obriga a que os media invistam em técnicas...
Uma certeza que nasceu nos últimos meses é a facilidade com que as pessoas mudam de hábitos. Em consequência o comportamento face ao consumo de conteúdos está a modificar-se cada vez de forma mais rápida e os mais novos são claramente os que com maior facilidade adoptam novidades. Durante o confinamento e a explosão de uso da internet houve uma aplicação que ganhou destaque em todo o mundo – o Tik Tok. Trata-se...
Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena