Quarta-feira, 5 de Agosto, 2020
Media

A era digital veio complicar a narrativa jornalística

A era digital e a revolução tecnológica vieram alterar o panorama do jornalismo. Se, anteriormente, os jornalistas apenas tinham de  preocupar-se com o conteúdo produzido na redacção onde trabalhavam, hoje, terão de manter-se competitivos com outras plataformas, e escrever com base nos artigos de outros jornais.

Muitos jornalistas, da chamada “velha guarda”, ainda não  conseguiram adaptar-se à nova realidade, e continuam a depender de uma cultura profissional baseada num jornalismo linear e sequencial, o que impede, por vezes, a tão desejada diversidade dos formatos de apresentação informativa.

O jornalista Carlos Castilho, especializado em “media” digitais, escreveu um artigo para o “Observatório da Imprensa”, no qual reflecte sobre a urgência de adaptação aos novos modelos. 

De acordo com Castilho, hoje, o  jornalismo tende a ser praticado num conjunto de plataformas integradas, onde o sucesso de uma depende do êxito das demais. As novas tecnologias de informação e da comunicação geraram, igualmente, uma violenta concorrência pela atenção dos leitores.

A narrativa jornalística, antes submetida a uma “camisa de forças”, pelas limitações das tecnológicas, pode, agora, assumir diferentes formas. Alguns projectos jornalísticos já exploram, inclusive, a apresentação de dados, factos e eventos em formato de jogos “online”.

Da mesma forma, o jornalista deixou de ser a referência exclusiva em matéria de desenvolvimento de narrativas. Actualmente, os profissionais estão condicionados por novos actores nos processos informativos, entre os quais programadores, gestores de redes sociais e produtores de conteúdo multimédia. Todos esses agentes passaram a interferir, directa ou indirectamente, no desenvolvimento de um discurso jornalística, limitando o papel do repórter ou editor.

A herança da era analógica do jornalismo levou muita “boa gente”  a apostar, inocentemente, na integração de redes sociais, no “site” dos “media”, afirma Castilho. O objectivo era conduzir o público do Facebook a conteúdos noticiosos, mas a iniciativa fracassou.

Muitos jornais acharam, que se incorporassem o Facebook à sua plataforma de publicação de notícias, o fluxo de visitantes aumentaria. O esquema não funcionou, visto que as partes envolvidas estavam mais interessadas em captar leitores, do que numa cooperação editorial. Além disso, estava em causa a questão financeira e a divisão da faturação publicitária.

Para produzirem notícias e disputarem a atenção do público, os editores devem, agora, montar uma página “web”, criar uma conta no Twitter, ter um conta no Facebook e no YouTube. A notícia deverá ser distribuída entre plataformas, em versões diferentes, para aproveitar as vantagens disponibilizadas por cada uma delas. Assim, o exercício do jornalismo na era digital tende a ser  mais complexo, visto que as notícias já não são lineares.

Se, por um lado, a complexidade noticiosa vai exigir muita sensibilidade social e capacidade de ligar informações, por outro, o resultado do trabalho dos profissionais envolvidos na produção de uma notícia terá a capacidade de gerar um envolvimento muito maior do que na era do papel. 

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Opinião
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Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena