Sábado, 15 de Agosto, 2020
Opinião

O mau jornalismo é como a má moeda

por Graça Franco

Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo?

Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais. Daí que se torne um bocadinho irritante que o conselho deontológico do Sindicato dos Jornalistas se refugie numa espécie de “recordatórias”, enviadas às direções de informação, ora sob a forma de notas ora sob a forma de cartas abertas a pretexto da Covid-19 para, em menos de um mês, alertar repetidamente para que as direções de informação, dos vários meios, velem pelo escrupuloso cumprimento das mais básicas regras da profissão por parte dos seus jornalistas. 


É caso para perguntar: esta repetida pedagogia deve-se exactamente a quê? Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? 

Não querem chamar os “bois pelos nomes” e temem que acabemos todos num pântano onde nos afogamos coletivamente reciclados com o lixo das redes sociais? Se sim, cabe informar então que, lamentavelmente, descobriram tarde e o risco é grande. Cada vez maior. Nisso têm toda a razão. No jornalismo como na economia “a má moeda” acaba por eliminar “a boa moeda”. Não é novo e já está a acontecer. 

E o público foge e começa a estar farto? Pois. E começa a tomar a parte pelo todo? Sem dúvida. Daí o desafio: não ceder. Não ceder. Não ceder. Escrutinar ainda mais. Não cair na voracidade de ser sempre os primeiros. Não dar voz ao falso, para corrigir de imediato. Em “fact check” logo a seguir as próprias notícias. 

Deixar que o público (que pode ser ignorante mas raramente é totalmente parvo) acabe a distinguir as “fake news” das “news”. Lembram-se do “acredite se vir no Expresso!”. Pois, por cá já vão 83 anos de rádio, a escrever-se com dois RRs. Erramos. Claro. Mas é a excepção. Para isso fartamo-nos de trabalhar. Com muito gozo. 

E é assim a maioria? Acreditamos. E mesmo sendo assim, a profissão corre riscos? Evidentemente. E a culpa é mesmo nossa. É. Mas, a cada um a sua parte. Aqui não nos apetece carregar às costas a culpa de todos. Bem basta a nossa justa parte. Porque, repito, longe de nós estar isentos de culpas nos erros cometidos diariamente no trabalho que é por definição difícil de nos aproximarmos o mais possível do conteúdo e do tom certo. 

A 23 de Março, em plena crise “covíiica” confesso que me passou ao lado a primeira nota do conselho deontológico. Lemos em diagonal a mensagem. Melhor, devemos ter tido aquela visão positiva e achado que valia a pena fazer um alerta geral para recordar que entre mortos e feridos é conveniente não exagerar. A mim especialmente passou-me totalmente ao lado. 

Todos nós sabemos que o estilo tablóide, genialmente praticado em Portugal, sobretudo na fórmula televisiva, entre tanta desgraça encontra o clima ideal para puxar às audiências. À comoção óbvia. Ao pânico generalizado. À lágrima fácil. E ao equilíbrio quase impossível entre emoção genuína e sensacionalismo abominável. Quase sempre a balança inclina-se para o lado errado. 

O sindicato e o nosso conselho deontológico têm razões para que lhe soem aos ouvidos todos os alarmes. Vale a pena alertar que não vale tudo? Claro.
 

A Comissão de Carteira talvez possa, também, por uma vez, levantar-se do seu cadeirão e fazer “zapping” para, aqui e ali, ver se as regras do jornalismo não estão a ser estraçalhadas. Talvez já seja altura. Com “covid”, ou sem ele, a dita Comissão servir para mais alguma coisa que não seja cobrar, como diria Durão Barroso, uma “pipa de massa” por cada dia de atraso na renovação dos títulos profissionais e registar a sua suspensão. Mas que tenho eu a ver com isso? Tudo. Porque não somos todos iguais e é efectivamente irritante que quem faz do atropelo profissão não seja, pelo menos, identificado claramente nas “recordatórias”. 

Claro que ao conselho deontológico não cabe o papel da ERC. Embora desta também não se veja o que anda a fazer dos seus poderes de penalização dos infractores. É, todavia, manifesto que qualquer intenção de interromper a inércia não passa por ela. Nem agora, nem nunca valha a verdade. Tenho mesmo a vaga impressão de que, naquele órgão “buroco-sentadinho” tudo o que seja agitar as águas é mais cadastro do que currículo. 

Gente como Mário Mesquita, a quem devo como professor e depois como diretor, nos primeiros cinco anos da minha carreira, muito do que aprendi e ainda hoje sou, parecem tolerados como uma espécie de sapo engolido pela própria máquina a contragosto. Não se lhes vê a força nem se lhes sente o génio. À casa aplica-se a máxima chinesa:” prego que se destaca, deve ser martelado”. 

Não gosto de tanta passividade na regulação do setor. Pergunto, a mim própria, porque é que de repente também não gosto de tanta pró-atividade sindical. De ver, esta espécie de bicos de pés permanente, dos educadores ético-deontológicos. Sobretudo, pergunto-me porque me irritou, sem outro motivo aparente, esta carta aberta de segunda-feira, e não a primeira “recordatória”. 

Primeiro, comecei por pensar (mea culpa, mea culpa, mea culpa…) que ali havia coisa. Talvez um excesso de interiorização do discurso da infatigável DGS. O que raio é isto, outra vez? Será que alguém anda aí a empolar o número de mortos? A confrontar, em excesso, autarquias e sites governamentais à caça de contradições? A fomentar divisões em tempo de “união nacional”. Ou seja, temi que se tratasse de uma versão “soft” ao mais puro estilo de “suspenda-se lá por um bocadinho a democracia” e já que a oposição foi de férias reduza-se lá esta mania de “fomentar” o cultivo das fontes alternativas. Supus que o apelo era sobretudo a que, em uníssono, passássemos a falar, a uma só voz, como a Dra. Graça Freitas. Com este mau pensamento estive à beira do chilique. Depois, respirei fundo e percebi que estava a inventar teorias conspirativas influenciada pelo ambiente “covidico”. A mensagem enviada não apelava a nada disso. 

O fim do alerta do conselho deontológico era mesmo o oposto. Tratava-se, tão só, de por uma segunda vez, voltar a dizer o já dito. Repetir que cabe mesmo às direções de informação, dos vários órgãos de comunicação, impor o óbvio: a não exploração da desgraça alheia. A não criação de um clima de medo e pânico injustificado junto de uma população já de si fragilizada como nunca esteve até aqui. 

Dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Sem querermos arvorar-nos em educadores do povo nem em profetas da desgraça. Uma chamada de atenção aos jornalistas para que sejamos isso mesmo. Jornalistas. 

Nem pregadores, nem magos, nem uma espécie de Caretos à solta, fora do sítio e do tempo a dançar por entre ruas desertas a espalhar o medo e alimentando-nos do cheiro a morte. Nem agentes de segurança, nem servidores de causa nenhuma, simples prestadores de puro serviço público sem fingir que isso se confunde com a caça às audiências, ou seja, com o “interesse do público”. Sim, para quem não saiba os jornalistas são sempre parte da protecção civil. Não precisam ser requisitados para o efeito. 

Porque me irritou então tanto a segunda mensagem do conselho deontológico recebida a dizer mais ou menos isso? Apenas porque não somos todos iguais. Não precisamos todos de puxões de orelhas ou o equivalente. Não reivindicamos nenhum atestado de bom comportamento (não me entendam mal…). Não queremos. Dispensamos. Mas também dispensamos receber recadinhos na caixa de correio que nos parecem bater à porta errada. 

Da próxima ou dizem os nomes e as coisas, para ficarmos mais esclarecidos, ou chamam as coisas pelos nomes e só os faltosos enviam as carapuças. 

Por esta ainda passa. E já agora desculpem qualquer coisinha… que o teletrabalho é difícil para todos e três empresas, um estudante do 12º ano, e um estagiário confinado, a coexistir no mesmo espaço, tanto tempo, pode sempre toldar-nos a lucidez. Obrigada pela recordatória, querido Conselho. Mas talvez chegue, não? 

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena