Segunda-feira, 21 de Junho, 2021
Opinião

O mau jornalismo é como a má moeda

por Graça Franco

Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo?

Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais. Daí que se torne um bocadinho irritante que o conselho deontológico do Sindicato dos Jornalistas se refugie numa espécie de “recordatórias”, enviadas às direções de informação, ora sob a forma de notas ora sob a forma de cartas abertas a pretexto da Covid-19 para, em menos de um mês, alertar repetidamente para que as direções de informação, dos vários meios, velem pelo escrupuloso cumprimento das mais básicas regras da profissão por parte dos seus jornalistas. 


É caso para perguntar: esta repetida pedagogia deve-se exactamente a quê? Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? 

Não querem chamar os “bois pelos nomes” e temem que acabemos todos num pântano onde nos afogamos coletivamente reciclados com o lixo das redes sociais? Se sim, cabe informar então que, lamentavelmente, descobriram tarde e o risco é grande. Cada vez maior. Nisso têm toda a razão. No jornalismo como na economia “a má moeda” acaba por eliminar “a boa moeda”. Não é novo e já está a acontecer. 

E o público foge e começa a estar farto? Pois. E começa a tomar a parte pelo todo? Sem dúvida. Daí o desafio: não ceder. Não ceder. Não ceder. Escrutinar ainda mais. Não cair na voracidade de ser sempre os primeiros. Não dar voz ao falso, para corrigir de imediato. Em “fact check” logo a seguir as próprias notícias. 

Deixar que o público (que pode ser ignorante mas raramente é totalmente parvo) acabe a distinguir as “fake news” das “news”. Lembram-se do “acredite se vir no Expresso!”. Pois, por cá já vão 83 anos de rádio, a escrever-se com dois RRs. Erramos. Claro. Mas é a excepção. Para isso fartamo-nos de trabalhar. Com muito gozo. 

E é assim a maioria? Acreditamos. E mesmo sendo assim, a profissão corre riscos? Evidentemente. E a culpa é mesmo nossa. É. Mas, a cada um a sua parte. Aqui não nos apetece carregar às costas a culpa de todos. Bem basta a nossa justa parte. Porque, repito, longe de nós estar isentos de culpas nos erros cometidos diariamente no trabalho que é por definição difícil de nos aproximarmos o mais possível do conteúdo e do tom certo. 

A 23 de Março, em plena crise “covíiica” confesso que me passou ao lado a primeira nota do conselho deontológico. Lemos em diagonal a mensagem. Melhor, devemos ter tido aquela visão positiva e achado que valia a pena fazer um alerta geral para recordar que entre mortos e feridos é conveniente não exagerar. A mim especialmente passou-me totalmente ao lado. 

Todos nós sabemos que o estilo tablóide, genialmente praticado em Portugal, sobretudo na fórmula televisiva, entre tanta desgraça encontra o clima ideal para puxar às audiências. À comoção óbvia. Ao pânico generalizado. À lágrima fácil. E ao equilíbrio quase impossível entre emoção genuína e sensacionalismo abominável. Quase sempre a balança inclina-se para o lado errado. 

O sindicato e o nosso conselho deontológico têm razões para que lhe soem aos ouvidos todos os alarmes. Vale a pena alertar que não vale tudo? Claro.
 

A Comissão de Carteira talvez possa, também, por uma vez, levantar-se do seu cadeirão e fazer “zapping” para, aqui e ali, ver se as regras do jornalismo não estão a ser estraçalhadas. Talvez já seja altura. Com “covid”, ou sem ele, a dita Comissão servir para mais alguma coisa que não seja cobrar, como diria Durão Barroso, uma “pipa de massa” por cada dia de atraso na renovação dos títulos profissionais e registar a sua suspensão. Mas que tenho eu a ver com isso? Tudo. Porque não somos todos iguais e é efectivamente irritante que quem faz do atropelo profissão não seja, pelo menos, identificado claramente nas “recordatórias”. 

Claro que ao conselho deontológico não cabe o papel da ERC. Embora desta também não se veja o que anda a fazer dos seus poderes de penalização dos infractores. É, todavia, manifesto que qualquer intenção de interromper a inércia não passa por ela. Nem agora, nem nunca valha a verdade. Tenho mesmo a vaga impressão de que, naquele órgão “buroco-sentadinho” tudo o que seja agitar as águas é mais cadastro do que currículo. 

Gente como Mário Mesquita, a quem devo como professor e depois como diretor, nos primeiros cinco anos da minha carreira, muito do que aprendi e ainda hoje sou, parecem tolerados como uma espécie de sapo engolido pela própria máquina a contragosto. Não se lhes vê a força nem se lhes sente o génio. À casa aplica-se a máxima chinesa:” prego que se destaca, deve ser martelado”. 

Não gosto de tanta passividade na regulação do setor. Pergunto, a mim própria, porque é que de repente também não gosto de tanta pró-atividade sindical. De ver, esta espécie de bicos de pés permanente, dos educadores ético-deontológicos. Sobretudo, pergunto-me porque me irritou, sem outro motivo aparente, esta carta aberta de segunda-feira, e não a primeira “recordatória”. 

Primeiro, comecei por pensar (mea culpa, mea culpa, mea culpa…) que ali havia coisa. Talvez um excesso de interiorização do discurso da infatigável DGS. O que raio é isto, outra vez? Será que alguém anda aí a empolar o número de mortos? A confrontar, em excesso, autarquias e sites governamentais à caça de contradições? A fomentar divisões em tempo de “união nacional”. Ou seja, temi que se tratasse de uma versão “soft” ao mais puro estilo de “suspenda-se lá por um bocadinho a democracia” e já que a oposição foi de férias reduza-se lá esta mania de “fomentar” o cultivo das fontes alternativas. Supus que o apelo era sobretudo a que, em uníssono, passássemos a falar, a uma só voz, como a Dra. Graça Freitas. Com este mau pensamento estive à beira do chilique. Depois, respirei fundo e percebi que estava a inventar teorias conspirativas influenciada pelo ambiente “covidico”. A mensagem enviada não apelava a nada disso. 

O fim do alerta do conselho deontológico era mesmo o oposto. Tratava-se, tão só, de por uma segunda vez, voltar a dizer o já dito. Repetir que cabe mesmo às direções de informação, dos vários órgãos de comunicação, impor o óbvio: a não exploração da desgraça alheia. A não criação de um clima de medo e pânico injustificado junto de uma população já de si fragilizada como nunca esteve até aqui. 

Dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Sem querermos arvorar-nos em educadores do povo nem em profetas da desgraça. Uma chamada de atenção aos jornalistas para que sejamos isso mesmo. Jornalistas. 

Nem pregadores, nem magos, nem uma espécie de Caretos à solta, fora do sítio e do tempo a dançar por entre ruas desertas a espalhar o medo e alimentando-nos do cheiro a morte. Nem agentes de segurança, nem servidores de causa nenhuma, simples prestadores de puro serviço público sem fingir que isso se confunde com a caça às audiências, ou seja, com o “interesse do público”. Sim, para quem não saiba os jornalistas são sempre parte da protecção civil. Não precisam ser requisitados para o efeito. 

Porque me irritou então tanto a segunda mensagem do conselho deontológico recebida a dizer mais ou menos isso? Apenas porque não somos todos iguais. Não precisamos todos de puxões de orelhas ou o equivalente. Não reivindicamos nenhum atestado de bom comportamento (não me entendam mal…). Não queremos. Dispensamos. Mas também dispensamos receber recadinhos na caixa de correio que nos parecem bater à porta errada. 

Da próxima ou dizem os nomes e as coisas, para ficarmos mais esclarecidos, ou chamam as coisas pelos nomes e só os faltosos enviam as carapuças. 

Por esta ainda passa. E já agora desculpem qualquer coisinha… que o teletrabalho é difícil para todos e três empresas, um estudante do 12º ano, e um estagiário confinado, a coexistir no mesmo espaço, tanto tempo, pode sempre toldar-nos a lucidez. Obrigada pela recordatória, querido Conselho. Mas talvez chegue, não? 

Connosco
A coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker distinguida com Prémio Helena Vaz da Silva Ver galeria

A coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker venceu a edição deste ano do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural. Este reconhecimento presta homenagem à contribuição excepcional de Anne Teresa para a disseminação da cultura e dos valores europeus através da dança.

Este prémio europeu, instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura (CNC) em cooperação com a Europa Nostra e o Clube Português de Imprensa (CPI) recorda a jornalista, escritora, activista cultural e política portuguesa, Helena Vaz da Silva, bem como a sua contribuição para a divulgação do património cultural e dos ideais europeus.

É atribuído, anualmente, a um cidadão europeu, cuja acção se destaca pela salvaguarda do património cultural, entendido no seu sentido mais amplo.

Este ano, o júri do prémio atribuiu, também, um Reconhecimento Especial à escritora italiana, de origem arménia, Antonia Arslan.

Reagindo à notícia de que tinha sido galardoada, Anne Teresa De Keersmaeker disse estar agradecida ao júri do prémio e a tudo o que a Europa lhe proporcionou.

“Quero agradecer ao Júri ter-me escolhido para o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva. A honra é toda minha e evidencia as profundas dívidas que acumulei para com o panorama cultural europeu em geral e para com Lisboa e Portugal em particular”, disse.

Nascida em 1960, Anne Teresa estudou dança na Escola Mudra, em Bruxelas, e na Tisch de Nova Iorque. Em 1980, criou o seu primeiro trabalho coreográfico.

Dois anos depois, estreou “Fase, Four Movements to the Music of Steve Reich” e, em 1983, Anne Teresa estabeleceu a companhia de dança Rosas e criou o espetáculo “Rosas danst Rosas”.

Com a companhia de dança, construiu um vasto conjunto de espectáculos que abordam estruturas musicais e partituras de todas as épocas, da música antiga à contemporânea, passando por expressões populares.

A sua linguagem e prática coreográficas são inspiradas em geometria e em modelos matemáticos, no estudo do mundo natural e em estruturas sociais.

Em 2020, criou uma nova coreografia para o musical “West Side Story”, na Broadway, e começou a trabalhar na peça “Dark Red”, uma série de coreografias pensadas para o espaço de um museu.

Obercom conclui que subscrições “online” não compensam quebra de circulação de jornais Ver galeria

A pandemia impulsionou grandes mudanças no sector dos “media”, obrigando as publicações de todo o mundo a acelerarem a sua digitalização e a repensarem o modelo de negócio.

O mesmo aconteceu em Portugal, onde o Obercom se dedicou a acompanhar a evolução das dinâmicas do mercado da imprensa escrita, com o objectivo de perceber o nível de sustentabilidade das publicações e as suas alterações futuras.

No seu mais recente relatório, “A Imprensa em Portugal – Desempenho e indicadores de gestão 2008- 2020”, o Obercom recorreu a estatísticas sobre a circulação de jornais e revistas, para analisar dados relativos às publicações “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Diário Económico”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.

Com isto, o Obercom chegou à conclusão de que o fim do suporte em papel pode estar para breve e de que, apesar da aceleração do processo digital, as subscrições “online” não são suficientes para colmatar a quebra da circulação de jornais.

O relatório começa por recordar que a intensificação da produção, disseminação e consumo de informação no formato ‘online’ tem vindo a substituir os hábitos de consumo da informação no formato físico, levando à gradual diminuição da circulação impressa paga, fenómeno que, com a chegada da crise pandémica, veio a agravar-se.

Os resultados analisados neste relatório sugerem, assim, a agudização da crise da venda de jornais em banca, em virtude do período pandémico. Significa isto que, em 2020, a queda no volume de circulação impressa paga é a pior entre todos os anos analisados.

Comparando os resultados obtidos entre 2008, o primeiro ano da análise, e 2020, podemos constatar que houve uma quebra bruta de mais de 64% da circulação impressa paga. Perante estes dados o Obercom acredita que, até 2027, o formato físico do jornal poderá desaparecer.

De sublinhar, neste âmbito, que as maiores quedas se registam durante o período pandémico, com valores extremamente negativos para todas as publicações, com excepção do jornal “Expresso”.

Da mesma forma, e a acompanhar o ritmo de queda da circulação impressa paga, também o volume de tiragens diminuiu.

Isto afectou, igualmente, o Índice de Eficiência de Publicação, um indicador que permite perceber o excedente que resulta da diferença entre o número de exemplares impressos e o número de exemplares vendidos.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Jun
Presentación del Digital News Report España 2021
12:30 @ Conferência "Online" da Universidade de Navarra
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09:00 @ Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
28
Set
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09:00 @ Taipei, Taiwan