Terça-feira, 11 de Agosto, 2020
Media

Quando se equaciona a crise das democracias à luz da crise dos "media"

A situação delicada dos “media” costuma ser abordada segundo uma narrativa comum: à crise financeira de 2008, que afectou todos os sectores da sociedade, aliou-se a descredibilização da imprensa e os ataques, constantes, ao papel dos jornalistas, o que pôs em risco a sobrevivência da imprensa.

Nessa narrativa, a era digital é “acusada” de ameaçar o modelo de negócio dos jornais, que tiveram dificuldade em obter receitas, já que os artigos noticiosos passaram a estar disponíveis, gratuitamente, na internet.

A deterioração da imprensa não é, contudo, um fenómeno recente, reiterou o jornalista Jacob Weisberg, num artigo publicado no “Foreign Affairs” e reproduzido nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM -- associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

 Da mesma forma, a “saúde” das democracias está, há vários anos, sob ameaça, já que uma imprensa mais frágil pressupõe a debilitação da pluralidade dos “media” e, consequentemente, um sufrágio menos informado.

Numa tentativa de traçar quais serão os próximos passos dos “media” , Weisberg tratou de recolher testemunhos sobre as histórias dos jornais anglo-americanos, apontando alguns casos de sucesso e  “fazendo luz” sobre uma possível fórmula para reverter a crise do sector.

Como recorda Weisberg, o jornalismo atingiu a sua “época dourada” entre as décadas de 1960 e 1970. Durante este período os jornalistas eram encarados como verdadeiros heróis, os detentores do quarto poder, que esmiuçavam questões disruptivas como a Guerra do Vietname.


Os repórteres alcançaram, assim,  um certo prestígio.


Na década de 1980, porém, este fenómeno teve um efeito “boomerang”, com as forças políticas a começarem a questionar as acções dos “media”


Tudo isto dificultou a gestão das redacções nas décadas seguintes. Se, por um lado, os editores tinham que lidar com os egos dos colaboradores de maior prestígio, por outro, o Governo começou a minar a credibilidade dos jornais.


Ao mesmo tempo, a emergência da Internet e das redes sociais fez com que gerir um jornal passasse a ser algo mais abstracto, uma luta em todas as frentes. 


Weisberg toma o exemplo de Alan Rusbridger, que descreveu as suas experiências enquanto editor de um título, num período de pressão e descontrolo crescentes. 


Rusbridger assumiu o leme do “Guardian” em 1995 e comprometeu-se com a Internet, mesmo quando não era claro o que isso significaria. Em vez de se concentrar na potencial perturbação do negócio, Rusbridger viu uma oportunidade para o jornalismo.  


O “Guardian”, originalmente sediado em Manchester, e apenas um dos dez principais jornais britânicos em termos de circulação, podia, agora, chegar a um público global. 


Como responsável de negócios, a reputação da Rusbridger é, no entanto, mais questionável. O jornalista foi ridicularizado por assumir que, enquanto não houvesse uma forma clara de um jornal ser jornalisticamente sólido e financeiramente rentável, a empresa teria de viver com grandes perdas. 


Mas, em retrospectiva, considera o autor, pode dizer-se que a sua visão foi justificada. Hoje, o “Guardian” é um dos títulos mais importantes do mundo, o que não teria sido possível caso Rusbridger não tivesse dedicado os seus esforços à Internet da forma como o fez. 


Ora, se no final da década de 90 a prosperidade dos jornais dependia da inovação e do sacrifício, hoje, o sucesso de um título assenta na sua qualidade e na profundidade com que esmiúça o panorama político.


Isto porque o insultos do Trump aos “media” fizeram com que os leitores começassem a demonstrar uma maior disposição para pagarem por conteúdos fidedignos.


Os insultos verbais nocivos do Trump aos “media”, tiveram um efeito quase contraditório, fazendo com que as audiências passassem a prezar melhor o jornalismo.


Para Weisberg, é ainda demasiado cedo para dizer que a crise do jornalismo e da credibilidade são “águas passadas”.


Ainda não existe um modelo empresarial replicável para todos os “media”, mas, o que parece estar a funcionar é uma variedade de meios híbridos, sem fins lucrativos, que preenchem a lacunas de cobertura.


O que as empresas dos jornais mais inovadores parecem ter em comum é alguma forma de apoio financeiro, combinado com a capacidade de agir.


Assim, para Weisberg, cada meio tem de encontrar o seu nicho para sobreviver, razão pela qual a próxima geração de gestores de “media” terá, não só, de dominar a filosofia moral, mas, igualmente, o mundo do negócio.



Leia o artigo original em Cuadernos de Periodistas”

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena