Quarta-feira, 17 de Agosto, 2022
Media

Quando se equaciona a crise das democracias à luz da crise dos "media"

A situação delicada dos “media” costuma ser abordada segundo uma narrativa comum: à crise financeira de 2008, que afectou todos os sectores da sociedade, aliou-se a descredibilização da imprensa e os ataques, constantes, ao papel dos jornalistas, o que pôs em risco a sobrevivência da imprensa.

Nessa narrativa, a era digital é “acusada” de ameaçar o modelo de negócio dos jornais, que tiveram dificuldade em obter receitas, já que os artigos noticiosos passaram a estar disponíveis, gratuitamente, na internet.

A deterioração da imprensa não é, contudo, um fenómeno recente, reiterou o jornalista Jacob Weisberg, num artigo publicado no “Foreign Affairs” e reproduzido nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM -- associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

 Da mesma forma, a “saúde” das democracias está, há vários anos, sob ameaça, já que uma imprensa mais frágil pressupõe a debilitação da pluralidade dos “media” e, consequentemente, um sufrágio menos informado.

Numa tentativa de traçar quais serão os próximos passos dos “media” , Weisberg tratou de recolher testemunhos sobre as histórias dos jornais anglo-americanos, apontando alguns casos de sucesso e  “fazendo luz” sobre uma possível fórmula para reverter a crise do sector.

Como recorda Weisberg, o jornalismo atingiu a sua “época dourada” entre as décadas de 1960 e 1970. Durante este período os jornalistas eram encarados como verdadeiros heróis, os detentores do quarto poder, que esmiuçavam questões disruptivas como a Guerra do Vietname.


Os repórteres alcançaram, assim,  um certo prestígio.


Na década de 1980, porém, este fenómeno teve um efeito “boomerang”, com as forças políticas a começarem a questionar as acções dos “media”


Tudo isto dificultou a gestão das redacções nas décadas seguintes. Se, por um lado, os editores tinham que lidar com os egos dos colaboradores de maior prestígio, por outro, o Governo começou a minar a credibilidade dos jornais.


Ao mesmo tempo, a emergência da Internet e das redes sociais fez com que gerir um jornal passasse a ser algo mais abstracto, uma luta em todas as frentes. 


Weisberg toma o exemplo de Alan Rusbridger, que descreveu as suas experiências enquanto editor de um título, num período de pressão e descontrolo crescentes. 


Rusbridger assumiu o leme do “Guardian” em 1995 e comprometeu-se com a Internet, mesmo quando não era claro o que isso significaria. Em vez de se concentrar na potencial perturbação do negócio, Rusbridger viu uma oportunidade para o jornalismo.  


O “Guardian”, originalmente sediado em Manchester, e apenas um dos dez principais jornais britânicos em termos de circulação, podia, agora, chegar a um público global. 


Como responsável de negócios, a reputação da Rusbridger é, no entanto, mais questionável. O jornalista foi ridicularizado por assumir que, enquanto não houvesse uma forma clara de um jornal ser jornalisticamente sólido e financeiramente rentável, a empresa teria de viver com grandes perdas. 


Mas, em retrospectiva, considera o autor, pode dizer-se que a sua visão foi justificada. Hoje, o “Guardian” é um dos títulos mais importantes do mundo, o que não teria sido possível caso Rusbridger não tivesse dedicado os seus esforços à Internet da forma como o fez. 


Ora, se no final da década de 90 a prosperidade dos jornais dependia da inovação e do sacrifício, hoje, o sucesso de um título assenta na sua qualidade e na profundidade com que esmiúça o panorama político.


Isto porque o insultos do Trump aos “media” fizeram com que os leitores começassem a demonstrar uma maior disposição para pagarem por conteúdos fidedignos.


Os insultos verbais nocivos do Trump aos “media”, tiveram um efeito quase contraditório, fazendo com que as audiências passassem a prezar melhor o jornalismo.


Para Weisberg, é ainda demasiado cedo para dizer que a crise do jornalismo e da credibilidade são “águas passadas”.


Ainda não existe um modelo empresarial replicável para todos os “media”, mas, o que parece estar a funcionar é uma variedade de meios híbridos, sem fins lucrativos, que preenchem a lacunas de cobertura.


O que as empresas dos jornais mais inovadores parecem ter em comum é alguma forma de apoio financeiro, combinado com a capacidade de agir.


Assim, para Weisberg, cada meio tem de encontrar o seu nicho para sobreviver, razão pela qual a próxima geração de gestores de “media” terá, não só, de dominar a filosofia moral, mas, igualmente, o mundo do negócio.



Leia o artigo original em Cuadernos de Periodistas”

Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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