Quarta-feira, 17 de Agosto, 2022
Estudo

Relatório do Obercom sobre tendências nos "media" portugueses confirma declínio da imprensa

Com a entrada na era digital, os “media” portugueses sofreram algumas alterações profundas, que se reflectiram, igualmente, no comportamento das audiências e, mais tarde, no modelo de negócio.

Como tal, durante a última década, o Obercom tem vindo a recolher dados sobre as tendências dos meios de comunicação social, de forma a projectar o futuro do sector em Portugal.

No seu mais recente relatório, intitulado “Análise do Comportamento dos Media”, o Obercom comparou os resultados dos principais meios portugueses, tanto na imprensa escrita, como na rádio e na televisão, entre 2008 e 2019.

No que toca à imprensa, o Obercom concluiu que, em 2019, foram aprofundadas algumas tendências.  As treze publicações analisadas permitiram constatar que, quer no volume de circulação paga, quer no volume de tiragens, registaram-se quebras acentuadas.

Com efeito, em 2019, o valor global  da circulação paga era já menos de metade daquele verificado em 2008. 

No período 2008-2019, o “Diário de Notícias” lidera nas perdas em circulação impressa paga. Contudo, praticamente todas as publicações analisadas diminuiram o volume de vendas em banca, com excepção da revista “Sábado” (+ 1,3%) e do “Jornal Económico” (+56%)

Em relação ao índice de Eficiência das publicações, que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa, continua a verificar-se a liderança do “Expresso” e da revista “Visão”

De salientar que o jornal “Correio da Manhã” é ainda o título com maior distribuição e mais vendas registadas, com o semanário “Expresso” a surgir no segundo lugar.


A intensificação da produção, disseminação e consumo de notícias, no formato “online”, tem contribuído para este declínio do formato físico.


Contudo, apesar de o volume de assinaturas digitais ter estado a subir ao longo dos últimos anos, este crescimento  é, em muitos casos, praticamente residual.


No sector na rádio, o Grupo Media Capital  lidera em nível de “share de audiências”, seguido do Grupo Renascença, Grupo RDP e, em quarto lugar, pelo Grupo TSF. 


Relativamente à análise isolada das rádios, verifica-se que a RFM (Grupo Renascença) se tem mantido como líder em termos de “share” global, mas com uma diferença cada vez menor para a Rádio Comercial ( Media Capital).


A M80 (Media Capital) é a terceira rádio mais ouvida em Portugal, seguida da Rádio Renascença (4º lugar) e da Antena 1 (RDP).


A Rádio Comercial é líder das 6h às 10h e das 17h às 20h, perdendo, no entanto,  para a RFM, no período das 22h-00h. 



No que toca à televisão, verifica-se que o mercado português é, extremamente, competitivo nas dinâmicas de abertura e fecho de canais, com as diversas marcas nacionais a optar por diferentes estratégias de expansão e diversificação de conteúdos.


As marcas históricas (RTP, SIC e TVI) expandiram-se muito para lá das suas lógicas generalistas, em estratégias de valorização de património arquivado, no caso da RTP, e de aposta no entretenimento, no caso da SIC e TVI. Existe, contudo, um traço comum: o género informação.


No caso dos canais informativos, assistimos a diversos “rebrandings”, particularmente na RTP: o que inicialmente era a NTV, passa a ser a RTP Informação para depois ser a RTP 3, numa lógica mais simples, que coloca o projecto informativo a par dos seus canais generalistas, em termos de importância simbólica. 


O género desporto, apesar de ser rentável em termos de atracção de audiências em todos os canais, foi explorado no nicho “premium” pela Sport TV, desde os primórdios da TV por cabo em Portugal. Essa estratégia permitiu que a marca crescesse de forma contínua até 2010 / 2011, altura em que estabilizou o número de canais disponíveis na “grelha”.


O sub-universo das outras marcas é uma paisagem extremamente diversa que inclui desde projectos clubísticos (Benfica TV e Sporting TV) e não clubísticos (A Bola TV), outras apostas informativas de índole regional, como o Porto Canal e a Localvisão TV e marcas como o Canal Q, em funcionamento desde 2010. 


Considerando as marcas estrangeiras, observa-se um crescimento lento desde o período inicial da análise até 2009, e um crescimento abrupto entre 2009 e 2011. 


Note-se que este último sub-universo inclui algumas das marcas mais expressivas do Cabo em Portugal em termos de audiências, como o Canal Hollywood, Canal Panda, Discovery Channel, etc. 


No entanto, o facto de as marcas nacionais terem mais expressão, faz com que todos os canais compitam, ao mesmo nível, com os novos serviços de visualização, como o Netflix e o Youtube.

Leia o artigo original em "Obercom"


Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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