Quarta-feira, 17 de Agosto, 2022
Efeméride

O Clube como plataforma aberta e fórum de debate enriquecedor


Graça Franco

Passaram 40 anos e o que levou à formação do Clube de Imprensa mantém-se estranhamente actual. O sector que ansiava pela possibilidade de uma auto-regulação eficaz continua a identificar o problema, da sua falta, como uma das maiores falhas impeditivas da melhoria da qualidade da liberdade de expressão e pluralismo e das respectivas consequências sobre a qualidade da democracia. O regime que à data da fundação dava ainda os seus primeiros passos, minados pelo fantasma de 48 anos de tentativas de manipulação, silenciamento e censura.

Além do Sindicato dos Jornalistas cuja carga ideológica era, ao tempo, incrivelmente limitadora surgiam, no terreno, vários grupos de jornalistas preocupados em impor novas estruturas de debate, designadamente,  sobre os temas que envolviam a independência do jornalismo, dos poderes políticos e económicos, a qualidade, e a necessidade de públicos e privados acabarem a prestar verdadeiro serviço público. Isenção, objectividade, crise financeira deram mote a múltiplas tertúlias de incrível valor para a melhoria da vida democrática e combate ao corporativismo instalado.

Nessa altura eu estava a dar os primeiros passos no jornalismo, mas partilhava com os mais velhos essas preocupações. Fui assim desafiada pelos vários grupos e tornei-me sócia fundadora do Clube de Imprensa e do Clube de Jornalistas, nascidos praticamente ao mesmo tempo, e uns anos mais tarde do próprio Observatório de Imprensa. Sendo instituições, todas elas de utilidade pública, o Clube Português de Imprensa acabou por se distinguir pela positiva como plataforma aberta aos que não sendo jornalistas pertenciam a órgãos de gestão ou propriedade de jornais. 


Essa coexistência entre a visão de gestores e jornalistas acabou por dar ao Clube uma característica muito própria, tornando-se um fórum de debate particularmente enriquecedor. Desde o início o Clube notabilizou-se em duas vertentes de intervenção: a promoção de encontros debate com as chamadas “fontes de informação”, permitindo a reflexão sobre pontos de interesse geral ou especial complexidade, geralmente no registo de “off record” e a promoção de jornalismo de qualidade com a atribuição dos prémios em várias categorias, a que mais recentemente se juntou o Prémio Carreira. Outros se lhe seguiram com sucesso, mas é justo atribuir ao CPI o pioneirismo absoluto na matéria.

Tivemos, nesta longa actividade, uma linha de comum continuidade, sem a qual o Clube em vez de mostrar uma renovada vitalidade nos últimos anos certamente já teria desaparecido. A inestimável disponibilidade e dedicação do seu director de sempre, o nosso Dinis de Abreu,  que acabou a prolongar a sua passagem pela direcção do Diário de Noticias, o grande jornal de referência na altura, nos mandatos sistematicamente renovados por aclamação e louvor como dirigente do CPI.

Os últimos anos foram ricos de parcerias com o Automóvel Clube de Portugal (parceiro de quase sempre), o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário,  que permitiram ao CPI uma dimensão de convívio cultural particularmente simpático. Ao público clássico de jornalistas e gestores da comunicação vieram somar-se os interessados pelos vários temas em debate. Uma mais-valia.

Num ponto, contudo, falhamos: não se construiu o consenso necessário ao avanço que a maioria defendia para a constituição de uma estrutura do  tipo ordem profissional ( o que eu não lamento, especialmente porque sempre fiz parte da minoria que via a criação da Ordem com algum cepticismo). Como segundo insucesso reconheçamos que não se conseguiu o rejuvenescimento necessário a garantir o futuro da estrutura.

É esse o grande desafio do momento: não deixar que o clube envelheça com os seus criadores. Eu que estava a dar os meus primeiros passados no jornalismo estou agora a aproximar-me dos últimos na profissão. O mundo mudou, entretanto, mas a necessidade de continuar a debater as questões éticas que se impõem e a função que os media são chamados a desempenhar, não só não acabaram como ganharam contornos de ainda muito maior importância. 

No mundo digital, “os cães do guarda da democracia” são mais do que nunca necessários e, convenhamos, são cada vez menos. Os tempos que vivemos no início desta aventura na perspectiva nacional podiam designar-se como tempos interessantes, mas os que actualmente enfrentamos são, na perspectiva da velha expressão chinesa,  tempos  muitíssimo mais “interessantes”. 

Devemos estar gratos por podermos fazer parte destes tempos e seria muito bom que, agora, que os que criaram o CPI sintam  mais do que nunca a plenitude da sua necessidade e utilidade,  não deixando de lutar pelo seu rejuvenescimento. Admitamos com humildade que há entre a nova geração gente infinitamente mais preparada para analisar e construir o futuro. Um futuro que, em múltiplos casos, já se fez presente.

*Presidente da Assembleia Geral do CPI


Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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