Quarta-feira, 17 de Agosto, 2022
Efeméride

Um olhar para amanhã com novas tecnologias e gente dentro

O Clube Português de Imprensa perfaz 40 anos. Durante este período, testemunhou uma mudança irreversível no panorama mediático, caracterizada pela aceleração digital, pela modificação dos padrões de consumo e, consequentemente, pelo desmantelamento de redacções.

Os leitores passaram a consultar as notícias através dos seus dispositivos electrónicos, em detrimento do formato em papel, e os jornalistas tiveram que responder aos anseios por informação imediata.

Registaram-se, igualmente, algumas características indissociáveis do jornalismo em ambiente digital: a interacção entre humano e máquina (‘interactividade’), a combinação de vários textos com a hiperligações (‘hipertextualidade’), a associação entre diferentes meios e formatos (‘multimédia’), a actualização constante e simultânea (‘instantaneidade’), a acumulação de conteúdos ao longo do tempo (‘memória’) e a adaptação dos conteúdos às preferências e aos hábitos dos utilizadores (‘personalização’).

Assim, com as notícias na “ponta dos dedos”, os leitores começaram, progressivamente, a dispensar a visita aos quiosques, para comprar o jornal da sua preferência. As redes sociais tornaram-se a principal fonte de informação para muitos portugueses, alheios aos perigos das “fake news”.

Começou a adivinhar-se o fim do modelo tradicional de negócio e a inevitável crise. A publicidade deixou de ser uma fonte de receitas viável e os jornalistas foram considerados “dispensáveis” por muitos, que descredibilizaram o trabalho exercido nos “media”.

Agora, em 2020, assistimos, ironicamente, a “uma luz ao fundo do túnel”. A pandemia voltou a dar protagonismo à informação fidedigna, indispensável para a saúde pública e bem-estar de todos os cidadãos.

O que poderemos, então, esperar, em termos mediáticos nos próximos 40 anos? Que novas tendências, com força para serem futuro e não se ficam apenas pela espuma dos dias?


É indiscutível que a estrutura dos  “media” foi reinventada: as mensagens jornalísticas passaram a ser encaradas activos ou recursos informativos no quadro de estratégias de produção, venda e distribuição de bens, e as ideias de ‘multimédia’ e de ‘digital’ tornam-se modelos fundamentais de estímulo a um progresso.


E, nestes últimos meses, alguns modelos de negócios registaram um novo vigor. Os leitores, interessados em pagar por conteúdos de qualidade, passaram a subscrever jornais com “paywalls” e a fazer doações a títulos locais.


O trabalho jornalístico tornou-se autónomo, com os profissionais a dedicarem-se a novos formatos de sucesso. As “newsletters” e os “podcasts” informativos conquistaram um número respeitável de seguidores, ao apresentarem conteúdos de “nicho”. O “fact-checking” faz, agora, parte das funções de qualquer colaborador do meio.


Da mesma forma, o papel recebeu um novo fôlego: cientes da crescente popularidade dos “sites” noticiosos, os editores passaram a seleccionar artigos exclusivos para o “formato físico”. E os leitores parecem estar receptivos a esta “atenção” e à “curadoria”.


Apesar das recomendações de distanciamento social, os eventos continuaram a decorrer, mas num formato “híbrido”, que convida os consumidores a participarem numa “experiência única”.


A estrutura da equipa editorial foi, também ela, modificada. Em tempos, os “cubículos” foram substituídos pelos “open spaces”, incentivando a interacção entre colegas das diferentes secções.


Agora, espera-se que o trabalho se realize num regime dual, que combina o tempo passado em regime remoto, a partir de casa, e os dias em que os jornalistas se dirigem à redacção.


Supõe-se, de igual forma, que a Inteligência Artificial assuma um papel relevante na imprensa. 


Até há pouco tempo, estes “robots” cingiam-se a redigir textos breves, sobre a meteorologia ou sobre o resultado de um jogo de futebol.


Porém, mais recentemente, as máquinas passaram a apresentar telejornais na China e escrever ensaios completos no “Guardian”.


Falta-nos, agora, saber qual será o verdadeiro papel da Inteligência Artificial neste “admirável mundo novo”: se, eventualmente, os “robots” substituirão os profissionais, ou se o público continuará a dar preferência à sensabilidade e empatia humanas.


Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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