Terça-feira, 21 de Setembro, 2021
Opinião

Tanto tempo, tanta mudança

por Silva Pires

A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube e importantes na criação das novas referências que mantêm viva a chama do vício de informar.
Afinal, além dos mais velhos, quantos se lembrarão destes grandes mestres e do papel que desempenharam na vida da Imprensa escrita, num tempo em que os jornais tinham outro peso na sociedade e a escrita era também um exercício de habilidades para fintar os coronéis do Palácio Foz?
Pergunto-me se será saudosista a constatação? Admito que sim! Nunca nada continua igual. A mudança é o rumo natural das coisas. Mas esta viagem que nos trouxe à actualidade e só permite conjecturar sobre o futuro, assume contornos ainda não há muito inadmissíveis.
Há 40 anos, alguém previa que a Imprensa escrita pudesse levar tamanha volta? * Seguramente, não! E recorro à lembrança de alguns debates promovidos pela IFRA, já nos anos 90,em que participei com profissionais de toda a Europa, quando se discutia ainda o melhor formato, a mais eficaz apresentação gráfica – também aproveitando a reinvenção da infografia –, e até a sua ligação à estrutura da notícia. Era o jornal do futuro! Tão diferente que nos Estados Unidos houve quem nem resistisse às regras editoriais do inovador USA Today e a uma política que impunha diversas “entradas” por notícia. (“Os mais velhos não se adaptaram”, disse-me um editor do diário na Redacção de Washington.)

Pairavam então já algumas ameaças, a preocupação era tornar o jornal num produto mais vivo, mais apelativo, colorido como a televisão, capaz de ser tão interventivo quanto ela, mas também mais profundo, rigoroso e sério.
De todo o modo, numa sociedade reconhecidamente em mudança acelerada depois da revolução tecnológica, não passava por aquelas cabeças, eu incluído, um momento como este em que, simplesmente, está em causa a sobrevivência do jornal como sempre o conhecemos. E para quem não se lembra, primeiro morreu da tipografia, com todos os custos inerentes, depois foram o advento do offset, a informatização das redacções e outra realidade na organização do trabalho, enfim os primórdios da Internet e todo o seu mundo novo.
Gosto pouco de jogar e não faço apostas quanto ao futuro da Imprensa escrita. Vivemos num país que sempre teve poucos leitores e agora tem também cada vez menos jornais e sempre com menor expressão. E a maioria com outras preocupações ditadas por aquilo que verdadeiramente manda e já não preocupa só os gestores: as audiências, os números.
Por isso, lágrimas e sangue já transbordaram despudoradamente do papel dos jornais populares para as televisões, como as estórias do “cor de rosa”; a Imprensa desportiva, outrora pujante, perdeu leitores, numa queda abissal, e campo de manobra para as estações dos clubes. Daí, “televisionar-se” ela própria. Entre as outras publicações especializadas, vão umas atrás das outras para a enorme lista dos títulos encerrados. Ao mesmo tempo, vão surgindo outras edições, essencialmente no formato de revista, que resultam em “sol de pouca dura”, na tentativa de conquistar leitores para interesses vagos e diversos. Já olharam para os escaparates dos quiosques?
Neste quadro, quando as redes sociais se tornaram necessidade do quotidiano para milhares de pessoas e sobretudo uma religião para os mais jovens, que já nem a TV veem, pelo menos em directo, era de admitir que os jornais digitais encontrassem um espaço e a receita capaz torná-los produtos rentáveis. Todos sabemos não ser assim, uma surpresa ao constatarmos que os potenciais anunciantes, capazes de garantir receitas importantes, até canalizam as suas acções promocionais para o digital. Mas, hoje, vale mais um qualquer “influencer”, com milhões de seguidores, do que um jornal… mesmo digital.
Este exercício pessimista, infelizmente carregado de realismo, tem de preocupar aqueles que fizeram do jornalismo profissão. Aqueles, da minha geração, que não viam o seu jornal como emprego de passagem, trampolim para outra actividade mais bem paga e, porventura, menos exigente na disponibilidade. Mas também aqueles que o exercem agora, com dedicação e competência noutra realidade.
Verdade que, hoje, um emprego na Imprensa já não é para a vida. Por ser outra a concorrência e as ambições terem de ser vistas como normais – e até desejáveis. Mas mesmo para usar o jornalismo como um trampolim – e as tentações parecem ser muitas: na política, na publicidade, nas empresas de comunicação e outras, nos clubes de futebol – tem de haver regras. Ora, hoje elas são poucas, no meu entender. Desde logo, as regras deontológicas: e até temos um Código. Mas também os princípios do mais simples bom senso.
E volto ao princípio e à falta de memória. Que passa pelos antigos. Estejam ou não remetidos a prateleiras douradas, cabe-lhes um papel do qual, acho, muitos de demitiram. Eles têm de ser, antes de mais, também os profissionais capazes intervir para corrigir as barbaridades que se veem, ouvem leem, e, pasme-se, repetem-se.
Corrigir não ofende, perguntar também não. Espero que, para quem não conheça as máximas, as universidades possam dar uma ajuda. Nas Redacções, tem de ser uma obrigação. Porque todos erramos…
Era assim quando os jornalistas não tinham a formação académica da geração actual, melhor preparada, espera-se que mais informada, apta para produzir uma informação com mais qualidade. Ora, entre os novos há profissionais competentes, nos jornais na televisão e na rádio, alguns mesmo brilhantes, as novas referências; outros prontos para lhes seguir as pisadas e que devem der incentivados. São profissionais que gostam de conviver com os mais antigos, capazes de levantar dúvidas sobre questões deontológicas, procedimentos e regras, curiosos sobre o passado e preocupados com o futuro.
Falo por experiência própria e o exemplo que me alertou para esta realidade deixou-me surpreendido e muito feliz. Deixou-me a certeza de haver jovens profissionais preocupados com o rigor e coisas tão simples como a credibilidade da fonte ou a necessidade do contraditório, a defesa da imagem, não dando o nome ou a cara pelo que pode estar fora dos princípios da profissão. Eu sei que é o bê-á-bá, mas, por muito daquilo que vimos, ouvimos e lemos chegamos a interrogarmo-nos sobre o que é ensinado em sede de especialização.
Por mim, continuo preocupado com o futuro e 40 anos depois, já não sendo inovador, entendo que continua a fazer sentido o objectivo do Clube Português de Imprensa: “um forum multidisciplinar para reflexão e debate das questões nucleares ao exercício do jornalismo e às boas práticas nos media”.
Faz cada vez mais falta! Até para incentivar o trabalho de qualidade que muitos fazem e combater algum desvario que passa sem reparo.
É que, como aqui escreve Graça Franco, a propósito do Conselho Deontológico e da informação sobre a Covid-19, em Portugal pratica-se “às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo.”
Daí, a importância de não deixar de respeitar e promover a defesa da memória. E de promover e incentivar as novas referências, garantes de uma informação de qualidade e, seguramente, decisivos na construção da memória de amanhã.
É preciso não perder a memória!


*Há 40 anos tinha chegado a televisão a cores, o duplo emprego começava a deixar de ser prática no jornalismo português, a actualidade vivia-se ao ritmo das campainhas dos telexes, finalmente já todos escreviam à máquina, o frasco de cola e a tesoura estavam as secretárias das redacções, o fax era uma novidade, trabalhávamos ao lado de tipógrafos, linotipistas, montadores ,quando a composição era a quente e os jornais se fechavam sobre o mármore num ambiente em que cheirava a tinta, publicavam-se três vespertinos, os desportivos eram trissemanários, a venda ainda passava pelos ardinas, os jornais custavam 10$00 e subiram para 12$50, o “Exame Prévio” (versão da censura de Marcello Caetano) tinha acabado há seis anos… “

Connosco
UE quer proteger a liberdade dos “media” e dos jornalistas... Ver galeria

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou, que vai propor, em 2022, “uma lei sobre a liberdade dos meios de comunicação social”, com o objectivo de garantir a “proteção”, “liberdade” e “independência” dos jornalistas.

“No próximo ano, apresentaremos uma lei sobre a liberdade dos meios de comunicação social. Quando defendemos a liberdade dos nossos ‘media’, estamos também a defender a democracia”, indicou Ursula von der Leyen, durante o discurso do Estado da União, no Parlamento Europeu.

Afirmando que “há jornalistas, homens e mulheres, que são atacados pelo simples facto de fazerem o seu trabalho”, a presidente da Comissão Europeia relembrou os homicídios da jornalista maltesa Daphné Caruana Galizia, do jornalista eslovaco Jan Kuciak e, em Julho deste ano, do holandês Peter de Vries.

“As suas histórias podem ter pequenas diferenças. Mas há algo que têm em comum: todos eles lutaram pelo nosso direito à informação e morreram por defenderem esse direito”, salientou Von der Leyen.

A presidente do executivo comunitário considerou, assim, que a “informação é um bem público” e que é necessário “defender os defensores da transparência, as mulheres e os homens jornalistas”.

“Devemos travar todos aqueles que ameaçam a liberdade dos ‘media’. Os meios de comunicação social não são uma empresa qualquer e a sua independência é fundamental. É por isso que a Europa precisa de uma lei que garanta essa independência”, apontou a presidente do executivo comunitário.

 

... E Bruxelas recomenda aos Estados-membros maior protecção para os jornalistas Ver galeria

A Comissão Europeia quer que as autoridades policiais dos Estados-membros recebam formação para garantir que os jornalistas e outros profissionais dos “media” possam trabalhar em segurança, nomeadamente, durante a cobertura noticiosa de manifestações,.

Além disso, na sua primeira recomendação destinada a reforçar a segurança dos jornalistas e de outros profissionais da comunicação social, o executivo comunitário apelou aos países que investigassem e reprimissem todos os actos criminosos contra jornalistas, recorrendo à legislação nacional e europeia e às autoridades como Europol e Eurojust.

Nesse contexto, indica um comunicado da CE, “os Estados-membros devem promover uma melhor cooperação entre as autoridades responsáveis pela aplicação da lei e os organismos da comunicação social, a fim de poderem identificar e combater, mais eficazmente, as ameaças que pesam sobre os jornalistas, e proporcionar uma protecção pessoal aos jornalistas, cuja segurança esteja ameaçada”.

A Comissão encoraja, ainda, à fomentação da cooperação entre as plataformas em linha e as organizações especializadas no combate às ameaças contra os jornalistas.

“Nenhum jornalista deve perder a vida ou ser ferido devido à sua profissão. Temos de apoiar e proteger os jornalistas, que são elementos essenciais da democracia”, disse a comissária europeia para os Valores e Transparência, Vera Jourova, acrescentando que os Estados-membros são convidados “a adoptar medidas decisivas para tornar a UE um espaço mais seguro”.

 

O Clube


Recomeçamos. A pausa de agosto foi um tempo de análise e de reflexão sobre as delicadas circunstâncias que rodeiam e condicionam os media portugueses e as associações representativas do sector.
Enquanto as redacções encolhem e os jornais lutam pela sobrevivência, as grandes plataformas digitais tornam-se omnipresentes e absorvem a melhor publicidade.
Um estudo da ERC revela que dois terços dos inquiridos utiliza a internet, mas que, depois das televisões, as redes sociais aparecem já como fonte noticiosa preferencial, suplantando os jornais impressos.


A dificuldade da imprensa, com tiragens minguadas, influenciou a principal distribuidora de jornais e revistas no sentido de lançar uma taxa diária a cobrar aos quiosques e outros postos de venda.
Por agora, a cobrança está suspensa, no seguimento de uma providência cautelar aceite pelo tribunal, mas nada garante que o desfecho não venha a penalizar mais ainda a circulação da Imprensa.
A fragilidade das empresas de media agravou a sua dependência, e tornou-as gradualmente mais permeáveis aos desígnios do poder político.
Seja no audiovisual, seja nas publicações impressas, observa-se uma crescente uniformidade noticiosa, a par de uma actuação comprometida com as prioridades da agenda do Executivo.
Neste contexto, as associações do sector não têm a vida facilitada, quer pelo enfraquecimento do mecenato, quer pela apatia já antiga que se nota nos jornalistas no tocante ao associativismo.
Com 40 anos feitos de actividade ininterrupta, o Clube Português de Imprensa tem neste site uma forma de ligação privilegiada com associados e outros profissionais do sector, bem como com os estudantes dos cursos de jornalismo, apoiado em parcerias que são preciosas fontes complementares de informação e de análise.
Por aqui continuamos, com a consciência do desafio e do risco envolventes, e com a noção de partilha e de serviço que nos anima desde o início.


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