Quinta-feira, 11 de Agosto, 2022
Media

Apogeu e declínio do “Jornal do Brasil” sem edição impressa

No dia 9 de Abril, o “Jornal do Brasil”, também conhecido por JB, celebrou o seu 130º aniversário.

Se, em meados do século XX, este era um grande jornal de referência, com uma redacção de centenas de jornalistas, hoje, conta, apenas, com um colaborador fixo, que adapta peças de agências noticiosas.

O auge e o declínio deste título foram recordados pela jornalista Itala Maduell Vieira num artigo publicado no “Observatório da Imprensa” -- associação com a qual o CPI mantém um acordo de jornalismo -- com base em trechos do seu livro “JB, um paradigma jornalístico”.

Vieira começa por recordar que, em 1965, o “Jornal do Brasil” encomendou um documentário ao jornalista e cineasta Nelson Pereira dos Santos, um dos seus redactores. O filme em causa, “Jornal do Brasil, um moço de 74 anos”, reúne imagens “preciosas da rotina na redacção”.

Neste documentário é possível ver repórteres em acção nas ruas, jornalistas a seleccionar títulos e paginadores a retocarem uma das edições do jornal.

No ano seguinte -- notou Vieira -- o JB foi tema de uma reportagem de sete páginas na revista “Realidade”. Em “A aventura da notícia: 24 horas na vida de um jornal”, o repórter Luiz Fernando Mercadante e o fotógrafo Nelson di Rago acompanharam um dia na redacção, mostrando os bastidores daquele “glamouroso” título.

O editor-chefe, Alberto Dines -- fundador do “Observatório da Imprensa” -- é apresentado como “o homem que faz o jornal”.

A equipa era integrada por 50 repórteres no Rio de Janeiro, sucursais em Brasília, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Niterói, correspondentes em quase todas as outras capitais de Estado, 12 redactores de Internacional, dez redactores no Departamento de Pesquisa, e 14 "copy desks”.

Da mesma forma, em Abril de 1971, ao completar 80 anos, foi publicado o “Jornal do JB”, um caderno especial de 16 páginas.

Neste texto, dava-se conta dos 1.561 colaboradores da empresa, entre os quais mais de 400 jornalistas, além de 13 correspondentes no Brasil e sete no estrangeiro (Bonnan, Londres, Nova York, dois em Paris, Roma e Tel Aviv).

Contudo, a realidade presente não podia estar mais distante desse passado glorioso.

Hoje em dia, notou Vieira, a edição do jornal está à responsabilidade do jornalista Marcio Affonso Gomes.


Gomes começou a carreira como estagiário e repórter do caderno JB Niterói, entre 1988 e 1990.


“Já não era a redacção com centenas de repórteres, dezenas de revisores e de correspondentes no país e no exterior e uma frota de carros de reportagem”. Mas, ainda assim, “toda a gente queria trabalhar no JB”, porque “só havia estrelas do jornalismo”.


O jornal, que em tempo foi considerado o “melhor jornal do Brasil”, saiu de circulação em 2019 e conta, apenas, com uma edição “online”.


Gomes assegura as operações em “home office”.


“É complicado, mas apaixonante. Trabalho ‘online’ há tempos, também sou programador e, por gostar bastante, não fico cansado”, afirmou. “A audiência não cai, por incrível que pareça”.


Até porque, “a ordem nesta casa é não parar”.


Leia o artigo original em “Observatório da Imprensa”

 


Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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