Quarta-feira, 17 de Agosto, 2022
Media

Relatório da FIJ denuncia jornalismo como profissão de risco

A Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) publicou, recentemente, o “White Paper on Global Journalism”, que reflecte sobre os atentados contra a imprensa, registados nos últimos 30 anos.

Da mesma forma, o “White Paper on Global Journalism”, dá conta das principais evoluções tecnológicas nos “media”, dedicando, igualmente, dois capítulos aos efeitos da pandemia de covid-19 na imprensa.

O relatório começa por recordar, que, desde 1990, foram assassinados, pelo menos, 2658 jornalistas.

Mais de 50% destes profissionais foram mortos nos dez países mais perigosos para a prática jornalística: Iraque (339 jornalistas assassinados), México (175), Filipinas (159), Paquistão (138), Índia (116), Rússia (110), Argélia (106), Síria (96), Somália (93) e Afeganistão (93).

Em alguns casos, estes números são um reflexo de conflitos internacionais e guerras civis, demonstrando, ainda, que a violência contra jornalistas se tem mantido constante em alguns países.

Os anos mais "sangrentos" para a imprensa foram 2006 e 2007, com 155 e 135 homicídios, respectivamente.

De acordo com o relatório, a maioria dos jornalistas é assassinada por exercer a liberdade de imprensa e reportar sobre casos de violência e corrupção. Noutros casos, como no “Charlie Hebdo”, os homicídios foram justificados com extremismo religioso.

Estes incidentes têm, ainda, consequências indirectas, como o afastamento de profissionais, que temem possíveis repercussões da sua actividade profissional.

Além disso, os atentados contra jornalistas continuam a ser considerados como “crimes de baixo risco”, já que a maioria dos responsáveis nunca é responsabilizada.

Em 2020, registou-se um ligeiro decréscimo do nível de violência contra os profissionais dos “media”, com 42 homicídios de jornalistas, menos sete do que no ano anterior.

Ainda assim, a Federação Internacional de Jornalistas considera que as organizações internacionais devem manter-se alerta, de forma a responsabilizarem governos e autoridades locais.


Neste sentido, a FIJ recorda que, pelo menos, 235 jornalistas estão presos em 34 países, o que reflecte a imposição de restrições à liberdade de imprensa.


Em alguns dos casos, alerta o FIJ, os profissionais foram condenados sem julgamento.


“Estas descobertas reflectem a preocupante realidade dos abusos de governos, que se protegem através da detenção de jornalistas”, afirmou  Anthony Bellanger, secretário-geral da FIJ. “Estes números recordam-nos do preço a pagar por exercer jornalismo e lutar pelo interesse público”.


De acordo com o estudo, a Europa é o continente com o maior número de detenções (91), destacando-se, neste âmbito, a Bielorrússia e a Turquia. Segue-se África, com 62 profissionais presos, a região Ásia Pacífico (42) e o Médio Oriente (33).


A FIJ assinala, por outro lado, que a pandemia veio acentuar as desigualdades no sector dos “media”.


Conforme assinalou o estudo, as mulheres jornalistas estão, agora, sob maior pressão, já que estão a combinar a vida familiar com a vida profissional num único espaço. Isto resultou em maiores níveis de “stress” e ansiedade.


Contudo, o maior problema registado na pandemia passa pelas restrições impostas à imprensa, com três em cada quatro jornalistas a afirmarem ter enfrentando condicionamentos à sua actividade.


Um inquérito realizado junto de 1308 jornalistas concluiu, da mesma forma, que a maioria dos jornalistas “freelancer” perdeu oportunidades de emprego e que mais de um terço dos profissionais passou a focar-se na cobertura da pandemia.


Por outro lado, o FIJ nota que a revolução digital facilitou a cobertura noticiosa sobre a covid-19. Ainda assim, a federação alerta para as condições de trabalho deficientes, bem como para os salários baixos.


Posto isto, a FIJ acredita que os “media” devem assegurar que a informação continua a ser um bem público, essencial para a tomada de decisões e para a manutenção de democracias.


Como tal, a federação considera que, perante todos os desafios, é essencial que os colaboradores em condições precárias sejam protegidos e as redacções apostem na formação de jovens jornalistas.


A FIJ propõe, igualmente, a criação de uma “plataforma mundial para jornalismo de qualidade”, de forma a promover a ética e a sustentabilidade da economia de informação.


Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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