Terça-feira, 26 de Outubro, 2021
Opinião

Não é notícia, é preguiça

por Raquel Abecasis

Uma das coisas que mais me intriga e cansa no jornalismo que se faz atualmente em Portugal é a ausência de sentido crítico, a incapacidade de arriscar e de fazer diferente. Estão todos a correr para dar as mesmas notícias e fazer as mesmas perguntas. E, quando conseguem o objetivo, ficam com a sensação de dever cumprido.
Vem isto a propósito da não notícia que ocupa lugar diário nos títulos da imprensa, dos noticiários das rádios e das televisões. Todos os dias somos brindados com o número mágico das mortes por Covid. 1 morto, 7 mortos, 3 mortos.
Os números dos últimos meses demonstram por si só que o tema já não é notícia, é preguiça de procurar notícias realmente interessantes. Nestes mesmos dias terão morrido o triplo das pessoas com ataque cardíaco, cancro ou outra doença letal.
O mais intrigante nesta escolha editorial é que os mesmos meios de comunicação que ampliam os números das mortes por Covid, escrevem nas páginas ao lado, nas colunas de opinião, que isto não faz sentido, que os números provam que o maior risco passou e que temos de nos habituar a viver com esta, como com outras doenças.

O jornalismo é essencial a uma sociedade democrática. A tal ponto que não é possível haver democracia sem jornalismo livre. O jornalista tem o direito de informar, mas também o dever de entregar essa informação de forma objetiva e enquadrada.

Compete ao jornalismo dotar os leitores, ouvintes ou espetadores dos elementos necessários à formulação de juízos críticos e informados sobre a atualidade. É também isto que ajuda a fazer escolhas informadas.

Vivemos a queixar-nos das fragilidades da nossa democracia, da falta de alternativas políticas e não atribuímos tanta importância à falta de alternativas nos meios de comunicação social. Mas devíamos, porque este é um dos sintomas mais evidentes de um regime que não está de boa saúde.

O Covid é só um exemplo, mas há muitos mais que nos demonstram como o jornalismo faz pouca diferença no país em que vivemos. Falta sentido crítico. Falta investigação. Faltam agendas próprias. Faltam, e muito, perguntas incómodas aos poderes instituídos. Falta assumir o risco de fazer diferente.

É por tudo isto que a Covid e as suas exíguas mortes continuam a ser notícia de primeira página. Afinal de contas é muito mais fácil chegar à redação e já saber quais vão ser as notícias. Difícil é deixar a rotina de lado e encarar cada dia como um desafio à procura das notícias que melhor possam servir o nosso cliente, a nossa audiência.

Estou convencida de que o primeiro órgão de informação que quebrar esta rotina mórbida e inútil do relato diário dos mortos por Covid terá como recompensa um incremento de audiência. Mostra sentido crítico. Para além de que presta um serviço inestimável ao país e ao jornalismo.

(Texto publicado originalmente no Observador)


Connosco
Jornal finlandês troca "cadeados" por "diamantes" para atrair assinantes Ver galeria

Com a era digital, vários jornais passaram a apostar nos conteúdos “online”, recorrendo às “paywalls” para obter receitas.

Este novo modelo de negócio foi introduzido um pouco por toda a Europa, incluindo na Finlândia, onde o jornal “Helsingin Sanomat” conta com a subscrição de 48% de todos os assinantes de produtos noticiosos do país.

Conforme apontou Hanaa Tameez num artigo publicado no “Nieman Lab”, o "Helsingin Sanomat” foi fundado em 1889, quando a Finlândia ainda integrava o Império Russo. Agora, este jornal é detido pelo Grupo Sanoma, que controla 40 outras marcas mediáticas naquele país.

Em 2016, continuou Tameez, os editores do “Helsingin Sanomat” chegaram à conclusão de que a “paywall” não estava a obter os resultados esperados.

Por isso mesmo, os responsáveis por aquela publicação começaram a analisar o tipo de conteúdos que deveriam ser exclusivos para subscritores e, em vez de os assinalarem com um “cadeado”, passaram a identificá-los através de um “diamante”.

“O símbolo do cadeado passou a ser reconhecido mundialmente enquanto um identificador da ‘Paywall’”, disse o editor-executivo, Kaius Niemi, em entrevista para o “Nieman Lab”. “Sentimos, contudo, que o cadeado não simboliza valor acrescentado no jornalismo, ou ‘storytelling’ avançado. Por outro lado, acaba por ter uma conotação negativa, já que fecha a porta a um potencial subscritor. Os diamantes, por sua vez, ilustram o trabalho árduo dedicado a cada história”.

Graças a estas iniciativas, a equipa editorial daquele jornal finlandês percebeu que estava a apostar em temáticas que não chamavam a atenção dos leitores, e decidiram investir em artigos sobre sociedade, cultura e “lifestyle”.

Relatório aponta prioridade para o jornalismo isento e objectivo Ver galeria

As audiências valorizam a imparcialidade no jornalismo, e justificam a convicção de que os artigos noticiosos e as colunas de opinião devem ser, claramente, distinguidas, aponta o estudo The Relevance Of Impartial News In A Polarised World, encomendado pela Universidade de Oxford.

De acordo com este relatório -- que contou com 52 participantes, provenientes da Alemanha, do Brasil, dos Estados Unidos e do Reino Unido -- a informação objectiva e a contextualização devem estar no centro de qualquer formato noticioso.

Neste sentido, os participantes do estudo alertaram para o facto de as peças noticiosas e as colunas de opinião não serem facilmente identificáveis em formatos “online”, ao contrário do que acontece nas publicações em formato de papel.

“As audiências valorizam a opinião como um suplemento dos factos, mas, na sua generalidade, querem que a informação objectiva seja estabelecida em primeiro lugar. O público preocupa-se, também, com a mistura destes dois formatos”.

Os jornais assumem-se, assim, como a fonte noticiosa mais fiável, embora alguns leitores mais jovens considerem que estas publicações transmitem “ideais conservadores”, com os quais não se identificam.

Por outro lado, os participantes afirmam que as redes sociais não são boas fontes noticiosas, já que os seus algoritmos dão prioridade aos artigos de opinião, sem que estes estejam identificados como tal.

“Nas redes sociais, torna-se difícil distinguir entre notícias e a opinião, devido à falta de pistas. Algumas pessoas consideram que isto é um problema”, indica o relatório. “Alguns temem que o conteúdo de opinião esteja a contaminar as notícias. Outros assumem, simplesmente, que a opinião é uma característica inerente a estas plataformas”.

O Clube


Conhecidas as propostas do governo para o Orçamento de Estado, verifica-se que o sector dos media continua a ser o “parente pobre”, sem atrair medidas de reanimação capazes de corrigirem e de equilibrarem o plano inclinado em que se encontra a maioria das empresas jornalísticas, já periclitantes antes de serem fortemente flageladas pela pandemia.
O Sindicato dos Jornalistas lamenta-o e estranha que o OE ignore “completamente as dificuldades da comunicação social”. As associações do sector, como é o caso do CPI, certamente não menos.
O documento é omisso em medidas de apoio, que possam contribuir para inverter o declínio das vendas de jornais e revistas, sem pôr em causa a independência das publicações.
O bom jornalismo não precisa de ser subsidiado, mas implica redacções ágeis e com capacidade de resposta, que não dependam das redes sociais para medirem a realidade.
Com as contas no “vermelho”, as empresas editoriais não dispõem , contudo, de meios nem de condições propícias ao investimento, por exemplo, na reportagem de investigação.
Os jornalistas saem cada vez menos e a pandemia, com o teletrabalho, mais acentuou esse défice de contacto com o exterior.
É impossível não concordar com o SJ quando este defende várias medidas, como a criação de um voucher de 20 euros por agregado familiar para assinaturas ou compra de jornais e revistas, o desconto do IVA de produtos de media no IRS e a oferta de jornais ou de uma assinatura digital a todos os jovens que completem 18 anos.
Salva-se apenas a digitalização, a única que tem verbas disponíveis no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR). É importante. Mas não é exclusivamente por aí que se salvam os media em sérias dificuldades, que lutam pela sobrevivência. E que são um pilar da democracia. Eis um debate urgente ao qual nos associamos.


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The African Investigative Journalism Conference
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10:00 @ Evento "Online" da GIJN
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LinkedIn para Jornalistas
10:00 @ Cenjor