Terça-feira, 26 de Outubro, 2021
Opinião

O que une radicais de direita e de esquerda

por Francisco Sarsfield Cabral

Contra o que frequentemente se julga, um radical de direita não está a uma distância de 180 graus de um radical de esquerda. Ambos partilham um desprezo pela democracia liberal, que consideram um regime político “mole”, sem “espinha dorsal”. Não aceitam que quem pense de maneira diferente da nossa não seja um inimigo a abater.

 No passado dia 1 a Eslovénia sucedeu a Portugal na presidência semestral da UE. Este pequeno país de 2 milhões de habitantes fez parte da Jugoslávia. Independente desde 1991, aderiu à UE em 2004, juntamente com vários outros países da antiga órbita soviética.

A Eslovénia tem um primeiro-ministro, Janz Jansa, grande admirador de Trump e de V. Orbán. Não admira, assim, que a liberdade de imprensa seja atacada naquele país por duas vias: pela censura mais ou menos dissimulada e pela multiplicação de órgãos de mera propaganda governamental e de ataque a jornalistas independentes.    

“Jansa sempre foi um radical, primeiro era um comunista radical, depois tornou-se um anti-comunista radical”, disse à enviada do “Público” Sofia Lorena uma jornalista eslovena, acrescentando que  “é a mesma escola, Jansa acha que os media, principalmente os públicos, têm de estar ao seu serviço, ser ferramentas de propaganda do Governo.”


Ora aquilo que aproxima radicais de direita de radicais de esquerda inclui decerto não gostarem do jornalismo independente, mas é mais do que isso. Contra o que frequentemente se julga, um radical de direita não está a uma distância de 180 graus de um radical de esquerda. Ambos partilham um desprezo pela democracia liberal, que consideram um regime político “mole”, sem “espinha dorsal”.

 

Os radicais não entendem que, na sociedade pluralista, os que pensam de maneira diferente da nossa sejam adversários com quem convivemos pacificamente, muito embora tentemos convencê-los democraticamente a mudar de ideias. Adversários que, como nós, têm os mesmos direitos de qualquer cidadão.

 

A democracia liberal é um acordo para discordar. A sua raiz histórica está na superação das guerras de religião, que flagelaram a Europa depois da reforma protestante e levaram milhões de europeus a emigrarem para a América do Norte, antes ainda da independência dos EUA. As guerras religiosas são as mais ferozes de todas, pois nesse caso o inimigo está contra o nosso Deus, é o diabo. E em relação ao diabo não pode haver convivência pacífica, vale tudo para calar e suprimir os que o servem.

 

É triste que hoje seja um americano, Trump, a liderar a ofensiva contra a democracia liberal, ofensiva seguida por vários autocratas. Até há quatro décadas atrás quem liderava esse lamentável combate era o comunismo soviético. Agora o implacável ditador chinês Xi Jinping quer mostrar ao mundo que a democracia liberal é “decadente”. E Putin, sem ideologia que não seja o poder pelo poder, também pretende atacar esse regime onde se concorda em discordar. 

 

Neste quadro de ataques à liberdade de expressão, pilar básico da democracia liberal, em Portugal é preocupante que a Assembleia da República tenha aprovado o já  célebre artigo 6.º da Lei n.º 27/2021. As intenções desta lei são respeitáveis, pois pretende defender-nos contra as notícias falsas. Mas a sua concretização abre a porta a um possível regresso da censura, com outro nome naturalmente. Alguns destacados deputados socialistas já o entenderam. Mas a maioria dos membros do Parlamento não percebeu o risco que a liberdade de expressão poderá correr se aquele artigo se mantiver com força de lei.         

 

(texto puiblicado originalmente no site de Rádio Renascença)


Connosco
Jornal finlandês troca "cadeados" por "diamantes" para atrair assinantes Ver galeria

Com a era digital, vários jornais passaram a apostar nos conteúdos “online”, recorrendo às “paywalls” para obter receitas.

Este novo modelo de negócio foi introduzido um pouco por toda a Europa, incluindo na Finlândia, onde o jornal “Helsingin Sanomat” conta com a subscrição de 48% de todos os assinantes de produtos noticiosos do país.

Conforme apontou Hanaa Tameez num artigo publicado no “Nieman Lab”, o "Helsingin Sanomat” foi fundado em 1889, quando a Finlândia ainda integrava o Império Russo. Agora, este jornal é detido pelo Grupo Sanoma, que controla 40 outras marcas mediáticas naquele país.

Em 2016, continuou Tameez, os editores do “Helsingin Sanomat” chegaram à conclusão de que a “paywall” não estava a obter os resultados esperados.

Por isso mesmo, os responsáveis por aquela publicação começaram a analisar o tipo de conteúdos que deveriam ser exclusivos para subscritores e, em vez de os assinalarem com um “cadeado”, passaram a identificá-los através de um “diamante”.

“O símbolo do cadeado passou a ser reconhecido mundialmente enquanto um identificador da ‘Paywall’”, disse o editor-executivo, Kaius Niemi, em entrevista para o “Nieman Lab”. “Sentimos, contudo, que o cadeado não simboliza valor acrescentado no jornalismo, ou ‘storytelling’ avançado. Por outro lado, acaba por ter uma conotação negativa, já que fecha a porta a um potencial subscritor. Os diamantes, por sua vez, ilustram o trabalho árduo dedicado a cada história”.

Graças a estas iniciativas, a equipa editorial daquele jornal finlandês percebeu que estava a apostar em temáticas que não chamavam a atenção dos leitores, e decidiram investir em artigos sobre sociedade, cultura e “lifestyle”.

Relatório aponta prioridade para o jornalismo isento e objectivo Ver galeria

As audiências valorizam a imparcialidade no jornalismo, e justificam a convicção de que os artigos noticiosos e as colunas de opinião devem ser, claramente, distinguidas, aponta o estudo The Relevance Of Impartial News In A Polarised World, encomendado pela Universidade de Oxford.

De acordo com este relatório -- que contou com 52 participantes, provenientes da Alemanha, do Brasil, dos Estados Unidos e do Reino Unido -- a informação objectiva e a contextualização devem estar no centro de qualquer formato noticioso.

Neste sentido, os participantes do estudo alertaram para o facto de as peças noticiosas e as colunas de opinião não serem facilmente identificáveis em formatos “online”, ao contrário do que acontece nas publicações em formato de papel.

“As audiências valorizam a opinião como um suplemento dos factos, mas, na sua generalidade, querem que a informação objectiva seja estabelecida em primeiro lugar. O público preocupa-se, também, com a mistura destes dois formatos”.

Os jornais assumem-se, assim, como a fonte noticiosa mais fiável, embora alguns leitores mais jovens considerem que estas publicações transmitem “ideais conservadores”, com os quais não se identificam.

Por outro lado, os participantes afirmam que as redes sociais não são boas fontes noticiosas, já que os seus algoritmos dão prioridade aos artigos de opinião, sem que estes estejam identificados como tal.

“Nas redes sociais, torna-se difícil distinguir entre notícias e a opinião, devido à falta de pistas. Algumas pessoas consideram que isto é um problema”, indica o relatório. “Alguns temem que o conteúdo de opinião esteja a contaminar as notícias. Outros assumem, simplesmente, que a opinião é uma característica inerente a estas plataformas”.

O Clube


Conhecidas as propostas do governo para o Orçamento de Estado, verifica-se que o sector dos media continua a ser o “parente pobre”, sem atrair medidas de reanimação capazes de corrigirem e de equilibrarem o plano inclinado em que se encontra a maioria das empresas jornalísticas, já periclitantes antes de serem fortemente flageladas pela pandemia.
O Sindicato dos Jornalistas lamenta-o e estranha que o OE ignore “completamente as dificuldades da comunicação social”. As associações do sector, como é o caso do CPI, certamente não menos.
O documento é omisso em medidas de apoio, que possam contribuir para inverter o declínio das vendas de jornais e revistas, sem pôr em causa a independência das publicações.
O bom jornalismo não precisa de ser subsidiado, mas implica redacções ágeis e com capacidade de resposta, que não dependam das redes sociais para medirem a realidade.
Com as contas no “vermelho”, as empresas editoriais não dispõem , contudo, de meios nem de condições propícias ao investimento, por exemplo, na reportagem de investigação.
Os jornalistas saem cada vez menos e a pandemia, com o teletrabalho, mais acentuou esse défice de contacto com o exterior.
É impossível não concordar com o SJ quando este defende várias medidas, como a criação de um voucher de 20 euros por agregado familiar para assinaturas ou compra de jornais e revistas, o desconto do IVA de produtos de media no IRS e a oferta de jornais ou de uma assinatura digital a todos os jovens que completem 18 anos.
Salva-se apenas a digitalização, a única que tem verbas disponíveis no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR). É importante. Mas não é exclusivamente por aí que se salvam os media em sérias dificuldades, que lutam pela sobrevivência. E que são um pilar da democracia. Eis um debate urgente ao qual nos associamos.


ver mais >
Opinião
Agenda
01
Nov
The African Investigative Journalism Conference
10:00 @ Joanesburgo, África do Sul
02
Nov
Global Investigative Journalism Conference
10:00 @ Evento "Online" da GIJN
18
Nov
22
Nov
28
Nov
LinkedIn para Jornalistas
10:00 @ Cenjor